Como funciona o plantão de Carnaval da Polícia Rodoviária

Acompanhamos 12 horas de trabalho da equipe que cuida do sistema Anchieta-Imigrantes

O café da base da Polícia Rodoviária no quilômetro 10 da Rodovia Anchieta é fraco e já vem adoçado. Quem prepara a bebida é o soldado Rafael Estevam de Oliveira, um dos que começam o plantão do sábado de Carnaval (5) às 7 da manhã. Logo em seguida, chega ao posto o soldado Sérgio Lopes, que mal estaciona sua moto e vai direto para o computador, repetindo baixinho a placa de um veículo cujo motorista havia cometido uma infração de trânsito. “O taxista veio costurando todo mundo na pista, quase me atropelou e bateu em outros carros”, disse. “Vou lhe aplicar uma multinha, para ele ficar esperto.” O responsável pelo bom andamento do trânsito nos 72 quilômetros da Anchieta é o tenente Rodrigo Franco de Souza. Com orgulho, ele discorre sobre os mais de 100 dias sem um único acidente fatal no trecho mais perigoso da rodovia. Durante o Carnaval, Souza comanda todas as vias que levam ao litoral paulista.

Em frente ao posto policial, os soldados posicionam cones de modo que só passe por ali um veículo de cada vez. A velocidade dos automóveis diminui e, com a ajuda de um sistema inteligente de detecção de placas, a equipe para aqueles que aparecem no sistema com alguma irregularidade. Às 7h18, três carros estão no pequeno estacionamento ao lado da cabine da Polícia Rodoviária. Todos com licenciamento atrasado. Um dos motoristas, que não quis dar entrevista, anda de um lado para o outro, impaciente. Duas crianças que esperavam estar na praia dentro de instantes deixam clara a frustração da viagem abortada. Ele entra na cabine e fala mais de uma vez: “Não tem como conversar? Estou com duas crianças no carro”. Irredutível, o oficial o orienta a procurar alguém que possa levá-los para casa. Policiais contam que essa abordagem é comum.

Polícia 2208

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“Hoje não tem jeitinho brasileiro”, afirmava o gerente administrativo João Carlos Rodrigues, que teve seu Renault Mégane preso por atraso no licenciamento. “Eu acho bom eles serem rígidos. Só espero que isso não esteja sendo feito apenas porque a equipe de reportagem está aqui.” Às 7h58, o estacionamento do posto policial já tem sete carros à espera do guincho. Motorista de um deles, a professora do ensino fundamental Márcia Felix não planejava passar o Carnaval na praia. Seu objetivo era fazer uma visita ao marido, que sofrera infarto um dia antes e estava hospitalizado no município de São Bernardo do Campo. “Nem nos lembramos do licenciamento. Só queria chegar até 8h30 para o horário da visita.”

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Por volta das 8 da manhã, começa a todo o vapor a Operação Cavalo de Aço, um nome imponente para a fiscalização de motocicletas. Os policiais se posicionam e param quase todas as motos que passam pelo lugar. Procedimento-padrão. Conferem a documentação do carro e do motociclista, olham os pneus, luzes de freio, faróis e o licenciamento. Se estiver tudo o.k., boa viagem. Se houver alguma irregularidade, o condutor leva uma multa ou tem a motocicleta presa. Em outro ponto da estrada, no quilômetro 31, fica mais uma base dessa operação. Na saída do pedágio, um sem-fim de motos para.

Polícia 2208

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Transtornado pela notícia de que sua motocicleta seria apreendida por causa do desgaste dos pneus, o auxiliar de escritório Sander Carlos de Brito tenta argumentar. Quer arrumar o veículo antes que ele seja levado ao pátio. “Só conseguirei tirá-lo de lá na Quarta-Feira de Cinzas”, reclamava. Parado no ponto de apoio ao usuário há quarenta minutos, o contador Mateus Cerissa parece não estar muito nervoso com sua situação. A cerca de 200 metros do quilômetro 41, ele envolveu-se em um acidente leve. O próprio cunhado bateu em sua traseira. “Estávamos parados, aí andou um pouco e parou novamente, bem rápido”, disse o tatuador Raul Cleber Francisco. “Eu não consegui frear a tempo.”

Polícia 2208

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São 8h39. Acompanhado do soldado Nilson Aparecido Almeida, o tenente Franco chega ao Centro de Controle de Operações da concessionária Ecovias, que administra o sistema Anchieta-Imigrantes. A sala é equipada com 42 telas, que exibem imagens de todo o trajeto em uma imensa parede. De lá, funcionários da empresa e policiais conseguem vigiar 138 pontos. Avistam uma repórter de TV que prejudica o trânsito já moroso no quilômetro 55 da Anchieta. Em busca de entrevistados, a jornalista para alguns carros, o que atrai a curiosidade de outros motoristas. Em questão de minutos, a Ecovias entra em contato com a emissora e a repórter sai do local. “Ela não tem a menor noção do risco que está correndo”, diz o tenente Franco.

Para voltar ao posto do quilômetro 10, o tenente opta por encarar a Serra do Mar pelas curvas da velha estrada de Santos, aquela imortalizada pelo rei Roberto Carlos e atualmente proibida de ser percorrida por automóveis de cidadãos comuns. No meio da subida, com mata verde de ambos os lados, há uma fonte de água potável. “Às vezes você está estressado, com o dia cheio, cansado”, conta o tenente. “É só vir aqui e tomar um gole desta água que revigora.”

Polícia 2208

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Voltando ao topo da serra, na altura do quilômetro 14 da Rodovia Anchieta, Franco nota um caminhão derrubando cimento na pista. Imediatamente o soldado Nilson ultrapassa o veículo e faz sinal para que o motorista pare no acostamento. De bate-pronto, os dois percebem uma série de irregularidades. A primeira delas: a placa está adulterada. Com uma fita crepe, o motorista, que estava sem habilitação, tentou transformar um zero em 8. Havia ainda excesso de passageiros e pneus carecas. O caminhão foi conduzido à base e foram lavradas seis multas, em um total de cerca de 1.500 reais, mais 36 pontos na carteira de habilitação. 

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São 13h30 e o soldado Estevam prepara o segundo café do dia. Adoçado e fraco. O plantão do tenente Franco está chegando ao fim. Quem assume após as 15 horas é o comandante Luís Antonio Caria Cajaíba. Com 43 anos, 24 deles na Polícia Militar, sendo cinco na Rodoviária, ele conhece — e gosta de contar — muitas histórias da região. Mora em Parelheiros, no extremo sul do município de São Paulo, e fala com saudosismo sobre sua infância em volta da Represa Billings. “Sabia que ainda tem onça por aqui?”, pergunta, referindo-se ao trecho de interligação entre as rodovias Anchieta e Imigrantes. “Tem anta, jaguatirica, tatu, tucano, periquitos e psitacídeos em geral.” 

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O trabalho dos policiais fica mais tranquilo na parte da tarde, quando o trânsito diminui bem. E vai assim até o cair da noite. Durante todo o Carnaval, a Ecovias registrou a passagem de 391.483 veículos rumo ao litoral pelo sistema Anchieta-Imigrantes. O fluxo foi um pouquinho menor que o registrado no ano passado, com mais de 400.000 veículos. Os acidentes também caíram (de 207 em 2010 para 135 neste ano). Não foram registradas mortes. No balanço da Polícia Rodoviária que envolve todas as rodovias estaduais, constatou-se uma redução de 42% no número de vítimas fatais (de 41 em 2010 para 24 neste ano). Uma boa notícia. Ainda mais porque os acidentes cresceram 10%.

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