Crônica

A festa

Por: Walcyr Carrasco - Atualizado em

Meu aniversário se aproxima. Data ingrata, dezembro. O mês é belo. Mas passei a infância toda ouvindo da minha mãe:

– Vai ganhar só uma lembrança, e no Natal vem presente melhor!

Família de classe média é assim, economiza em um para compensar no outro. Tenho certeza de que os nascidos em janeiro ouviram argumentos semelhantes, e assim por diante! Seria um trauma, se não fosse a vida. Hesito: faço festa ou não? Já descartei a alternativa de reunião para poucas pessoas. Sempre alguém fica sabendo e se magoa por não ter sido convidado. Minha última tentativa reuniu cinco amigos e dois cardápios: parte não comia peixe, outros eram vegetarianos. Ao cortar o bolo, descobri: quase todos estavam de regime e não comiam mais açúcar! Já faz tempo, dei uma grande festa. Chamei um bufê. O dono me convenceu a optar pelo estilo tailandês. Foi original! Garçons circulavam com pintas na testa. Servimos arroz de coco e espetinhos de frango com manga. Eu mesmo quase nem comi. Convidei gente que não encontrava havia séculos. Muitos não se conheciam entre si. Passei a noite toda saltitando de grupo em grupo.

– E aí, tudo bem?

– Pois é, que saudade!

– A gente precisa se ver mais.

– Agora que tenho seu telefone de novo, vamos marcar alguma coisa.

– Na semana que vem?

– Na semana que vem não posso, estou atolado. Na outra?

– Na outra sou eu que não posso. Vamos fazer o seguinte, a gente se telefona.

– Isso, se telefona!

Nunca mais...

Meu quarto foi inundado por presentes. Eu poderia ter aberto um bazar beneficente em prol de mim mesmo, tantos os pavõezinhos de barro, gatinhos de madeira, camisetas dois números abaixo do meu, livros que eu já lera! Também poderia ter ganho o prêmio de melhor ator ao receber uma estatueta de porcelana horrenda e sorrir com os dentes arreganhados.

– Oh, que linda, mas é linda, linda.

– Onde você vai pôr?

– Ahn... Hoje vou guardar porque tem muita gente e pode quebrar, mas amanhã vou achar um lugarzinho de destaque!

Anotei mentalmente para tirar a peça do esconderijo e botar numa estante cada vez que a pessoa ameaçasse me visitar!

O último convidado, feliz, saiu às 4h30 da manhã. Exausto, caí sentado. Só então devorei uns espetinhos frios e comi um bom pedaço de bolo. Só ficara no social! Entendi por que minha amiga Priscila às vezes foge das próprias festas. Tranca-se no quarto para descansar dos convidados, acreditam?

Eu me sentia realizado. Dias depois, encontrei um grande amigo. Ousei:

– Gostou da festa?

– Mas você é pão-duro, hein? Só serviu frango! Por que não tinha camarão?!?

Eu havia raspado o tacho! Ainda tentei murmurar que era um evento asiático, mas foi inútil. Soube depois que a fama se espalhara: eu era um unha-de-fome!

Alguns amigos espertos avisam que não farão festa. Mas ficarão em casa no caso de alguém passar. O Beto é assim. Passa o dia no fogão, cozinhando. Compra bolo, bebidas. A noite vai chegando, e ele fica cada vez mais apavorado, com medo de que ninguém apareça. Quase tem um ataque cardíaco de tanta tensão. Aos que chegam, diz:

– Que bom que veio! Olha, eu não fiz nada!

Se algum amigo some, fica ofendidíssimo!

Cá estou eu, tenso! Aniversário à vista! Já ligam perguntando:

– Vai fazer alguma coisa?

Faço festa? Passo em branco?

Mas uma coisa é de lei: o bolo. Com festa ou sem, faço questão de apagar as velinhas. A cada passagem sinto necessidade do ritual. Só tenho um medo: à medida que a idade aumenta, corro o risco de provocar um incêndio ao acender tantas velinhas de uma vez!

Fonte: VEJA SÃO PAULO