Crônica

A medida de cada um

Por: Ivan Angelo

crônica da edição 2379
(Foto: Divulgação)

Leio: vereador de São Paulo usa laranjas para ser o dono escondido de vários micro-ônibus do transporte público da cidade, integrados a uma cooperativa, sendo que a lei só permite a posse de um por pessoa, pelo qual a prefeitura paga 25 000 reais por mês.

Penso: se não houvesse laranjas no meio do zé-povinho fazendo-se passar por donos de micro-ônibus, ganhando nessa fraude 2 000 reais, como o negócio ia prosperar?

Leio: deputado estadual dono de peruas de transporte se reúne com quadrilhas do PCC, também donas de peruas, para combinar como agir durante a greve dos motoristas de ônibus —  quadrilhas de bandidos que são investigadas por queimar ônibus de linhas concorrentes!

Penso: porteiros de edifícios de apartamentos se associam a quadrilhas que praticam roubos em apartamentos.

Leio: administradores e deputados estaduais desviaram do sistema de metrô e trens metropolitanos de São Paulo, sob as formas de propina e superfaturamento, algo estimado em 1 bilhão de reais, que foram para seus bolsos e para contas no exterior.

Penso: fiscais pés de chinelo cobram propina todos os dias dos camelôs do Brás, da Mooca, da 25 de Março e de todos os vendedores de rua Brasil afora.

Leio: 90% das obras sociais do entorno dos estádios da Copa não foram realizadas, tais como vias de acesso modernas, transporte público de qualidade, parques, áreas e equipamentos de estar e lazer, praças esportivas públicas etc. —única razão para associar este Mundial ao progresso das cidades e do país.

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Penso: a gente não consegue nem que um pedreiro ou um marceneiro entreguem no prazo ou no preço acertado qualquer reforma em nossa própria casa.

Leio: graduados executivos da Petrobras explicaram em depoimento nas CPIs que a compra da refinaria de Pasadena foi apenas um mau negócio, que pode acontecer na área volátil dos combustíveis.

Penso: a venda de gasolina adulterada nos postos ou a subtração de combustível do tanque dos carros nos estacionamentos são apenas um pequeno bom negócio do setor de combustíveis.

Leio: um agricultor bilionário, um governador e vários deputados estão no centro de uma investigação federal sobre desvio de recursos públicos, lavagem de dinheiro e corrupção no Centro-Oeste do país; produtores de leite adicionam soda cáustica e água oxigenada para "salvar" leite vencido; desvios na merenda escolar; propinas na CBF e na Fifa...

Penso: pessoas que não precisam se aproveitam do Bolsa Família; espertos fraudam documentos para se aposentar; nos supermercados, fregueses comem chocolates, biscoitos, tomam iogurte e não pagam no caixa; motoristas preenchem a ficha de estacionamento da Zona Azul com dez a trinta minutos além da hora real de parada; outros a preenchem com caneta de tinta lavável; proprietários de carros usados reduzem a quilometragem para vendê-los melhor; morador faz gato de energia elétrica, deágua e de sinal de TV a cabo; fregueses subtraem livros e discos nas livrarias, roupas nas lojas, óculos nas óticas... 

Leio: durante o regime militar, a censura cortava as notícias de escândalos que envolviam políticos amigos e empresários contribuintes, o Ministério Público não investigava e a Polícia Federal era um órgão burocrático obediente, e por isso a corrupção visível era menor. Depois da Constituição de 1988, e principalmente da nova atuação do Ministério Público e da Polícia Federal, os malfeitos foram aparecendo, os números crescendo: seis na época do Sarney; dezenove na do Collor; 32 na do Itamar; 44 na do FHC; 101 na do Lula.

E penso: a desonestidade passou a fazer parte do caráter nacional ou sempre fez?

ivan@abril.com.br

Fonte: VEJA SÃO PAULO