Negócios

A expansão do Sujinho

Famosa por servir bisteca de boi até as 5 da manhã, a casa abre hamburgueria

Por: D.S. - Atualizado em

Sujinho_2143
O proprietário Manuel Afonso da Rocha: “Não precisamos aceitar cartões de crédito ou débito” (Foto: Fernando Moraes)

Em São Paulo, onde chefs são tratados como celebridades e refeições podem custar quatro dígitos, há uma série de restaurantes e bares que parecem fazer sucesso principalmente por ter cardápio pouco elaborado, acomodações modestas e atendimento informal. Instalado na Rua da Consolação, 2078, na esquina com a Rua Maceió, o Sujinho é um dos representantes mais conhecidos desse universo. Quando abriu as portas, provavelmente nos anos 20 — os proprietários atuais não sabem a data exata —, funcionava como um misto de boteco e armazém. Vendia de cachaça a aparelho de barbear. Logo começou a fazer sucesso pela bisteca de boi, que até hoje, com pequenas adaptações, é o carrochefe do cardápio. Na década de 60, graças à proximidade com os antigos estúdios da TV Record, onde Roberto Carlos gravava o programa Jovem Guarda, o local passou a ser frequentado por artistas, que se misturavam a taxistas, prostitutas e outras figuras da noite.

O nome nada convidativo, criado pelos próprios clientes, foi oficializado pelo português Manuel Afonso da Rocha, que comprou a casa em 1984. Sob seu comando, o restaurante ganhou duas filiais vizinhas e uma unidade no centro. Continua a atrair uma clientela variada, sendo visitado com assiduidade, por exemplo, pela atriz Claudia Raia. “Vou ao Sujinho desde os 17 anos e sempre que estou em São Paulo dou um jeito de ir até lá”, diz ela. “A chuleta e a salada de agrião são inesquecíveis.” A maior propaganda da casa foi feita pelo presidente Lula em 1994, antes de disputar sua segunda eleição presidencial. Ao deixar uma churrascaria em Nova York, reclamando do filé de 60 dólares que havia comido, sentenciou: “A bisteca do Sujinho é muito melhor”. 

Sujinho2_2143
A nova investida do grupo: pedidos anotados em palmtops e porta automática (Foto: Fernando Moraes)

 O pequeno império — que fatura mensalmente cerca de 250 000 reais — foi expandido no mês passado, com a inauguração da Hamburgueria do Sujinho (Rua Maceió, 64). Com paredes texturizadas, televisores de plasma e porta automática, o ambiente não lembra em nada a atmosfera um tanto antiquada da matriz. Os pedidos são anotados em palmtops. “Queríamos atrair os jovens, e hoje eles só frequentam lugares que têm essas coisas”, afirma Afonso Henriques, de 46 anos, filho único e sócio de Rocha. As carnes, preparadas em grelha de carvão, ganham um sabor defumado. No cardápio há hambúrgueres de três tamanhos (80, 160 e 250 gramas), que podem ser combinados a diversos acompanhamentos, como a famosa salada de repolho curtido da casa-mãe. Entre os lanches especiais, destaque para o mathias, um suculento bife de 160 gramas coberto de cheddar e cebola (11,10 reais). O hot-dog minas gerais leva um salsichão, molho bolonhesa e purê de batata (8 reais). De sobremesa, faz sucesso o milk-shake de Nutella (10,50 reais, 300 mililitros).

Assim como nas demais unidades do Sujinho, cartões de débito e crédito não são aceitos. A justificativa, afixada nos cardápios de todas as casas da rede, é a taxa cobrada pelas administradoras de cartões. Que tanto Rocha como Henriques admitem não saber qual é. “Essas empresas ficam com parte de nosso dinheiro sem fazer absolutamente nada”, esbraveja Rocha, de 72 anos. “Não precisamos delas. Nossa clientela já sabe que tem de passar no caixa eletrônico ou trazer o talão de cheques para vir aqui.” Pai e filho juram que não possuem cartão de crédito e que jamais recorrem ao de débito para pagar uma conta. “Andamos sempre com dinheiro na carteira”, explica Rocha. “Assim ficamos com pena de gastá-lo.” No comando da nova empreitada está Bruno Rocha, de 19 anos, seu neto mais velho. “Trabalhar com parente é muito complicado”, diz Henriques, com a experiência de quem há 25 anos dá expediente ao lado do pai. “Para evitar atritos, queremos que ele voe com as próprias asas quanto antes.”

Fonte: VEJA SÃO PAULO