Vídeo mostra momento em que PM atira em carroceiro

Ricardo Silva Nascimento foi morto com dois tiros por um policial militar de 24 anos na noite de quarta (12), em Pinheiros

A reportagem de VEJA SÃO PAULO obteve imagens de câmeras de segurança de um condomínio na região da Rua Mourato Coelho, em Pinheiros, que flagraram o momento em que um Policial Militar deu dois tiros no carroceiro Ricardo Silva Nascimento, de 39 anos. Ele trabalhava recolhendo materiais recicláveis pelas ruas do bairro.

O episódio aconteceu por volta das 18h de quarta-feira (12), na esquina da Mourato Coelho com a Rua Navarro de Andrade, em frente a uma unidade do supermercado Pão de Açúcar. A reportagem apurou que o PM que atirou no homem tem apenas 24 anos e está há pouco tempo na polícia.

Segundo o delegado-assistente do Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) Nilson Lucas Junior, o policial militar disse em depoimento que foi acionado para ir ao local porque havia um carroceiro ameaçando pessoas na rua. Ao chegar, percebeu que ele estava alterado, e carregava um pedaço de pau de 80 centímetros na mão. O PM (que não teve o nome divulgado) contou que tentou resolver a situação com seu cassetete. Sem êxito, sacou a arma e deu voz de prisão. Nascimento, de acordo com o depoimento, não obedeceu e foi para cima dele. Nesse momento, o PM deu dois tiros. Um perfurou o coração e, outro, o fígado do carroceiro, que chegou a ser levado ao Hospital das Clínicas, mas não resistiu aos ferimentos e morreu.

Moradores e comerciantes da área deixam flores em homenagem a carroceiro morto na Rua Mourato Coelho: um ato está programado para ocorrer às 18h na região (Adriana Farias/Veja SP)

As duas balas da arma utilizada pelo PM e o pedaço de pau foram apreendidos pelo DHPP, que também pediu laudo do IML e perícia balística para analisar a trajetória da bala. A polícia também busca imagens de câmeras de segurança da região. O caso também é investigado pela Corregedoria da Polícia Militar e pelo Ministério Público do Estado de São Paulo.

Segundo o ouvidor da Polícia Militar, Julio Cesar Neves, que esteve no local poucas horas depois da ocorrência, tudo começou quando o carroceiro foi pedir comida numa pizzaria da área. “Os funcionários da casa chamaram a polícia por conta dele estar com um pedaço de pau e no fim aconteceu tudo isso”, explica Neves. “Ao invés dos policiais chamarem uma ambulância para socorrer o homem eles jogaram o corpo no porta malas do carro infringindo na frente de todo mundo que estava lá a resolução 05 de 7 de janeiro de 2013 da Secretaria da Segurança Pública, cuja penalidade pode ir de advertência até uma expulsão”.

O carroceiro Ricardo Nascimento: ele trabalhava recolhendo material reciclado na região de Pinheiros (Pimp My Carroça/Reprodução/Facebook/Veja SP)

Ainda segundo o ouvidor, pessoas que presenciaram e filmaram toda a ação tiveram celulares confiscados e apagados. “Um deles foi abordado de forma tão violenta que teve o dedo rasgado e agora pela manhã necessitou passar por uma cirurgia”.

Segundo moradores e comerciantes da região, o carroceiro era tranquilo, simpático e tinha facilidade para fazer amizades.  “Trabalhávamos juntos recolhendo papelão e plástico. Ele tinha duas carroças e atuava de forma honesta”, relata o carroceiro Givanildo Marinho da Silva, 52, amigo de Nascimento havia cinco anos. O DHPP levantou, no entanto, que Nascimento tinha quatro passagens pela polícia por extorsão, resistência policial, briga generalizada e furto.

O movimento Pimp My Carroça que visa tirar catadores de materiais recicláveis da invisibilidade marcou um ato em memória de Nascimento e para pedir Justiça às 18h desta quarta-feira na esquina das ruas Mourato Coelho com a Navarro de Andrade.

Confira, a seguir, o vídeo exclusivo obtido por VEJA SÃO PAULO. As imagens mostram, ao fundo a esquerda, o carro da PM e, na sequência, o carroceiro recebendo dois tiros:

A Secretaria da Segurança Pública informou, em nota, que os dois policiais envolvidas na ocorrência e os outros três da guarnição de Força Tática que prestaram apoio foram recolhidos ao serviço administrativo, sendo afastados do trabalho nas ruas.

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