Obras na Raia Olímpica da USP dividem opiniões

Projeto para substituir a barreira de concreto entre o lago e a Marginal Pinheiros por uma grade desagrada remadores e pode dobrar a poluição no local

O Tietê era palco das regatas da cidade até 1973, quando a sujeira inviabilizou a prática do esporte por lá. Os atletas migraram para a raia olímpica da USP, inaugurada na mesma época. O lago artificial, com 2 300 metros de extensão e 100 de largura, fica bem próximo do Rio Pinheiros, mas não tem contato com a poluição do vizinho.

A boa qualidade da água, atestada por duas medições anuais, permite a proliferação de peixes, que atraem aves em busca de alimento. O circuito possui ainda uma rica cobertura vegetal, com destaque para quaresmeiras, paus-brasil e outras árvores nativas.

Cerca de 1 000 remadores visitam regularmente o lugar, ao lado de esportistas paralímpicos e pessoas que participam de programas terapêuticos — entre eles, pacientes com câncer e crianças especiais. Para boa parte dos frequentadores, o espaço está ameaçado por um projeto que prevê a substituição do muro que separa a raia das pistas expressas por uma grade.

Ele integra um pacote de melhorias no local anunciado recentemente pela USP, com apoio da prefeitura. “Vamos estabelecer uma nova fronteira visual com a Marginal Pinheiros”, discursou João Doria ao anunciar a parceria como mais uma etapa de seu programa Cidade Linda.

Regata no Tietê: a poluição do rio acabou com as provas por lá (Divulgação/Veja SP)

Os críticos da iniciativa afirmam que a mudança vai deixar o lugar muito mais exposto à fuligem do trânsito e à poluição sonora. A barreira de concreto tem 3 metros de altura e espessura de aproximadamente 10 centímetros. Na segunda (15), o remador Michel Neumark denunciou ao Ministério Público do Estado a falta de um estudo ambiental antes do início da obra, previsto para ocorrer ainda neste mês (a meta é terminar tudo até agosto).

A Promotoria do Meio Ambiente ficou encarregada de analisar o caso. Um grupo de especialistas do Departamento de Ciências Atmosféricas da USP, chefiado pela professora Maria de Fátima Andrade, resolveu fazer o que a direção da universidade deveria ter feito: checar se as queixas relacionadas ao projeto têm procedência.

Segundo o trabalho, sem o muro atual, o nível de poluição pode dobrar dentro da raia. Com a ajuda de um monitor de material particulado, a equipe de especialistas realizou seis medições, em horários variados, entre os dias 15 e 16. “Boa parte das emissões de gases dos escapamentos não entra hoje no lugar graças à proteção de concreto”, explica Maria de Fátima.

O aumento da poluição sonora é outra questão que preocupa os frequentadores. A pedido de VEJA SÃO PAULO, a empresa Instrutherm avaliou o tamanho do problema na terça (16), por volta das 16 horas. Munido de um decibelímetro, o engenheiro Cristiano Molica realizou medições dentro e fora do espaço. Enquanto à margem das águas da raia foram registrados 65 decibéis, o aparelho apontou 85 decibéis na Marginal. “O muro ajuda a conter o barulho”, afirma Molica.

Vahan Agopyan, vice-reitor da USP, e Doria: investimento de mais de 2 milhões de reais (Antônio Cícero/Estadão Conteúdo/Veja SP)

O poder público municipal empurra a responsabilidade do problema para a USP. “As questões relativas a detalhes da proposta devem ser encaminhadas à universidade, encarregada de sua elaboração e execução”, informa uma nota da assessoria de João Doria encaminhada a VEJA SÃO PAULO.

A direção da USP, por sua vez, não quis conceder entrevista. As mudanças incluem ainda alterações no paisagismo do espaço, nova iluminação e a construção de uma pista de corrida. Tudo isso custará mais de 2 milhões de reais, montante bancado por um grupo de empresas, como a Prevent Senior.

Para os remadores, a solução é manter o muro ou trocá-lo por uma proteção de vidro. “Somos a favor de uma maior integração da raia à cidade, mas isso não pode ser feito sem as devidas precauções, para preservar o ambiente e a saúde dos frequentadores”, conclui Neumark.

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