Moradores de favelas do Morumbi demarcam espaço em ocupação do MTST

Terreno foi tomado pelo movimento no último dia 20 e conta com cerca de 1 000 barracas erguidas por pessoas que dizem não conseguir pagar o aluguel

Foi com o apoio de moradores de favelas como Vila Praia, Olaria e Paraisópolis, no Morumbi, na Zona Sul de São Paulo, que o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) tomou posse no último dia 20 de um terreno de 60 000 metros quadrados em um dos pontos mais nobres do bairro e da cidade. De acordo com a coordenação do MTST, em menos de doze horas mais de 600 barracas haviam sido erguidas. Na tarde de quarta-feira (26), eram cerca de 1 000 no local que recebeu o nome de Portal do Povo em alusão ao condomínio de alto padrão Portal do Morumbi, que fica próximo.

 

Com os preços de aluguel praticados na região – segundo os moradores, uma casa de dois cômodos em Paraisópolis não sai por menos de 500 reais ao mês – pessoas que nunca tinham ouvido falar do grupo encontraram ali a possibilidade de conquistar a casa própria. Luciana Barbosa Silva Bezerra, de 33 anos, é uma delas. Moradora de Paraisópolis, paga 600 reais de aluguel pelo quarto, cozinha e banheiro que divide com o esposo e o filho de 13 anos. “Meu marido é hidráulico e eu estou desempregada, não temos condições de comprar um imóvel com os valores praticados hoje, e o aluguel também está cada dia mais pesado.”

Luciana chegou até o acampamento através do cunhado, o carpinteiro Francisco Severino, de 50 anos, que também ergueu sua barraca por ali. “O dia em que eu deixar de pagar aluguel, poderei investir o dinheiro na educação dos meus filhos. Não quero que eles passem pelos sufocos que eu passo na vida.”

 

 

São simples as regras para se juntar ao MTST. Para erguer uma tenda, basta comprar seis metros de lona e pegar cinco tocos de bambu com um dos coordenadores, que indicará o local exato para montar o abrigo. Em troca, o movimento exige que as famílias estejam realmente interessadas em militar pela causa. “Está disposto a lutar, companheiro? É a única coisa que a gente exige”, dizia Cleiton Veloso a cada um que o abordava em busca de informações. Ele é coordenador do Portal do Povo e está há nove anos no MTST. Durante os trinta minutos que a reportagem de VEJASAOPAULO.COM esteve com Veloso, ao menos seis famílias o procuraram com interesse em se juntar ao MTST – quatro delas traziam as lonas nas mãos.

Os interessados também precisam participar das assembleias que ocorrem no acampamento toda noite, às 19h. É nessas reuniões que os líderes informam os militantes sobre o status das negociações do grupo e as datas das próximas manifestações. Os presentes assinam o nome em um caderno, para controle do acampamento. “Se um acampado não aparecer por quinze dias, por exemplo, cedemos a barraca para outra pessoa interessada, é preciso estar ativo para fazer parte do grupo”, contou.

 

A valorização imobiliária na capital, que chegou a 25% no ano passado, tem dado força ao movimento. Cada vez mais pessoas procuram o MTST porque foram despejadas. “Tive que sair da minha casa há três meses pois não conseguia mais pagar o aluguel. Já estou arrumando o meu barraco para vir para cá em definitivo”, disse Maria do Rosário, de 61 anos, que mora atualmente debaixo de uma rede elétrica.

Outro caso semelhante é o de Roseli da Costa Silva, de 33 anos. Ela se mudou da Bahia para São Paulo há quatro anos. Desde então, não conseguiu emprego fixo e trabalha fazendo “bicos”. Agora está como segurança em uma balada na Zona Oeste. “Ganho 800 reais por mês para pagar aluguel, comprar a comida e sustentar o meu filho de 14 anos”, afirmou. Era uma das pessoas que escolhia um ponto para colocar seu nome na última quarta-feira (25). “Nunca pensei em fazer parte dos sem-teto, mas não consigo pensar em outra maneira de conseguir uma casa, estou desesperada.”

MTST Morumbi - Roseli da Costa Silva

MTST Morumbi – Roseli da Costa Silva

As barracas estão divididas por quadras: G1, G2, G3, G4 e G5. As três primeiras estão montadas e ficam na parte mais baixa do terreno que na verdade é um morro. O G4 e o G5, porém, vão ocupar a parte de maior desnível. De acordo com o coordenador, cada um desses grupos deverá ter até 500 famílias. “Assim como nos demais acampamentos do movimento, haverá ainda banheiro e cozinha coletivos”, prometeu. Por enquanto, os acampados se viram com um banheiro químico que já estava no terreno e transformaram uma antiga guarita em local para preparar comida.

No dia da visita da reportagem, apenas 10% das barracas estavam realmente ocupadas. A maioria foi erguida e nomeada como sinal de interesse das famílias em participar do movimento, enquanto continuam morando em casas alugadas nas favelas da região. “Ainda estamos organizando a nossa estrutura, e a nossa permanência aqui depende dos acordos firmados entre os líderes do movimento e o governo. Conforme a nossa estada aqui é adiada, as pessoas vêm em definitivo para se livrar do aluguel”, explicou Veloso.

MTST Morumbi - Visão do Acampamento

MTST Morumbi – Visão do Acampamento

MTST Morumbi - Cleiton Veloso Coordenador

MTST Morumbi – Cleiton Veloso Coordenador

Segundo ele, foram os próprios moradores da região que apontaram o terreno no Portal do Morumbi como oportunidade de ocupação. “Chegamos até aqui com a ajuda da comunidade e estudamos por quatro meses até decidirmos entrar.” Depois que foi invadido, a construtora Even se pronunciou como proprietária. Por meio de comunicado, disse que “foi adquirido há quase três anos e o projeto para a construção de um empreendimento residencial foi protocolado na Prefeitura de São Paulo imediatamente após sua aquisição. O lançamento será feito após sua aprovação.”

Sobre a posse do terreno pelo MTST, a construtora afirmou que “a ocupação totalmente irregular causou profunda indignação e a empresa tomou todas as medidas legais necessárias para garantir seus direitos e efetivar a reintegração de posse, não havendo possibilidade de negociação com representantes do movimento”.

Ocupação MTST Morumbi

Ocupação MTST Morumbi

Enquanto o acampamento no Morumbi toma forma, outros integrantes do MTST se mantêm em frente à Câmara Municipal para pressionar a votação do novo Plano Diretor. Guilherme Boulos, um dos líderes do movimento, disse em entrevistas que a luta continuará por moradia e transformações sociais. Nos últimos meses, o MTST chegou a reunir mais de 12 000 pessoas em manifestações, segundo a Polícia Militar. O grupo organiza ainda outras três grandes ocupações na cidade: Nova Palestina, no M’Boi Mirim, Faixa de Gaza, em Paraisópolis e Copa do Povo, em Itaquera.

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