A Dior do século XXI

Visitamos o ateliê mítico da Avenida Montaigne, onde o estilista Raf Simons costura novos looks para tornar a grife francesa a mais sedutora, influente e exclusiva do grupo LVMH

Por treze meses, ficou vaga certa cadeira de rodinhas de metal na sala com vista para a Avenida Montaigne, o segundo mais caro metro  quadrado comercial de Paris, atrás apenas da Champs-Elysées, e o mais cobiçado pelas marcas classudas. Das consumidoras de Christian Dior a quem jamais comprou o perfumeJ’adore, best-seller da grife, muita gente especulou quem se sentaria no lugar do estilista John Galliano, ejetado do assento em março de 2011 por insultar frequentadores de um bar da capital francesa com frases antissemitas. Presidente da marca instalada no número 30, Sidney Toledano foi quem mais se preocupou com a cadeira vazia do 2º andar. Em quinze anos, Galliano quadruplicou o número de lojas e de vendas. Cabia ao executivo encontrar um costureiro capaz de seguir na multiplicação dos números e apagar a mancha na história do ateliê que há 66 anos estabeleceu o modelo do negócio de moda — global e além da roupa. As cifras indicam que Toledano escolheu certo. Com as portas abertas em fevereiro no Shopping Cidade Jardim, cuja decoração mimetiza o térreo da Montaigne, São Paulo se soma à lista de mais de 200 butiques. O faturamento cresceu 24% e bateu o 1,24 bilhão de euros em 2012. É o ano em que oe stilista belga Raf Simons passou a ocupar a cadeira-chave do únic ologo do grupo LVMH com poder de competir com a Chanel. Simons se provou um alvejante e tanto. Em duas coleções de alta-costura — cujo feitio ilustra esta reportagem —, deu um novo look à Dior.

Saíram de cena a explosão de cores e de bordados e os vestidos volumosos que fizeram dos desfiles da era Galliano um espetáculo irresistível de ver e impraticável na vida real. Entraram na passarela preto, calças cigarrete e shorts que fariam corar o velho Christian, defensor de barras a 40 centímetros do chão, mas que caem como uma luva para a geração de 30 anos que bate perna na rua. “Sugeri a Raf ler Christian Dior et Moi para entender a sensibilidade do criador”, diz Toledano, sobre o livro de memórias que Dior publicou em 1956, meses antes de morrer, aos 52 anos, de um ataque do coração. O estilista o leu no verão passado, na Puglia, na Itália. “Raf sabe o que sepassa na cabeça das mulheres de hoje e adaptou o espírito Dior ao século XXI.”

A estratégia de marketing também foi ajustada. Para reforçar a imagem moderna, cult e antenada — adjetivos com apelo para o novo público-alvo das roupas —, a grife bolou uma exposição em torno de uma de suas peças icônicas: a bolsa Lady Dior, criada em 1995 e com as costuras que imitam a trama da palha indiana (chamada de cannage e inspirada nas cadeiras de estilo Napoleão III, tornou-se um dos códigos da grife). Pelas lentes e mãos de 85 artistas contemporâneos, a bolsa, adotada pela princesa Diana — daí o nome, uma brincadeira entre “Di” e Dior — e com jeito de acessório de vovó, figura em fotos ousadas, esculturas inusitadas e vídeos. A mostra Lady Dior As Seen By é itinerante e acompanha cada abertura de endereço. Começou em 2011, em Xangai, e passou por Pequim, Tóquio e Milão, até desembarcar na capital paulista, no mês passado. A próxima parada ainda não está definida. Simons recebeu a reportagem de VEJA LUXO no ateliê da Montaigne dois dias antes de a maison desfilar a segunda coleção de alta-costura, o verão 2013, numa tenda armada no Jardim das Tulherias. Desde abril de 2012, ele dá expediente no mesmo estúdio e nas mesmas salas de corte, costura e prova onde Christian criou a silhueta de saia godê e cintura de pilão, batizada de New Look, que virou a página do visual austero da II Guerra Mundial. Se Galliano gostava do lado romântico e nostálgico do fundador, seu quarto sucessor se interessa pela simplicidade, praticidade — as saias de baile levam bolsos embutidos — e pela construção arquitetônica da roupa. É econômico no estilo e no temperamento. “Tudo tem sido bem mais tranquilo nos últimos tempos”, deixa escapar um dos artesãos, que circula pelos corredores, em meio a modelos, maquiadores e cabeleireiros, no leva e traz de roupas entre as salas de costura e prova. No cabide de madeira, carrega um costume preto. O destaque é o paletó de cintura ajustada, uma releitura com menos botões, lapelas maiores e muito mais decote da jaqueta Bar, icônica da coleção de estreia, em 1947.

Simons está no estúdio, sentado na cadeira de rodinhas, com estilistas assistentes e as chefes de costura, Florence Chehet e Monique Bailly. Em silêncio, passeia os olhos pelas roupas. Cada look aprovado é acompanhado de um sorriso da equipe. No fim de um labirinto de corredores estreitos, peças prontas “esperam” no meio do ateliê. Metros de organza, renda, cetim e tafetá se acumulam ordenadamente nos cantos. Por trás dessa organização estão Florence, chefe do ateliê flou (fluido, em francês), e Monique, da equipe tailleur. No flou são feitas as peças de tecidos como musselina, seda ou tule. Do tailleur, saem as roupas estruturadas, como as calças e os casacos. Juntas, elas dirigem trinta pessoas — cinquenta nas semanas que antecedem o desfile —, entre modelistas e aprendizes. Cada artesão segue minuciosamente a realização de uma silhueta do início ao fim. A confecção pode ultrapassar 600 horas, caso das peças bordadas. Muitas contam com a colaboração de até oito artesãos externos, entre pintores e especialistas em plissagem. “Raf faz croquis precisos, às vezes acompanhados de fotos de inspiração”, diz Florence, às voltas com o verão 2013 desde outubro do ano passado. Uma peça passa pelo crivo do estilista até seis vezes antes de chegar ao patron, a peça-piloto de algodão bruto.

Dois dias depois, nos bastidores do desfile, marcado para as 14h30, Florence diz que a equipe flou terminou o último vestido às 13 horas. “Há sempre alguns que são montados na última hora”, admite. Na sala nos Jardins das Tulherias transformada em bosque, o produtor de desfiles Alexandre Betak dá as últimas orientações às modelos. Simons assiste ao ensaio com Camille Miceli, responsável pelas bijuterias, a maquiadora Pat McGrath e o cabeleireiro Guido Palau, que imaginou as perucas curtinhas — um pesadelo para a produção, que não distinguia as modelos de longe para saber quem estava maquiada. “Não quero que elas pareçam robôs”, sussurra o estilista no ouvido de Alexandre de Betak. “Quero leveza, quase como se estivessem dançando.” Os vestidos levam bordados de flores diversas e delicadas. Tema recorrente para o velho Christian, é a inspiração do belga para as duas primeiras coleções — e um sinal claro de que, nos jardins montados a cada temporada, floresce uma nova Dior.

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