22. Adoniran Barbosa musicou São Paulo

‘Saudosa Maloca’ reflete a cidade dos migrantes. ‘Trem das Onze’ retrata a desolação de um tipo assoberbado que mal tinha tempo para a namorada

Ninguém sabia onde ficava o Jaçanã e nunca houve um trem das 11 para aquelas bandas, mas, desde que Adoniran Barbosa compôs, em 1964, sua famosa canção, o Jaçanã virou um bairro paulistano nacionalmente conhecido, e o trem das 11 a mais célebre condução que ou se toma ou só se consegue voltar para casa na manhã seguinte. A primeira coisa engraçada sobre João Rubinato (1912-1982), filho de imigrantes do Vêneto nascido em Valinhos, é por que alguém que se chama João Rubinato vai querer adotar o nome artístico de Adoniran Barbosa. A segunda é o nonsense que embala canções como ‘Aqui Geralda’ (ou Gerarda), que começa por lamentar que “Geralda saiu de casa, onde será que Geralda foi parar?” e termina por proclamar:

“Você gosta de salsicha com mostarda

Aqui, Geralda, aqui, Geralda”.

+ 25 pessoas, parcerias e coisas que ajudaram a construir a história de São Paulo

Adoniran Barbosa é do tempo do rádio. Estreou como cantor, em programas de calouros, e evoluiu como ator, em programas humorísticos. Mas foi como compositor que cantou, descreveu e interpretou São Paulo como nenhum compositor popular. Seus motivos são as ruas, praças e bairros, e seus personagens os tipos da cidade. Sobretudo, Adoniran captou nas ruas um “paulistanês” que nenhum habitante da cidade deixará de reconhecer como característico:

“O Arnesto nos convidou

Prum samba, ele mora no Brás,

Nós fumo, não encontremo ninguém.

Nós voltemo cuma baita duma reiva,

Da outra vez, nóis num vai mais”.

A língua que Adoniran caricaturou nas canções mistura o caipira com o italianado, duas vertentes centrais da expressão popular na cidade. A São Paulo que conheceu era um caldeirão de influências que se refletia na língua do povo. Ele próprio nascido no interior, e só aos 22 anos estabelecido na capital, talvez por isso tivesse desenvolvido um ouvido especial para captar o som das ruas. O mesmo puro paulistanês do ‘Samba do Arnesto’ ele usa para contar a história contida em ‘Um Samba no Bexiga’:

“Domingo nós fumo num samba no Bexiga,

Na Rua Major, na casa do Nicola.

A mesa não deu conta, saiu uma baita duma briga.

Era só pizza que avuava junto com as brachola”.

A história termina com a chegada da polícia e das ambulâncias, e o sargento Oliveira ordenando: “Carma, pessoal, a situação aqui está muito cínica, os mais pior vai pras Clínica”. Adoniran canta o que lhe parece bonito na cidade (“Venha ver, Eugênia, como ficou bonito o Viaduto Santa Efigênia”) e registra suas transformações:

“Praça da Sé, Praça da Sé.

Hoje você é

Madame Estação da Sé”.

Nesta e em outras composições ele lamenta as perdas trazidas pelo progresso. Transformou num clássico a história do palacete abandonado onde moravam o narrador, Mato Grosso e o Joca, até o dia em que “veio os home com as ferramenta” porque o “dono mandô derrubá”. Só lhes restou cantar:

“Saudosa maloca, maloca querida,

Que dim donde nóis passemo dias feliz da nossa vida”.

‘Saudosa Maloca’ reflete a cidade dos migrantes, juntados em precárias moradias. ‘Trem das Onze’ retrata a desolação de um tipo assoberbado que, entre o trabalho e a necessidade de voltar para casa, mal tinha tempo para a namorada. Tipos assoberbados existiam muitos, no tempo de Adoniran, e continuam existindo, numa cidade com fama de ser a mais devota das filiadas à religião do trabalho. O da música, para piorar, era filho único e a mãe não dormia enquanto não chegasse. De certa forma, Adoniran também foi um filho único, no sentido de que inventou um samba paulistano como ninguém antes nem depois.

 

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s