A escalada dos “rolezinhos”

Como uma brincadeira dos jovens de periferia da capital se transformou em um problema de segurança para os shoppings e seus frequentadores

No início da tarde do sábado 11, a estudante Adrielly Navas, de 15 anos, mostrava-se bastante animada, apesar de ter acabado de levar um corretivo da avó. Uma parte do castigo consistiu em proibi-la de usar por uns tempos suas roupas prediletas, de marcas como Mizuno, Abercrombie e Lacoste. Dricca, como a garota gosta de ser chamada, desobedeceu ao restante da ordem, não ir mais aos “rolezinhos”, como são chamados os encontros nos shoppings de centenas de jovens da periferia convocados pela internet. “Viram aqui na TV o noticiário dizendo que isso estava dando confusão e ficaram preocupados”, conta. Naquele dia, ela prometeu que iria sair de casa apenas para passear com os amigos no Shopping Aricanduva, localizado nas redondezas. A menina mora em um sobrado no Jardim Santa Terezinha, na Zona Leste, com o padrasto, que trabalha como porteiro, a mãe (atualmente desempregada) e outros quatro parentes.

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Na hora de se arrumar, colocou no último volume um funk de seu ídolo, o MC Dimenor DR, autor de músicas como Os Amantes do Cifrão. De short jeans curto, blusinha preta, tênis dourados, chapinha intacta e sem desgrudar do celular um instante, caminhou durante cerca de vinte minutos, passando por vielas e uma trilha em um terreno baldio, até chegar ao centro de compras. Ali, foi até a porta do Playland, misto de parquinho de diversões e fliperama, onde encontrou uma turma formada por dezenas de adolescentes. Nas três horas seguintes, namoraram vitrines, zanzaram pela praça de alimentação, conversaram e paqueraram. “Estão falando que a gente quer fazer baderna. Mas queremos é juntar o povo, conhecer pessoas novas”, explica Dricca. 

No mesmo sábado, outro rolezinho ocorreu na Zona Leste, reunindo mais de 1 000 pessoas no Shopping Metrô Itaquera. Alguns dos grupos de garotos cantavam funks, outros corriam de um lado para outro nos corredores. Depois de um início de tumulto, os comerciantes baixaram as portas e os adolescentes acabaram expulsos do local por policiais, à base de gritos e pancadas de cassetetes. Eles fugiram para o lado de fora e foram dispersados com balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo no terminal de ônibus vizinho. O negócio terminou com um saldo oficial de dois furtos e a prisão de um garoto de 16 anos.

Rolezinho

Rolezinho

Os tais rolezinhos já acontecem na periferia há alguns anos, mas ganharam uma dimensão maior com a ajuda da internet, sobretudo por força da popularização crescente das redes sociais. Muitas das convocações são feitas via Facebook, como as duas marcadas para 8 de fevereiro nos shoppings Penha e Aricanduva. “Vamos aí pessoal zoá muito conhece novas pessoas e catar muitas minas e curti muito e sem roubo aí só curti mesmo”, diz o anúncio publicado no site que chama para o acontecimento do Penha. O do Aricanduva tem mais de 60 000 convidados, dos quais 2 500 confirmaram presença. Um deles será MC Doug Kamikaze, de 19 anos, cantor que tem dois clipes que fazem sucesso na internet entre os fãs de funk. O da música Ela É Demais teve, até agora, mais de 37 000 visualizações. “Nos rolezinhos, os meninos querem encontrar as meninas, e elas querem encontrar os moleques”, resume.

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A convocação vai esquentando na rede com as adesões e atualizações constantes dos usuários, que respondem a enquetes, trocam fotos e paqueram virtualmente. Em seus perfis pessoais, os jovens pedem curtidas para imagens, divulgam funks que gravaram com os amigos e publicam seu número de telefone para ser adicionado no WhatsApp, programa de troca de torpedos por celular. No dia da festa, há um clima de euforia entre os presentes. “Não tem nada a ver com arrastão”, afirma o estudante Danilo Silva, de 15 anos.

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Os centros de compras da Zona Leste são os lugares preferidos da turma. “Eles ficam perto de estações do metrô, têm lugar para tomar lanche e um pouco de segurança”, explica Jonathan David, de 19 anos, o MC Chaverinho, que faz sucesso como cantor de ostentação, o subgênero do funk especializado em louvar carrões, mansões e outros objetos de desejo de consumo. Em sua página, Chaverinho soma cerca de 30 000 fãs. Ele calcula ter participado de dez rolezinhos. Na semana passada, cuidava da organização de um marcado para domingo 19, no Shopping Center Penha. Mais de 400 pessoas já confirmaram presença. Um dos grandes objetivos do negócio é a “pegação”, gíria da turma para paquera e namoro. “Preciso ter um lugar para abraçar e beijar minhas admiradoras”, justifica Chaverinho.

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O tumulto criado pela movimentação dos jovens, os gritos e a correria assustam frequentadores e lojistas, muitas vezes pegos de surpresa com o acontecimento. Na confusão, uma minoria se aproveita para praticar pequenos furtos e roubos. Os comerciantes, que pagam a partir de 300 reais por mês pelo aluguel do metro quadrado de uma loja no local, ficaram revoltados. Dona de um comércio especializado em videogames no Terminal Itaquera, ao lado do shopping, a empresária Clélia Butti perdeu um Xbox, caixinhas de som e capinhas de celular, num prejuízo estimado em 5 300 reais. “É um absurdo esse tipo de coisa acontecer”, reclama.

