Endinheirados do interior fazem a festa na capital

Onde os empresários de fora da metrópole vêm gastar o seu dinheiro

Com sapatos Armani, lenço Versace, bolsa Hermès e joias Cartier e Tiffany & Co., a empresária Patrícia Diniz, de Campinas, desembarcou no Campo de Marte, no início de julho, de um helicóptero alugado ao custo de 10 000 reais para um dia comum em sua rotina. Ao lado do cabeleireiro Djalma Kais, a quem jura que pagou 12 000 reais para retocar os fios e a maquiagem ao longo da jornada, ela veio à capital rechear o closet de 42 metros quadrados de sua casa, que tem vinte vezes esse tamanho só de área construída. “Sou vizinha do Xororó”, ressalta sempre que tem a chance, referindo-se ao famoso cantor sertanejo. No Shopping Iguatemi, destino final da dupla, Julio López, da grife Tufi Duek, separava peças para a cliente “es-pe-ci-a-lís-si-ma” provar. Ele é gerente da filial de Campinas, mas se desloca quando ela chega aqui para fazer compras. Na loja, duas garrafas de espumante Chandon a esperavam num balde de gelo. “Não bebo uma gota, mas participo do tim-tim”, esclarecia a empresária, dona de duas fábricas que produzem envelopes para autoatendimento bancário.

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Em pouco menos de uma hora, ela arrematou oito vestidos (com preços entre 1 350 e 8 500 reais), dois coletes de pele (cada um por 9.900 reais), um bolero (2 900 reais), uma regata de paetê (2 390 reais), uma calça (1 100 reais) e uma camiseta (490 reais). Valor total: 59 580 reais. Seria o suficiente para encher as sacolas em uma Prada ou Valentino, mas a marca nacional tem espaço especial em seu coração. “Quando era pobre e dividia uma salsicha com minha irmã e minha mãe para não passar fome, sonhava com roupas da Forum, a antiga marca do Tufi Duek”, contou. A maratona consumista não se resumiu a essa loja. Da Chanel, levou apenas um par de óculos (1 640 reais) e saiu decepcionada. “Só tem coisa para vovó”, criticou. Na Louis Vuitton, arrematou um lenço preto (940 reais). “Os outros modelos pareciam panos de prato e a vendedora me atendeu com má vontade”, reclamou. O escudeiro Kais suspirava: “Frequentar a rota do luxo em São Paulo é uma experiência que não está acessível a todos”. Ele próprio só veste assinaturas importadas, como Gucci, Dolce & Gabbana e Versace. “Comprar é minha válvula de escape.” O tour terminou com um almoço no Parigi, restaurante do grupo Fasano, em que foi incluído ainda um amigo, e custou 900 reais, devidamente pagos com dezoito notas de 50 reais. Fazendo as contas, nas sete horas em que ficou na capital, Patrícia deixou por aqui uma quantia de 85 060 reais. Nos cálculos dela, nem é tanto assim. “Venho toda semana e, por mês, gasto uns 320 000”, alardeou.

DANNY CESAR E MICHELLE JUMES

Idade: 33 anos (ambos)

Cidade: Balneário Camboriú (SC)

