CRÔNICA

A gente se entende

Por: Ivan Angelo - Atualizado em

Ilustração Ivan Angelo
(Foto: Ilustração)

As línguas nacionais são sempre ricas de expressões criativas, engenhosas e de compreensão instantânea, apesar de elaboradas. Algumas têm tanto engenho que as saboreamos como frutas. Outras, no entanto, só são entendidas porque nos acostumamos com elas, nos habituamos a usá-las. Entendemos seu recado, embora o conjunto das palavras em si não faça sentido; não atinamos com sua lógica, ou a perdemos ao longo dos séculos; guardamos seu significado, não sua explicação.

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Dou um exemplo, para ficar mais claro: “rasgar seda” significa fazer uma gentileza, tecer elogios, trocar amabilidades. Como assim, “rasga rseda”? Por que isso significaria troca de gentilezas, desfazer-se em amabilidades? Pode se fantasiar que alguém, em tempos remotos, ao tentar ajudar outra pessoa, se esforçou tanto que rasgou sua camisa de seda, rasgou seda. Mera hipótese humorística, lereia.

Quando um jogador de futebol joga demais se diz: “comeu a bola”. Como assim, “comeu”? Neymar comeu a bola. A expressão não é tão velha, mas sua lógica já nos escapa. Comeu, engoliu, não deixou para mais ninguém — seria isso? De novo hipóteses...

Quem está com gosto ruim na boca, aquela lembrança matinal de bebida ruim e cigarro, costuma dizer que amanheceu “com gosto de cabo de guarda-chuva na boca”. Quem provou cabo de guarda-chuva para saber? Já ouvi isso de tanta gente... — significaria que essa degustação é experiência comum?

Vejam bem: não falo de ditados, mas de forças de expressão do dia a dia. A maioria tem sua lógica, como “macacos me mordam”; a lógica é que dói muito, e clama-se como autopunição condicional, “macacos me mordam se eu aceitar uma coisa dessas”. Tem lógica dizer “saiu catando cavacos” quando uma pessoa sai aos trambolhões. Tem lógica dizer que “a vaca foi para o brejo” quando alguma coisa dá errado, porque vaca no brejo se atola e não sai mais, morre lá. Igualmente têm lógica as expressões “enfiou o pé na jaca”, “sentou na maionese”, “urinou fora do penico”, “caiu do cavalo”, “abraço de tamanduá”, “espírito de porco”, “cabeça de vento” etc.

O curioso é que se continua a usar quando não se sabe mais explicar. Coisas simples e corriqueiras. Por exemplo: “quebrar o galho”, “me quebra esse galho”, “vou quebrar o seu galho”. Como assim? Para que serviu na primeira vez? Que se quis dizer com isso? De novo uma hipótese de humor: no tempo dos bandeirantes, facões nas mãos desbastando os matos, um quebra o galho para o outro, e vão quebrando galhos...

“Vias de fato”. Sabe-se que são sopapos, qualquer um diz “foram às vias de fato”, mas qual é a lógica dessas palavras? Não é o mesmo caso de “via de regra”, porque aí se sabe que é uma redução de “por via de regra”, segundo o costume.

Muita gente diz para outra pessoa: “Você é de morte”. Sabe-se o que é, mas tem lógica? Tinha até marchinha de Carnaval: “Ela é de morte”... “Pintar os canecos”. “Pintar o sete”. Quem desfaz esse mistério? Diz-se de uma pessoa muito bagunceira, muito travessa: “Ela pintou o sete” — mas por quê?

Há algumas muito antigas, que já ninguém usa, mas se encontram a toda hora em livros que os jovens leem para o vestibular. “Deu às de Vila Diogo” é uma delas. Sabe-se que significa deu no pé, fugiu, mas como se explica? Nem a sintaxe se entende. Quem era o Neves que morreu na expressão “até aí morreu o Neves”? É como quem morre na fila do SUS, esperando.

Reparem nesta: “negou de pés juntos”, ou “de pé junto”, como o povo diz. É diferente de negar de pés separados?

Quando Fernando Gabeira foi preso, baleado em São Paulo por agentes do regime militar, seu velho pai comentou na venda que tocava em Juiz de Fora, Minas Gerais: “Meteu-se em camisa de onze varas”. A filha Marisa, que lhe deu a notícia, entendeu, e entende-se: meteu-se numa confusão que não tem saída, está ferrado. De onde veio a expressão? Suponho que era camisa de amarrar doido, entremeada de varas para reforço, mas será? Pesquiso e leio que as camisas usadas nos hospitais (“a alva dos padecentes”) eram feitas com 11 varasde pano. Será? Vou atrás: 1 vara media 1,10 metro. Como fazer uma camisa de 12 metros de tecido? Lereia.

e-mail: ivan@abril.com.br

Fonte: VEJA SÃO PAULO