Com a corda toda

Em compasso com uma geração de mulheres que não têm tempo a perder, as relojoarias juntam as funções típicas de modelos masculinos — turbilhão, calendário perpétuo, cronógrafos — a caixas e mostradores brilhantemente decorados

À primeira vista, o relógio abaixo é uma ode à frescura. A caixa, cujo desenho imita o perímetro da Praça Vendôme — o epicentro do luxo em Paris —, é cravejada de 182 rubis moçambicanos. Em constraste com o mostrador de cerâmica negra está a camélia de ouro branco. Com um olhar atento, é possível reparar que a flor favorita de Coco Chanel se move: as pétalas marcam os segundos. Sob a embalagem “fresca”, há um conteúdo digno dos cebolões mais viris: um turbilhão voador. Turbilhão é o mecanismo que compensa os efeitos da gravidade sobre o relógio, mantendo-o, assim, preciso por gerações. Sem ele, o tique-taque aceleraria (ou atrasaria) um segundo por dia. Numa década, significaria chegar uma hora antes (ou depois) a um compromisso. Inventada pelo professor alemão Alfred Helwig em 1920 — 100 anos depois do turbilhão original —, a versão “voador” consegue o mesmo de uma maneira mais arriscada: a engrenagem se apoia num único eixo, no lugar de dois, e, portanto, está mais exposta a choques. É necessário engenharia para fazer a complicação (ou, para os leigos, função) mais celebrada da relojoaria manter o compasso.

Esta é a primeira vez que a Chanel recorre ao turbilhão voador em 25 anos de relógios da grife do duplo C. Contou com o conhecimento da Renaud & Papi, um dos braços da reverenciada casa suíça Audemars Piguet. O modelo de rubis, peça única lançada em março, custa 360 000 euros. Uma edição de diamantes, limitada a vinte unidades, vale 220 000 euros. Estão por vir mais dois modelos: um de safiras rosa e outro de azuis. O movimento da grife francesa mostra que está com os minutos contados o privilégio dos homens de satisfazer o gosto por máquinas de pulso. E não apenas entre as marcas que nasceram, como a Chanel, para saciar os desejos femininos da hora. Fetiche entre os homens mais esportivos, Richard Mille acaba de dedicar às mulheres o modelo Phoenix, diamantado e limitado a dezoito unidades. Entre as cinco famílias masculinas da Roger Dubuis, que só utiliza o turbilhão voador, surge agora a linha Velvet, voltada para “divas”, como define a manufatura de Genebra — algumas com apetite para relógios cobertos por 1 300 diamantes. “Há mais mulheres em posição de comando, mais mulheres interessadas em mecânica de carros, e me parece natural sua curiosidade se estender a relógios”, diz Laura Ferrai, diretora da Patek Philippe, na Suíça.

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Considerada a Rolls-Royce das máquinas de pulso, a Patek apresenta o 4936G, cuja caixa, com 156 diamantes, guarda a função de calendário anual. É uma reviravolta num mercado que por décadas abasteceu as mulheres de pulso com peças movidas a bateria, tecnologia dos anos 60 que nada tem a ver com a imagem dos ateliês suíços — nos quais relojoeiros parecidos com Gepeto há gerações manufaturam cada um dos cerca de 500 microcomponentes que um relógio complicado e perfeitinho requer.

Até mesmo a suíça Omega, famosa pelos movimentos a quartzo, em 2011 reeditou a coleção Ladymatic, de 1955, com relógios mecânicos (que fazem tique-taque) de corda automática (acionada pelo movimento do braço, típica nos Rolex). Para abrigarem a gama de complicações disponíveis, as caixas dos relógios femininos precisaram crescer e aparecer. O Chanel Première, por exemplo, passou de 19 milímetros por 26 milímetros para 28,5 milímetros por 37 milímetros para acomodar o “voador”. Tanto melhor. Só num cebolão feminino com 42,75 milímetros de diâmetro a Cartier poderia fazer uma pantera de diamantes e pintas de esmalte preto — conectada a um rotor automático e oculto que dá corda ao relógio —passear pelo mostrador de madrepérola negra, em sentido horário, sem parecer uma futilidade. Ser “fresco”, agora, também tem uma função.

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