Profissão: médico e blogueira

Gasto mensal em São Paulo: 20 000 reais  

Consumidores desprendidos ao estilo de Patrícia são cruciais para o circuito AAA paulistano, que nos últimos tempos recebeu grifes como Lanvin e a joalheria Van Cleef & Arpels com a inauguração do Shopping JK Iguatemi, em 2012, e Fendi, Jimmy Choo e Hermès, em um pacote de novidades do Cidade Jardim. A capital concentra 50% da movimentação do mercado de luxo brasileiro, um montante de 10 bilhões de reais em 2012, segundo estimativa da consultoria especializada MCF. É um universo muito competitivo, ao qual não passa despercebida a ascensão econômica do interior do Brasil. Se em 2000 a cidade-locomotiva do país representava 13,5% do produto interno bruto nacional, em 2010 o porcentual foi de 11,7% — ou seja, o dinheiro está mais bem distribuído. Para as marcas, portanto, olhar além dos Jardins, do Morumbi e companhia  é fundamental. Lethicia Bronstein, estilista de figuras conhecidas como Sabrina Sato e Giovanna Ewbank, relata que 70% das compradoras de seus vestidos de festa (6.000 a 12.000 reais) e de noiva (a partir de 20.000 reais) vêm de outros municípios, a maior parte do interior. Por dia, ela recebe cinco dessas bem-vindas forasteiras. Para evitar saia-justa entre pessoas da mesma região, anota o que vendeu em um caderninho e jamais permite que criações semelhantes acabem parando nas mãos de conterrâneas.   

Monica Terumi - Capa 2333

Monica Terumi – Capa 2333

CLIENTE PREFERENCIAL

Porcentual dos consumidores que não são da metrópole:

MODA

70% Letícia Bronstein

60% Samuel Cirnansck

40% Reinaldo Lourenço

30% Alexandre Herchcovitch

20% Giuliana Romano

20% R. Rosner

16% NK Store

14% Topshop

10% Cris Barros

RESTAURANTES

42% A Figueira Rubaiyat

30% Due Cuochi

25% Spot

25% La Tambouille

25% Tre Bicchieri

MOTOR

55% Iates Ferretti

25% Ferrari/Maserati

4% Porsche

(Fonte: lojistas)

No ateliê de Samuel Cirnansck, a taxa de turistas é de 60%. O estilista conta que desenvolveu abordagens diferentes conforme a origem do visitante. “Com nordestinos, que são expansivos, faço piadas e proponho modelos coloridos e decotados”, descreve. “Já quem vem do interior de São Paulo não dá muita abertura, o que me faz ser formal.” Para ele, a motivação principal da gastança é a manutenção da posição social. “Essas mulheres precisam das novidades da metrópole para permanecer como referência local de poder e bom gosto”, teoriza.

Boriero, da Ferrari

Boriero, da Ferrari

A designer de bolsas Daniela Motti, de São José dos Campos, é uma delas. Encomendou no último ano oito vestidos de Cirnansck, ao custo médio de 8 mil reais cada um. “É uma qualidade que não encontro na minha cidade”, justifica ela. Gerente comercial da Via Italia, importadora oficial de carros Ferrari e Maserati, Claudio Boriero tem vasto repertório de observações sobre o comportamento dessa freguesia. Calcula que o cliente do interior troque de veículo a cada ano e meio, enquanto o paulistano demora um ano a mais para se desfazer do possante. As peculiaridades continuam. “Ele é desconfiado e demanda muita atenção do vendedor, que não pode olhar para o lado. Quer todo o foco na sua compra.”Os lojistas, é claro, não medem esforços para dar tudo o que é solicitado. O Shopping Cidade Jardim, por exemplo, manda motoristas buscar hóspedes de hotéis como o Fasano. “Temos um serviço personalizado, tratando a todos pelo nome”, orgulha-se Renata Fava, superintendente de marketing. 

