Roger Abdelmassih: traído pela ostentação no Paraguai

Escutas telefônicas mostram que familiares ajudaram o ex-médico a manter sua vida de luxo

No último domingo (17), o fazendeiro brasileiro Ricardo Galeano chegou ao restaurante San Pietro, um dos melhores de Assunção, em seu Mercedes preto E350, ao lado da mulher, Larissa Sacco. Sentaram-se à sua mesa habitual, a 32, que tinha uma bela vista para a rua e ficava sempre vaga para recebê-los, aparecessem ou não. “Don Ricardo”, como era conhecido por todos os funcionários, pediu de entrada um jamón de bellota espanhol e depois um risoto de mariscos. A mulher escolheu um peixe, para manter a forma, e os dois tomaram uma garrafa do argentino Zuccardi Malbec. Embora ele falasse mal o “portunhol” e ela só se comunicasse em português, faziam questão de ser atendidos pelo chef e proprietário, Fernando Ahlers, de 28 anos. A conta, de 900 000 guaranis (cerca de 500 reais), foi paga em dinheiro vivo, e sem gorjeta, como era prática do casal nos últimos três anos. Dois dias depois, “Don Ricardo” estava em todas as televisões paraguaias — e brasileiras também. Aquele senhor de 70 anos, com ar bonachão, era o ex- médico brasileiro Roger Abdelmassih, foragido havia três anos e sete meses. Ele foi condenado em 2010 a 278 anos de prisão por 52 estupros (e quatro tentativas) contra 39 mulheres, em geral suas pacientes.

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Se tivesse prestado atenção na vista de sua mesa, Roger talvez notasse a movimentação estranha. Desde o dia 9 de agosto, ele era vigiado por homens da Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai e da Polícia Federal brasileira. Depois da prisão, o dono do restaurante e os garçons atentaram para os detalhes. Assim que ouvia alguém falar português, “Don Ricardo” pedia imediatamente a conta. A peruca, antes preta e depois acaju, não era vaidade, mas disfarce. “Eu não saía de casa sem peruca. Nem sem óculos. Ficava diferente do que eu era”, disse o ex-médico a policiais civis, segundo uma gravação da Rádio Estadão, quando chegou a São Paulo, na última quarta-feira. Nos dez dias anteriores, os policiais fizeram campana em frente à casa de 600 metros quadrados, com quatro quartos, jacuzzi, piscina, sauna e churrasqueira, e até uma cozinheira entre os empregados, entre os bairros de classe alta de San Cristóbal e Villa Morra. O contrato, de fevereiro de 2011, com valor inicial de 3 800 dólares mensais, indica que o Paraguai foi o primeiro destino de um dos foragidos mais procurados do Brasil assim que se escafedeu da Justiça, no início daquele ano.

A mais nova tentativa de encontrar Abdelmassih começou no fim de maio, quando uma operação da Polícia Civil de São Paulo encontrou em uma das fazendas do médico, em Avaré, documentos que davam pistas do esquema de sustentação financeira que financiava sua fuga. A partir da rede de amigos e familiares descoberta nesse dia, a polícia e o Ministério Público rastrearam o médico no Paraguai. A desconfiança de que esse era o paradeiro surgiu por meio de escutas feitas no telefone de Maria Stela Abdelmassih do Amaral, irmã do ex-médico. Nas conversas, ele contava sobre a menina, que estava no balé, e o menino, no inglês. Também falava sempre da igreja católica que frequentavam todo fim de semana, a Niño Jesus de Praga (o casal dava preferência às missas de domingo realizadas às 11 horas). Ali, ele se apresentava como investidor do ramo de laranjas e era conhecido por ajudar nas campanhas beneficentes de arrecadação de recursos. Além de falar constantemente com a irmã, mantinha contato telefônico com a cunhada Elaine Sacco Khouri, irmã de Larissa, e Dimas Campelo Maria, que seria caseiro da fazenda em Avaré onde foram apreendidos os documentos.

 

O “Dia D” para a confirmação de que se tratava mesmo do médico foragido foi a terça-feira da semana anterior, dia 12, data de aniversário de 3 anos do casal de gêmeos, Jorge e Maria. Os policiais cruzaram a provável data de nascimento das crianças — afinal, a fuga ocorreu quando Larissa ainda estava grávida — e a idade dos aniversariantes. A mulher do médico foi até a comemoração discreta na escolinha bilíngue Maria’s Preschool, e aí os agentes tiveram certeza de que era mesmo Abdelmassih quem se escondia naquela casa. Uma semana depois, os policiais abordaram os dois na rua, logo depois que eles deixaram os gêmeos na instituição infantil, a quatro quadras da casa deles.

