Crônica

36 horas em São Paulo

Por: Matthew Shirts

Crônica - 36 horas em São Paulo
(Foto: Attílio)

Havia dois anos que não encontrava minha mãe. Ela mora na Califórnia. Chama-se Cozette. Consegui visitá-la no mês passado. Guardara gravações dos programas americanos de televisão de que mais gosto, me conta, ao chegar à sua casa. Existe a internet, eu sei, e ela também, mas sabe como é mãe, né? Ela quer assistir junto comigo. Entendo isso, nos dias de hoje. Não vou listar todas as atrações guardadas para mim, fique tranquilo. Quero falar de uma só. É de Anthony Bourdain. Sim, o cozinheiro. Chama-se The Layover e acompanha o astro da TV americana durante 36 horas em diferentes cidades do mundo. Nos Estados Unidos, passou no canal Travel and Leisure.

Um episódio é dedicado a São Paulo. É por isso que minha mãe o guardou. Nós dois somos fãs do Bourdain. Adoro sobretudo os seus livros, mas os programas são bons também. Ele fez a fama com Cozinha Confidencial, lançado em inglês no ano de 2000, e aqui alguns anos mais tarde. Conta os bastidores de um restaurante em Nova York, onde o chef trabalhou. É um escritor de mão-cheia. O seu primeiro texto publicado saiu na lendária revista New Yorker, nada menos.

Minha mãe quer porque quer colocar para rodar o vídeo de Bourdain. Resisto um pouco, confesso, cá entre nós. Já li todos os livros dele, ou quase. Assisti a palestras suas. Segui-o na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), certa vez, para ver o que come. Escrevi a seu respeito. Bourdain vem sempre ao Brasil.

Seu programa sobre São Paulo é maravilhoso, um dos melhores que já vi a respeito da cidade. Há legendas em português.

Mas, antes, termine a leitura da crônica. Bourdain começa o capítulo com a frase: “São Paulo, antes a odiava; há muito aprendi a amá-la”. Também não é para menos. Sua primeira sugestão, enquanto guia turístico: vá direto do Aeroporto de Guarulhos para o Mercadão, no centro, e coma um sanduíche de mortadela daqueles. Quente. Com queijo. E tome uma cerveja, das grandes. Isso logo de manhã. Mostra também o delicioso pastel de bacalhau, ali do lado. Mas deixa subentendida sua preferência pelo sanduíche.

Do Mercadão, circula por boa parte da capital. Vai da Liberdade à Zona Norte. Come de japonês a pizza. Explica aos compatriotas que esta deve ser degustada com garfo e faca em São Paulo para que não se corra o risco de ser confundido com um “animale”. Passeia na feira com seu amigo AlexAtala, outro chef famoso. É a mesma que frequento, ali em cima da Estação Sumaré do metrô, na Oscar Freire, onde a dupla experimenta até um abacate amarelo. Não conheço essa variedade da fruta. Preciso ir lá conferir.

Bourdain sugere passeios pela arte de rua da metrópole. Entrevista o grafiteiro Speto. Dá uma parada, ainda, na Vila Madalena. Ali, faz uma declaração de amor à feijoada de uns cinco minutos de duração. Para Bourdain, esse prato é uma das grandes invenções do homem. Também acho.

Fonte: VEJA SÃO PAULO