Astros do futebol amador são disputados por times de bairro

Em alguns casos, eles têm o privilégio raro de receber cachê

Felipe dos Santos, o Felipinho, trocou os primeiros passes como jogador da Portuguesa aos 15 anos. Destaque em campeonatos de juniores pelo clube, foi promovido para a equipe principal cinco anos depois. Chegou a ganhar 3000 reais por mês. Após fases menos produtivas, foi emprestado a agremiações de Minas e do Rio. Quando defendia o Macaé, da segunda divisão fluminense, soube da gravidez da namorada, que ficara em São Paulo, e decidiu voltar. Empregou-se como motorista de executivos, função que exerce ainda hoje.

+ Confira as fotos de um verdadeiro jogo de várzea

Aos 24 anos, já divorciado, o meia-esquerda, nascido no Jardim Bonfiglioli, na Zona Oeste, mantém as chuteiras nos pés. Ele é o Neymar do futebol de várzea paulistano, o que lhe confere posição singular entre o exército de peladeiros. Um dos privilégios é ser disputado pelos times a cada temporada — desde 2012, vestiu cinco camisas amadoras de equipes da capital (atualmente, joga pelo Espada de Ouro e pelo Estrela do Rio Pequeno, em torneios distintos).

O outro bônus é inimaginável para a maioria dos colegas: ele recebe cachê, de cerca de 200 reais por partida. O sucesso em terra de cego lhe dá ânimo para vislumbrar novos dias de glória. “Farei um teste para o Pumas, do México”, diz. A oportunidade, relata, surgiu depois que o Espada de Ouro enviou ao clube da primeira divisão mexicana um vídeo com seus momentos mais brilhantes.

Para cada Felipinho nos campos da metrópole, há milhares garantindo o tradicional festival de caneladas e “bicudas”. Só na Liga Paulistana de Futebol Amador (LPFA), entidade que regulamenta a modalidade, estão cadastrados cerca de 27000 jogadores e 1200 equipes. Eles entram em disputas como a Copa da Liga, iniciada no último dia 25. Além de consagrar os destaques de cada região da cidade, o campeonato distribui prêmios que passam de 10000 reais (geralmente, revertidos em churrasco) e vagas de acesso para a cobiçada Taça Brahma.

O evento patrocinado pela cervejaria tem sua final no Estádio do Pacaembu, com uma média de 10000 presentes, entre eles dirigentes dos melhores times de várzea. É a chance ideal para impressionar o meio e, quem sabe, ser cooptado pela concorrência dos gramados.

Futebol Varzea

Futebol Varzea

Almejar o ingresso (ou o retorno) à categoria profissional é algo para poucos, como Lucas Silva. Com passagem pelas bases do Grêmio e do São Paulo, o atacante sabe que não pode repetir os erros de anos atrás. “Ele não teve maturidade para encarar a realidade do futebol”, lamenta o pai, Wilson Silva, treinador do Santos do Parque Regina.

O técnico se refere à demissão do filho do Audax, recém-alçado à primeira divisão do Paulista, após briga com dirigentes por não concordar em ficar um período de molho. No amador, ele ajudou (sem cachê) o time do pai a conquistar a última Taça Brahma. “É minha chance de voltar a brilhar”, afirma ele. Para quem insiste em perseguir esse sonho, driblar os desafios da rotina é o jogo mais duro.

Juvenal Junior, o Juninho, faz musculação nos momentos livres entre a faculdade de sistemas de informação, as aulas de informática que ministra em uma ONG no Campo Limpo e os plantões como segurança noturno. Mesmo assim, ainda encontrou tempo para garantir a artilharia do torneio eliminatório, com dez gols. Ele recebe 100 reais por partida. “Tenho muito prazer no esporte e isso facilita a dedica-ção”, diz Juninho, que já foi das equipes principais dos paraenses Paysandu e Remo e do paulista Portuguesa.

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