Prenderam Abdelmassih, mas deixaram Larissa livre. Na conversa que teve com os policiais em São Paulo, o médico disse que o cerco aos dois se fechou depois que a foto dela apareceu em VEJA. Em julho, a revista publicou uma reportagem que mostrava como o médico financiava sua fuga e escapava do rastreamento da polícia. “Quem me pegou foi o rapaz da Polícia Federal. Diz ele ter informação até da igreja, de uma ‘cliente’ que me viu, mas principalmente depois da VEJA, que estampou muito o rosto da Larissa.”

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A descoberta de Abdelmassih no Paraguai foi uma surpresa, porque a principal hipótese era que ele tivesse escapado para o Líbano, por ter cidadania também do país do Oriente Médio. Segundo investigadores, a escolha do país vizinho levou em conta a facilidade de comprar proteção e a proximidade com familiares. O plano inicial era usar o país como uma ponte para o Líbano ou a Itália, mas a tranquilidade em Assunção e as dificuldades, financeiras e logísticas, para continuar a fuga fizeram com que o casal se fixasse no Paraguai. Uma das suspeitas dos investigadores brasileiros e paraguaios é que policiais corruptos e autori- Pelé e Assíria em 1996, no nascimento de gêmeos: celebridades no portfólio antonio milena dades paraguaias ajudassem o casal.

Antes de Abdelmassih cair em desgraça, um dos seus 8 000 clientes foi o paraguaio Nicolás Leoz, presidente da Confederação Sul-Americana de Futebol. Mas o médico diz que não teve ajuda dele. “Sempre fui muito querido. Mas não o procurei, para não constrangê-lo.” As autoridades não acreditam na história de que não houve ajuda. Afirma o diretor da Secretaria Antidrogas paraguaia, Luis Rojas: “Ele tem contatos influentes, muito influentes”.

Roger Abdelmassih

Roger Abdelmassih

O médico foi imediatamente deportado para o Brasil e chegou a Foz do Iguaçu, no Paraná, no fim da tarde de terça-feira (19). Não dava sinais do que até então era uma das principais preocupações, a de que estivesse deprimido a ponto de tentar o suicídio. Em conversas com familiares, ele dizia ter uma arma e ameaçava se matar caso fosse preso, de acordo com investigadores. Na quarta-feira, foi transferido para São Paulo, onde está preso em Tremembé, no interior do estado, numa cela de 15 metros quadrados. Trata-se do mesmo presídio onde ele ficou de agosto a dezembro de 2009, quando foi liberado por uma liminar do Supremo Tribunal Federal.

A policiais civis, no Aeroporto de Congonhas, o ex-médico disse que partiu da mulher a ideia de fugir. A jornada teria, então, começado por Presidente Prudente, no interior paulista, onde parentes de Abdelmassih têm um haras. De lá, seguiu para Assunção. De acordo com o Ministério Público do Estado de São Paulo, que deu início em maio deste ano ao rastreamento de pistas que culminou na prisão, a rede de proteção de Abdelmassih era “sofisticada”. “Ele não usava o método rústico de simplesmente abrir uma conta em nome de um laranja e pegar dinheiro dali, mas um sistema que envolvia pessoa jurídica, simulação de contratos e remessa de quantias em pequenos montantes”, descreve o promotor Luiz Henrique Cardoso Dal Poz. “Por isso, podemos afirmar que ele tinha uma equipe, um núcleo duro que ficava no Brasil cuidando dessa estrutura.” Após casar com Larissa, em 2010, o médico abriu uma empresa de fachada, a Colamar, em nome de sua mulher e da irmã dela, Elaine. A função dessa firma era intermediar os negócios da Agropecuária Sovikajumi, de propriedade de Abdelmassih. No Brasil, a cunhada Elaine era a responsável por encaminhar as remessas de dinheiro para a conta pessoal de Larissa. “Tinha gente de confiança e também técnicos que entendiam dos meandros financeiros.” Os envolvidos podem ser processados por crimes como favorecimento pessoal, fraude bancária e falsidade documental.

