Crônica

A sabedoria dos antigos

Por: Walcyr Carrasco - Atualizado em

cronica_2147
(Foto: Veja São Paulo)

Todo início de ano gosto de olhar a vida como os antigos faziam. Em tempos distantes, até mesmo nas civilizações perdidas, a sociedade era fundamentalmente agrária. Não é preciso ser adepto da astrologia para se fascinar com a descrição mais tradicional da passagem dos signos, refletindo os ciclos da terra camponesa. Áries, o primeiro do zodíaco, representa o solo pronto para ser trabalhado. Touro, o momento em que é preparado para o cultivo (no passado, o touro puxava o arado!). E assim por diante, com as espigas douradas do trigo explodindo ao sol em Leão. Faço todas as simpatias possíveis no réveillon, invento promessas de ano novo. No fundo, é um jeito de agir idêntico ao de algum antepassado. Em janeiro a vida se assemelha à terra pronta para ser trabalhada, semeada. Subitamente minhas esperanças se confundem com as de algum outro homem de milhares de anos atrás, diante da passagem do tempo. No passado, as pessoas entendiam esses ritmos. Minhas avós, imigrantes espanholas, depois de anos calejando as mãos na roça, contavam com cuidar dos netos na velhice e, por sua vez, ser cuidadas pelos filhos. O mundo mudou. E não se entende mais as passagens da vida. Outro dia conheci um rapaz que simplesmente não pretende trabalhar. Herdou um bom dinheiro e está gastando. Como se já tivesse feito a colheita, mas nem sequer semeou! O que acontecerá quando a fortuna acabar? Conheço uma senhora de mais de 60 que se recusa a envelhecer. Ninguém tem de ter uma vida chata. Mas alegria não é sinônimo de juventude. Por que a idade madura e a velhice não podem ser alegres? Por que essa exaltação da juventude, como se fosse a única fase possível para a felicidade? (Eu, nos meus 20 anos, era inseguro e angustiado!) Por mais plásticas que faça, a pessoa jamais parecerá ter 20. Mesmo que fosse possível: as colheitas da vida, boas e más, farão com que seu comportamento seja diferente. Não é preciso desistir dos sonhos. Mesmo porque os sonhos não envelhecem, como sementes estocadas muito tempo até germinarem. Mas também as passagens da vida dão outra dimensão a esses sonhos. Nesta existência, nunca serei um pugilista famoso. Mas ainda posso aprender boxe se quiser, e me divertir. Já quis ser pintor. Minhas telas estão dependuradas nas paredes de casa, e dizem que são boas. Posso voltar aos pincéis. Mas será por prazer, sem o objetivo profissional da adolescência. Não vou dar a volta ao mundo em um veleiro nem participar de uma escavação arqueológica no Egito. Há coisas que não farei mais, outras só posso fazer agora. Busco entender o ritmo delicado da minha terra particular. Penso que sou crítico demais. Acho patético quem não admite as passagens da vida: pessoas maduras com trajes adolescentes, que as tornam mais velhas ainda; jovens executivos sérios, secos, incapazes de aproveitar o desprendimento de sua idade. Também me espanta quem não aceita o tempo alheio e cobra amadurecimento excessivo de um adolescente ou disposição absoluta de um velho. Alegria de quem sofreu uma perda. Comedimento de quem conquistou uma vitória. Admiro a sabedoria dos antigos, para quem na vida havia um tempo de semear, de colher e do descanso até a nova preparação da terra para, mais uma vez, plantar! É um jeito simples de olhar a vida, mas que agora, em janeiro, fala muito ao meu coração. Diz o velho adágio: ano novo, vida nova. Eu sorrio e penso nos frutos que ainda vou colher.

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO