Os problemas que estão infernizando a vida dos paulistanos

Enchentes, falta de luz, torneiras secas e queda de árvores são algumas das complicações enfrentadas no início do ano

Ser paulistano é, por definição, ser um bravo, um herói. A cidade das oportunidades, da diversidade, dos bons restaurantes, das infinitas opções de lazer e cultura torna-se muito cruel com seus moradores quando o assunto é mobilidade, segurança e outros temas que dependem essencialmente da gestão pública.

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Apesar de termos curso intenso de trânsito, enchentes e outras mazelas de uma metrópole, os velhos problemas que costumam nos castigar aportaram por aqui em uma proporção assustadora. Na semana passada, 800 000 domicílios da capital ficaram às escuras, em alguns casos, por três dias seguidos. A crise hídrica chegou ao ápice, com o governo estadual admitindo, na quarta (14), que as bacias podem secar em março.

Por ironia, enquanto a água rareia nas torneiras, ela pode ser vista em abundância nas ruas de bueiros entupidos, promovendo cenas como a da foto abaixo. Ganhamos ainda outra preocupação de proporção inédita: a queda de árvores, que registrou um recorde nesta temporada. O mapeamento sobre a saúde delas é risível, abrangendo apenas 7% da vegetação. E, por fim, os semáforos “inteligentes”, que há tempos têm aversão à chuva. Pingou, parou. Nessa hora, ganha na Mega-Sena o motorista que acha um agente da CET por perto. Ou seja, a força da natureza, aliada aos problemas de gestão dos nossos administradores, mostra a vulnerabilidade de São Paulo.

 

Na segunda (12), foram registrados 34 pontos de alagamento e o Aeroporto de Congonhas ficou fechado por uma hora, com dezesseis voos cancelados no período. Com velocidade de 85 quilômetros por hora, os ventos no dia elevaram ainda mais o recorde recente de queda de árvores na capital. Entre o fim de 2014 e as primeiras semanas deste ano, mais de 1 000 plantas tombaram, muitas delas sobre a fiação. Foi o principal motivo por deixar cerca de 800 000 pessoas sem energia, algumas delas por três dias, caso de dezenas de moradores da Pompeia, que saíram às ruas para protestar na manhã da quinta (15) contra a lentidão da AES Eletropaulo em restabelecer a luz.

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No auge do caos provocado pelas tempestades de verão, os dados sobre o volume dos reservatórios que abastecem a cidade, infelizmente, eram desoladores. No Sistema Cantareira, na divisa com Minas Gerais, até a metade de janeiro havia chovido apenas 20% do esperado. A situação fez com que as autoridades responsáveis passassem a falar sem rodeios nem eufemismos sobre a gravidade do problema, algo inédito desde o início da crise hídrica. Após afastar por quase um ano a possibilidade de racionamento de água em São Paulo, o governo estadual finalmente admitiu: a falta do recurso é uma realidade que, em breve, vai afetar a todos em maior ou menor escala.

“O racionamento já existe. Quando a Agência Nacional de Águas diz que você tem de reduzir a vazão de 33 para 17 metros cúbicos por segundo no Cantareira, é óbvio que há uma restrição hídrica”, disse Geraldo Alckmin na quarta (14). No mesmo dia, o novo presidente da Sabesp, Jerson Kelman, acrescentou que a vazão voltou a ser diminuída, dos atuais 17 para 13 metros cúbicos por segundo. Apenas 66 bilhões de litros de água restam no Cantareira. A Sabesp calcula que, com o atual (e baixíssimo) volume de chuvas na região, esse montante só dure até março.

A mudança de postura das autoridades ocorreu após um breve imbróglio jurídico que se deu no começo da semana passada. Na terça (13), a Justiça de São Paulo vetou a multa para quem consumir água em excesso, sob o argumento de que não há um rodízio formalmente decretado pelas autoridades. No dia seguinte, o desembargador José Roberto Nalini, presidente do Tribunal de Justiça, avaliou a questão em segunda instância e liberou a cobrança extra. Ela passa a valer imediatamente e seus efeitos devem chegar à casa do consumidor na conta de fevereiro. Os “gastões”, como são chamados pela Sabesp, que excederem em até 20% seu consumo médio pagarão 40% a mais no fim do mês. Quem ultrapassar esses 20% será punido com uma sobretaxa de 100%.

