Profissão

O DJ do crematório da Vila Alpina

A rotina de Luizinho Esquilante, o responsável pelas músicas que tocam no local

Por: Pedro Henrique Araújo

Luiz Carlos Esquilante - Perfil - 2270 - Profissão
Luizinho, na sala das cerimônias: “Nunca pensei em ganhar a vida desta maneira” (Foto: Mario Rodrigues)

O ambiente de pouco mais de 2 metros quadrados tem um computador antigo, um armário com algumas dezenas de CDs espalhados, dos mais variados gêneros, e uma estante forrada com aparelhos eletrônicos, cada um com uma função específica. Todos os equipamentos do pequeno estúdio são habilmente controlados por Luiz Carlos Esquilante, de 55 anos. Ele rapidamente seleciona as canções que serão tocadas, separa o material e aperta a tecla “play” no momento certo. Seria uma rotina parecida com a de outros DJs da cidade, não fosse o local de trabalho do profissional: o crematório da Vila Alpina, na Zona Leste. Faz quatro anos que Luizinho, como o funcionário é mais conhecido, responde pela trilha sonora das cerimônias ali realizadas. “Nunca imaginei que fosse ganhar a vida com isso”, afirma. “Mas já me acostumei ao dia a dia da função.”

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Sua rotina começa às 7 da manhã. Ele anuncia no microfone o nome do próximo falecido que será conduzido à sala ecumênica, espera a família e os amigos se acomodarem nas cadeiras e aperta o botão que faz subir automaticamente o caixão para o centro do auditório. Depois de uns trinta segundos, solta a primeira canção. A Ave Maria, na versão do compositor Franz Schubert, está entre as campeãs de execução. Para as pessoas mais indecisas, mantém por perto uma pasta com algumas sugestões, como “Wish You Were Here” (Gostaria que Você Estivesse Aqui, em português), do Pink Floyd. O ritual se repete em média 25 vezes por dia. No fim do mês, Luizinho embolsa um salário de pouco mais de 2.000 reais. Raramente ele ouve música fora do local do trabalho. “Gosto do que toco por aqui e prefiro ficar em silêncio quando estou em casa”, conta ele, que mora na Penha, também na Zona Leste.

Estúdio - Perfil - Profissão - 2270
O pequeno estúdio: coleção de CDs catalogados (Foto: Mario Rodrigues)

Na maior parte das vezes, a trilha sonora do velório é escolhida pelos parentes. Dependendo da encomenda, Luizinho pode engatar até três músicas na sequência. Ele nunca esquece a ocasião em que uma senhora apareceu com um CD gravado pelo falecido marido. Segundo ela, o finado era uma pessoa bastante espirituosa, que vivia repetindo que o dia de sua morte deveria ter um clima de festa. “Quando pus o disco para rodar, a música escolhida era “Festa no Apê”, do Latino”, revela. “Tive de repetir quatro vezes.” Em outro episódio marcante, a viúva, muito magoada com uma série de afrontas cometidas pelo ex-companheiro, resolveu se vingar, fazendo uma homenagem às avessas. A canção eleita por ela foi o hit "Você Não Vale Nada", do grupo de forró Calcinha Preta, para surpresa do estupefato grupo de presentes.

Luizinho caiu por acaso nessa área. No fim dos anos 70, desempregado e prestes a se casar, ele acabou aceitando ocupar a vaga de coveiro do Cemitério da Penha. Ficou por lá 23 anos, exercendo também as funções de sepultador e exumador. Em 2002, mudou de endereço. Começou na Vila Alpina como operador do forno onde são cremados os corpos. Ele diz ter tido, nessa fase, algumas experiências sobrenaturais. “Certa vez, ouvi um assobio ao meu lado”, garante. “Quando me virei, não havia ninguém ali por perto.” Apesar do susto, continuou firme no batente, até que surgiu a oportunidade de atuar como o mestre de cerimônias. Com o dinheiro do serviço funerário, criou um casal de filhos. “Mas eles não querem saber de seguir minha carreira”, diz.

Ele pensa em aposentar-se daqui a um ano e meio ou dois. Quem vai contra a decisão dele é sua chefe, Filomena Luiza Falconi, a supervisora do crematório. “Ele fala que vai parar, mas a gente não deixa”, brinca. Graças a uma vida regrada, sem espaço para excessos, o “DJ do adeus” chegou aos 55 anos com ótima saúde. Isso não o impede de pensar no futuro. Acostumado a ver tantas famílias sendo pegas de surpresa, já deixou acertados alguns detalhes de sua própria cerimônia fúnebre. “Quero ser cremado também, pois acho mais higiênico”, diz. E qual música vai soar naquele recinto em frente à sua sala quando o caixão estiver subindo pelo elevador? “Tem de tocar o hino do Corinthians. E bem alto, para saberem que é um gavião que está indo embora.”

 

Os hits fúnebres

As canções mais pedidas durante as cerimônias

Ave Maria - Franz Schubert

Ave Maria - Charles Gounod

Nossa Senhora - Roberto Carlos

Pai - Fábio Jr.

Prece de Cáritas - Locução de Cid Moreira

Como É Grande o Meu Amor por Você - Roberto Carlos

Pegadas na Areia - Locução de Cid Moreira

Hino do Sport Club Corinthians Paulista

Noturno - Frédéric Chopin

10º What a Wonderful World - Louis Armstrong

Fonte: VEJA SÃO PAULO