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O temor de também virarem palco desses eventos fez com que os administradores de alguns centros de compras entrassem com liminares na Justiça tentando impedir a realização de rolezinhos, com base na lei do direito à propriedade. No sábado 11, o JK Iguatemi exibia na entrada um documento que avisava que o não cumprimento da ordem poderia acarretar uma multa de 10 000 reais. A medida preventiva ocorreu depois que grupos de estudantes universitários começaram a espalhar no Facebook que o local seria alvo de um evento do tipo — ou seja, nesse caso, a coisa não tinha nada a ver com o movimento surgido na periferia. A ação do JK causou polêmica, pois muitos especialistas entendem que atitudes como essa ferem o direito de ir e vir, também garantido pela Constituição. Além disso, apesar de particulares, os estabelecimentos são locais públicos. “Eles não podem selecionar quem entra e quem não entra”, opina o advogado Ariel de Castro Alves.

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Na última terça (14), a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) convocou uma reunião de emergência com cerca de setenta representantes dos centros de compras para definir o que fazer daqui por diante. Os empresários pretendem pedir a supermercados no entorno dos centros comerciais que dificultem a venda de bebidas alcoólicas a jovens, assim como aumentar a segurança particular dos espaços e, se necessário, recorrer a reforços da polícia e dos bombeiros. Eles estudam ainda a possibilidade de fechar as portas nos dias em que estiverem agendados novos encontros. Ao mesmo tempo, muitos empreendimentos passaram a reforçar a segurança, item que já consome cerca de 30% do seu orçamento anual. O estado de alerta da categoria é geral, mesmo nos estabelecimentos que, por enquanto, não estão na mira. “Temos um plano de contingência preestabelecido para emergências”, conta Sandro Bispo, coordenador de segurança do Shopping Eldorado, que não revela detalhes da estratégia.

A controvérsia rendeu nos últimos dias grandes discussões na cidade, com vários sociólogos de botequim acusando os shoppings de tentar fazer um apartheid social ao supostamente fechar suas portas a negros e pobres. A tese não faz o menor sentido, haja vista que os garotos costumam promover rolezinhos nos próprios shoppings que já frequentam. O Itaquera, por exemplo, tinha uma liminar, mas não a utilizou para barrar as pessoas no último sábado. “Temos um espaço democrático, e o jovem desta região é nosso cliente. Ele sempre foi e será muito bem-vindo”, afirma Carlos Galvão, executivo da Ancar Ivanhoe, empresa responsável pelo empreendimento.

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Apesar da incoerência do discurso social, ele serviu para criar os “rolezinhos políticos” promovidos por entidades e universitários. Na quinta 16, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto fez um “rolezão popular” contra a violência policial nos shoppings Jardim Sul e Campo Limpo (que fecharam as portas para evitar problemas). Entidades do movimento negro como a União de Núcleos de Educação Popular para Negras/os e Classe Trabalhadora (UNEafro) estão à frente de outra manifestação, no sábado (18), desta vez no JK Iguatemi. “É um ato pelo direito à livre circulação”, diz o historiador Douglas Belchior, um dos organizadores.

Movimentos do tipo começaram a ser convocados em outras capitais, e a preocupação chegou a Brasília. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, Dilma Rousseff convocou na terça (14) os ministros Marta Suplicy (Cultura) e José Eduardo Cardozo (Justiça) para uma reunião para tratar do assunto. A presidente encomendou diagnósticos sobre o movimento e se mostrou preocupada com uma possível apropriação dele por grupos como os “black blocs” ou até o crime organizado.

Em São Paulo, o secretário de Segurança Pública, Fernando Grella Vieira, afirmou que a força policial seria usada em caso de tumulto nos rolezinhos na segunda (13). Dois dias depois, porém, Grella abrandou o discurso e disse que o movimento se tratava de um fenômeno cultural e não de um caso de polícia — por certo para que o caso não tomasse as proporções das manifestações criadas pelo Movimento Passe Livre. O prefeito Fernando Haddad incumbiu o secretário de Promoção da Igualdade Racial, Netinho de Paula, de dialogar com as lideranças dos rolezinhos para tentar convencê-las a fazer manifestações em outros locais.

Enquanto alguns tentam pegar carona no bonde dos rolezinhos, os garotos da periferia se mostram surpresos com a repercussão, e muitos deles não entendem a dimensão que o negócio tomou. “O rolezinho que eu faço quase todo fim de semana agora passa na TV”, afirma Raul de Souza, de 24 anos, o MC GaloSP, frequentador do Shopping Metrô Tatuapé. A estudante Adrielly Navas, do Jardim Santa Terezinha, torce para que a discussão deixe um saldo positivo para os jovens. “Espero que nos compreendam e tratem melhor, principalmente os seguranças”, afirma. Em tempo: Dricca já está livre do castigo. Vestida com Mizuno, Abercrombie e Lacoste e disposta a engordar os novos rolezinhos que virão por aí. 

 

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