Teatro

“45 Minutos” mostra o triste fim de um ator

Caco Ciocler brilha no monólogo, cujo texto questiona o papel do artista

Por: Dirceu Alves Jr.

Abre Teatro 2225 - 45 Minutos - Caco Ciocler
Caco Ciocler: responsabilidade com as palavras (Foto: Guga Melgar)

Nos últimos quinze anos, o ator paulistano Caco Ciocler estabeleceu uma carreira regular na televisão sem abandonar o palco em momento algum. Entre um mocinho de novela e outro, ele somou desempenhos nos dramas “Os Sete Afluentes do Rio Ota”, “O Senhor das Flores” e “Aldeotas”, além da comédia “Casting”. Sua atual incursão, no entanto, é um risco ao qual só um intérprete seguro pode se submeter.

Em cartaz no Centro Cultural São Paulo, o monólogo 45 Minutos, dirigido por Roberto Alvim, transita pelo trágico e pelo cômico, oferecendo uma trama pouco palatável ao espectador que procura mera diversão. O texto de Marcelo Pedreira revela-se uma provocação, principalmente aos profissionais que entram em cena em busca de dinheiro e sem comprometimento com a mensagem transmitida.

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Sem sequer ter nome, o decadente personagem de Ciocler já viveu dias de glória. Protagonizou clássicos, recebeu aplausos e hoje não tem onde cair morto. Mora na coxia de um teatro e, em troca do aluguel e da comida, apresenta-se por 45 minutos sem roteiro nem personagem construídos. Ainda assim, deve segurar o público.

O cenário quase inexistente e a iluminação mínima concentram as atenções em Ciocler, capaz de transmitir com exatidão o desconforto do sujeito ansioso para ver cumprida a obrigação. Sem se despir da tristeza e do tédio, o protagonista incita o público a sugerir uma coreografia, uma mágica, uma fala de Shakespeare ou Ibsen. Diretor rigoroso e firme, Alvim não travestiu a montagem de uma proposta interativa, respeitando as múltiplas possibilidades da dramaturgia. A falta de concessões até assusta a plateia, mas comprova a coragem de Ciocler e seu senso de responsabilidade com as palavras.

AVAlIAÇÃO ✪✪✪

Fonte: VEJA SÃO PAULO