A chuva em excesso e a falta de precipitações no sistema de abastecimento estão comprometendo o dia a dia da população (leia depoimentos na galeria abaixo).

Uma das cenas mais chocantes da semana passada se deu em Osasco, na Grande São Paulo. Ali, o Hospital Municipal e Maternidade Amador Aguiar ficou sem luz das 21 horas da segunda (5) até as 2 horas da madrugada seguinte. A cirurgia de uma mulher diagnosticada com gravidez extrauterina, que passava pela retirada de uma das trompas, foi finalizada com o auxílio da luz dos celulares de duas enfermeiras. Outros três profissionais se revezaram por quatro horas e meia para bombear manualmente os equipamentos que mantinham dois recém-nascidos na UTI neonatal. O Procon multou em 3,7 milhões de reais a Eletropaulo pelo caso.

Para não ficarem às escuras, alguns moradores têm desembolsado até 3 000 reais para comprar um gerador de energia. Trata-se de modelos portáteis movidos a diesel que conseguem manter a iluminação e os eletrodomésticos funcionando. Nas lojas, a procura aumentou cerca de 20% só nas últimas semanas. Indústrias e hospitais, que precisam de uma maior quantidade de energia, têm recorrido ao aluguel dos aparelhos. “Estamos com o dobro da demanda. O maior empecilho tem sido o transporte, porque os caminhões só podem circular à noite em São Paulo”, conta Douglas Abreu Mamizuka, dono da GeraCenter, uma das companhias do ramo.

O crescimento desordenado da metrópole está entre as raízes dos problemas atuais. “Em vez de lidarem com os córregos, rios, nascentes, os engenheiros das décadas de 50 e 60 decidiram mudar seu curso ou simplesmente passar por cima deles”, afirma Paulo Pellegrino, professor do departamento de projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. “Com o desenvolvimento urbano e a necessidade de ocupar as várzeas, foram construindo nesses locais por acreditar que o clima não iria mudar.” Os políticos no poder sempre lembram a excepcionalidade de algumas situações para tentar justificar a quantidade de problemas. A estiagem que assola o Estado de São Paulo, por exemplo, é a pior dos últimos 84 anos. No âmbito municipal, o número de queda de árvores (1 000 plantas no chão em vinte dias) é a metade do esperado em um ano.

arvore queda centro

arvore queda centro

De fato, as grandes mudanças climáticas tornam ainda mais incontroláveis e imprevisíveis as forças da natureza. Mas é da responsabilidade do poder público preparar-se para enfrentar essas situações, de forma a minimizar os estragos. Isso inclui políticas mais transparentes nos alertas aos moradores sobre a iminência de alguns problemas e no planejamento de infraestrutura. O governo estadual pretende pôr em prática a última medida de emergência: acessar a terceira e última cota do volume morto do Cantareira, os derradeiros 41 bilhões de litros do sistema. Depois disso, não há mais alternativa. Estuda-se captar mais da Represa Billings — hoje, o reservatório já garante o abastecimento na torneira de 1,8 milhão de pessoas.

Falhas semelhantes podem ser observadas no município. Em outubro de 2013, o prefeito Fernando Haddad prometeu que pelo menos metade das 79 obras do Programa de Redução de Alagamentos (PRA) estaria pronta em dezembro daquele mesmo ano. Até agora, nem metade do plano foi cumprido. No caso da queda de árvores, os estragos poderiam ser minimizados se houvesse um acompanhamento do assunto. O único censo disponível identificou aproximadamente 650 000 plantas em calçadas e canteiros. Desse total, sabe-se o estado de saúde de apenas 48 000 delas (7%). 

Se não bastasse, entre 2013 e 2014 o trabalho de poda e remoção de árvores comprometidas caiu 10% (de 129 170 para 115 782). Ricardo Teixeira, secretário de coordenação das subprefeituras, não vê problema. “Temos uma meta anual de 100 000 podas e substituições de árvores problemáticas”, afirma. “Para mim, não houve nenhuma redução. Estamos acima da meta.” Mas de onde surgiu o número de 100 000? “Não sei, trabalhamos com ele há dez anos. Para saber exatamente por que ele foi definido, teria de investigar lá atrás na história da cidade para ver quem definiu isso”, afirma Teixeira. Com esse tipo de gestão, fica difícil ao morador da cidade (que em alguns casos vive literalmente no escuro) enxergar dias melhores.

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