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A Promotoria sustenta que o ex-médico nunca morou na fazenda de Avaré, mas mantinha o lugar como uma espécie de depósito de objetos pessoais e alguns documentos — que se transformaram em pistas para a polícia. Era a base para o bando trabalhar e para que ele e Larissa visitassem a família. No local, segundo Dal Poz, não havia sinais de que alguém efetivamente vivia ali. “Um fugitivo é muito cuidadoso no começo. Mas, depois de dois, três anos, começa a relaxar. E ele deixou rastros.” Nessa trilha, segundo os investigadores, foi fundamental a participação de mulheres vítimas de Abdelmassih. Elas se mobilizaram para encontrar, especialmente, pessoas próximas à família de Larissa.

Roger Abdelmassih

Roger Abdelmassih

A relação da jovem, bonita e bem-sucedida, com o ex-médico intriga até quem a conhece bem. Nascida em Jaboticabal, a mais nova entre quatro irmãs tinha tudo para seguir uma carreira brilhante. Aos 29 anos, passou no concurso da Procuradoria da República e foi nomeada para assumir o cargo em Dourados, em Mato Grosso do Sul. De acordo com antigos colegas de trabalho, era uma pessoa agradável, de fácil convivência e conhecida pelos gostos sofisticados — seu fraco eram bolsas de grife internacional. Ela conheceu Abdelmassih durante o tratamento a que se submeteu para engravidar de um ex-namorado, em meados de 2008. O romance teve duas celebrações católicas. A primeira, uma bênção de um padre, na casa dele, com apenas cinquenta convidados, entre eles seus advogados José Luis de Oliveira Lima e Márcio Thomaz Bastos, no caso ainda hoje. A outra foi um casamento na paróquia Nossa Senhora Mãe da Igreja, na Alameda Franca, nos Jardins, depois que o Tribunal Ecleciástico anulou seu primeiro enlace, com Sônia, que faleceu em 2008.

Nessa época, seu círculo de amizades tinha se tornado muito restrito — a apresentadora Luciana Gimenez e Marcelo de Carvalho, dono da Rede TV!, eram dos poucos casais com quem se encontrava com certa frequência. Vicente e Soraya, filhos adotivos do médico que trabalhavam com ele na clínica na Avenida Brasil, romperam com o pai — o rapaz não tinha uma boa relação com ele fazia tempo. Os dois são sócios na Embryo Fetus, com sede na mesma Avenida Brasil. “Temos vida independente, e assim desejamos seguir, com dignidade e respeito”, declararam em nota conjunta após a prisão do pai.

Roger Abdelmassih

Roger Abdelmassih

Antes de fugir, Larissa havia engravidado, mas perdeu o bebê de algumas semanas após sofrer uma hemorragia. Já Roger Abdelmassih passou por problemas de saúde durante os anos em fuga — teve duas vezes diverticulite, inflamação no intestino grosso, em 2012 e no início deste ano. Nessas ocasiões, sempre foi tratado em casa. Atualmente, toma remédios para o coração. Essa condição deve ser usada pelos advogados de defesa, que aguardam a resposta à apelação junto ao Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo contra a decisão que o condenou. Abdelmassih afirma ser inocente e reclama de falta de provas. Na Penitenciária Masculina de Tremembé II, onde estão presos como Alexandre Nardoni, Antonio Pimenta Neves e os irmãos Cristian e Daniel Cravinhos, ele deve passar dez dias em uma cela especial, sob observação. Será submetido a exames clínicos e psicológicos, além de entrevistas com os diretores da unidade. Só depois desse período é que seguirá para uma cela comum, que vai dividir com outros seis presos. “Espero que ali ele passe tudo o que nos fez passar”, diz a estilista Vanuzia Lopes.

A vida boa em Assunção

Como era a rotina de Abdelmassih e Larissa na capital paraguaia

Mansão e carrões

› A casa em Vila Morra, um dos bairros mais nobres da cidade, tinha jacuzzi, piscina e quatro quartos. Na garagem, havia um Mercedes preto E350 e um Kia Carnival

Restaurantes

› Um dos prediletos era o requintado San Pietro. O casal gastava cerca de 500 reais a cada visita, sempre regada a bons vinhos

Escola das crianças

› Os gêmeos Jorge e Maria frequentavam o jardim de infância bilíngue Maria’s Preschool, onde a mensalidade é de 172 dólares pelo período de seis horas

A igreja Niño Jesus de Praga

› O casal frequentava as missas aos domingos, às 11h. Ali, ele se apresentava como investidor do ramo de laranjas e era conhecido por ajudar nas campanhas beneficentes

Colaboraram Nataly Costa e Juliana Deodoro

 

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