Daniela Motti

Daniela Motti

DANIELA MOTTI

Idade: 43 anos

Cidade: São José dos Campos

Profissão: designer de bolsas

Gasto mensal em São Paulo: 8 000 reais

Enviar peças via Correios é outra prática comum. “As equipes dos estabelecimentos me ligam e escrevem torpedos o tempo todo para falar das novidades. Por isso, vivo numa tentação constante”, afirma a publicitária Monica Terumi, de 22 anos, de Ribeirão Preto.Sentir-se rei por nossas alamedas faz parte do pacote básico da experiência. Conhecido como “Doutor Hollywood do Sul”, o médico nutrólogo Danny Cesar (que gosta de lembrar: cuida da assistente de palco Juju Salimeni, da Rede Record, e do trapalhão Dedé Santana), de Balneário Camboriú, em Santa Catarina, costuma fretar um avião a cada quinze dias para vir a São Paulo. “Odeio perder tempo em aeroporto comum”, explica. Por aqui, nunca deixa de passar “no Jassa” (“O único que acertou meu penteado em 33 anos de vida”), o eterno cabeleireiro de Silvio Santos, e esvaziar araras na Rua Oscar Freire com a esposa, a blogueira de beleza e moda Michelle Jumes. O dia de consumo é encarado como uma celebração das próprias conquistas. “Batalhamos muito para ser bem-sucedidos”, enfatiza o médico. Na última visita do casal, realizada em julho, uma das aquisições foi um par de aromatizadores para casa Bo.Bô (260 reais). “Eles têm o cheiro da riqueza”, conforme explicou o médico, que deixou para trás 11.053 reais, incluindo a fatura no restaurante A Figueira Rubaiyat. “Compro bastante, mas me preocupo com a natureza. Por isso, nunca peço a minha via do cartão”, ressalta ele. 

Ana Cristina Jalles

Ana Cristina Jalles

ANA CRISTINA JALLES

Idade: “É mais fácil revelar meu saldo bancário”

Cidade: São José do Rio Preto

Gasto mensal em São Paulo: 15 000 reais

Uma pesquisa de 2012 da SPTuris, órgão turístico da prefeitura, mostra que 9% dos visitantes da metrópole têm as compras como principal motivação para a viagem. Nesse grupo, os restaurantes são o segundo maior interesse. A Figueira tem 42% de seus comensais entre gente que não é daqui. No Due Cuochi, outro cartão-postal gastronômico, no alto do Shopping Cidade Jardim, a fatia é de 30%. “Eles vêm com a família e formam mesas  grandes e festivas”, comemora uma das sócias, Ida Maria Frank. No La Tambouille, são 25%. “Eu me sinto em casa, pois venho aqui desde a infância”, diz a empresária Ana Cristina Jalles, de São José do Rio Preto. 

O mundo dos espetáculos também sofreria sem esse público. Os últimos shows de Madonna e Lady Gaga na capital, no fim do ano passado, foram vistos,  respectivamente,  por 28% e 24% de não paulistanos. A XYZ Live calcula que em suas  produções (do show de Elton John ao musical  Alô, Dolly!) em média 38% da plateia seja de fora. Responsável há doze anos pelo serviço de concierge do Hotel Renaissance, Claudia Raposo diz que a moda entre os hóspedes é procurar arte de rua. Eles perguntam em quais galerias os grafiteiros expõem. Às vezes, recorrem a ela para saber como causar mais impacto em um evento. “Alguns pedem helicóptero, mas houve um que me solicitou auxílio na missão de contratar dez anões como acompanhantes, para não passar despercebido em um festival no Anhembi”, conta Claudia. “Consegui encontrar os dez que ele pediu. O cachê foi de 8.000 reais.”  

Claudia, concierge do Renaissance

Claudia, concierge do Renaissance

Atrações culturais ajudam a fidelizar os fregueses. O empresário Haryston Sosso, de São José do Rio Preto, chega quinzenalmente para curtir “a tela gigante” do cinema do Cidade Jardim. De quebra, leva uma vez por mês um par de sapatos Louis Vuitton e um Prada, além de equipamentos de golfe e artigos de decoração. Ainda que representem, por si só, comissões volumosas, vez ou outra os interioranos paulistas, mineiros, goianos, catarinenses e de outros estados são alvo de preconceito. Certas grifes não gostam de associar sua imagem a um público, digamos, emergente. “Os mantenedores das finanças das marcas não são os que sustentam a imagem delas”, justificou uma relações-públicas. Para Carlos Ferreirinha, da consultoria MCF, especializada no mercado de luxo, trata-se de um grande equívoco. “Há quem acredite que clientes precisam ter nome, sobrenome e óculos escuros. Eles devem entender que o dinheiro mudou de mão no Brasil há décadas.”

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