Confira o perfil médio dos 1 247 candidatos à Câmara Municipal

Conheça quem está tentando a reeleição e a galeria de famosos e personagens curiosos que desejam ingressar na política

Trata-se de um belo emprego. Não bastasse o salário de 15 000 reais, um vereador paulistano dispõe de verba mensal de 165 000 reais para o pagamento de funcionários e demais custos do gabinete. É também uma ocupação com relativa estabilidade. O “contrato” mínimo prevê quatro anos, e esse período pode ser prorrogado indefinidamente: há político instalado na Câmara Municipal desde os anos 80.

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Não é de estranhar, portanto, que as 55 vagas disponíveis na casa legislativa atraiam interessados dos mais variados tipos. Muitos, inclusive, mais focados na própria independência financeira do que em resolver os intrincados problemas da metrópole. Até a semana passada, havia 1 247 pessoas inscritas para o pleito do próximo dia 2, número recorde nos últimos vinte anos. Infelizmente, nesse caso, a quantidade está longe de significar qualidade.

Vereadores

Vereadores

A partir dos dados socioeconômicos disponibilizados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), VEJA SÃO PAULO traçou o perfil médio dos candidatos na cidade. Um total de 51% deles não tem nível universitário. Ainda que esse número esteja bem acima da média da capital, onde 21% da população é formada em faculdade, segundo dados do IBGE, seria de esperar para um cargo tão importante uma quantidade maior de diplomados.

Algumas profissões consagradas na administração pública também são raras. Há apenas sete economistas e um sociólogo. “Com o desenvolvimento tecnológico, os temas que chegam às mãos de um vereador se tornam cada vez mais complexos”, afirma o cientista político Fernando Schüler, professor do Insper. “Ele precisa dominar assuntos como contabilidade e modelos de gestão, entre outras coisas.” Para piorar o cenário, 42% dos postulantes a vereador não passaram do ensino médio. Há até mesmo 24 que declararam só saber ler e escrever.

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De acordo com as informações do TSE, é possível fazer o seguinte retrato do candidato típico: homem, branco, casado, na faixa de 50 anos, empresário e com patrimônio de cerca de 460 000 reais. “Decidi concorrer para representar a Lapa na Câmara”, explica Armando Inglês (PDT), dono de uma academia de ginástica e natação no bairro e exemplo de todas as características listadas acima.

Esse perfil médio é bem diferente do que mostra a população paulistana. Segundo o IBGE, o tipo de morador mais recorrente na capital é mulher, solteira, na faixa de 20 a 30 anos, comerciária, com o ensino fundamental incompleto e renda mensal de 2 000 reais.

Armando Inglês

Armando Inglês

Quadro vereadores

Quadro vereadores

Entre os dez candidatos mais ricos, três já ocupam um posto na Câmara: Adilson Amadeu (PTB), Wadih Mutran (PDT) e Ricardo Nunes (PMDB). A relação inclui ainda outro veterano na área, Eduardo Suplicy (PT). O primeiro colocado, no entanto, é um neófito na política.

Com patrimônio declarado de 14,7 milhões de reais, o empresário do ramo do café Diogo da Luz (Partido Novo) foi um dos idealizadores dos cartazes contra a Lei de Zoneamento espalhados no ano passado por ruas dos Jardins. “Batalhei para juntar uma poupança, criei meus filhos e agora quero me dedicar à cidade”, diz.

Diogo da Luz

Diogo da Luz

Quadro vereadores

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Na outra ponta, há um contingente de 505 candidatos que dizem não possuir nenhum bem ou que revelaram quantias irrisórias, como Bia Taxista (PP), que sustenta ter juntado apenas 1 centavo ao longo de seus 31 anos de vida. “Na verdade, não tenho nada. Usei esse valor para cadastrar um táxi do qual sou a segunda motorista”, explica ela, cuja bandeira será lutar por um sistema de transporte que una taxistas e Uber.

Bia Taxista

Bia Taxista

Quadro vereadores

Quadro vereadores

Há aqueles que incluíram itens peculiares entre seus bens. A empresária Tarsila do Amaral (PSD), por exemplo, sobrinha-neta da pintora homônima, tem um quadro da artista plástica avaliado em 270 000 reais. Mas o campeão dessa lista insólita é o advogado Camilo Cristófaro (PSB), dono de 24 Fuscas guardados em uma garagem na Vila Mariana.

“Comecei a coleção em 1996, e meu xodó é um raro modelo inglês, verde, de 1953”, afirma ele, sobrinho do famoso piloto conhecido como “o Lobo do Canindé”, que morreu na década de 90. Sua plataforma na disputa pela Câmara é polêmica: a desativação parcial das ciclovias da capital entre segunda-feira e sábado. “São Paulo é a cidade dos carros. Bicicleta só serve para o fim de semana”, decreta. 

Camilo Cristófaro

Camilo Cristófaro

Quadro vereadores

Quadro vereadores

Como se repete a cada eleição, há a “bancada” dos famosos. Um deles é o ex-goleiro Waldir Peres (PRP), dono da camisa 1 no célebre esquadrão canarinho da Copa de 1982. “Quero fazer algo para o povo e decidi tirar as crianças das ruas por meio do esporte.” O ex-cantor da Jovem Guarda Ed Carlos (PRP) é outro com um objetivo ligado a sua trajetória pessoal. “Há mais de vinte anos sofro de uma doença degenerativa, a ataxia, e quero ajudar pessoas com esse mal”, conta ele, que tem dificuldade na fala.

Ed Carlos

Ed Carlos

Quadro vereadores

Quadro vereadores

Existem ainda candidatos com discurso associado às mais variadas faixas etárias. “Quero colocar bondes no lugar das ciclovias”, diz o aposentado Mr. Morgan (PV), de 88 anos, o mais velho da lista. “Precisamos de renovação na política”, devolve a estudante de sociologia Carol Protesto (PT), a mais nova, com 19 anos. 

É possível pinçar algumas exceções no caleidoscópio de santinhos espalhados pelas ruas. A advogada criminal e ambiental Luiza Nagib Eluf (PSD), por exemplo, foi procuradora de Justiça do Ministério Público Estadual de São Paulo de 1983 a 2012 e participou da elaboração da Lei do Feminicídio (2015), que criou agravantes para crimes de homicídio caso o motivo envolva questões de gênero, como violência doméstica. “Eu vejo tanta incompetência e inaptidão no gerenciamento público que decidi me candidatar”, diz.

Já o cientista político e produtor cultural Marcio Black (Rede) é ligado a movimentos negros e trabalhou na organização do Carnaval de Rua e da Virada Cultural. “Atuo há catorze anos com a ocupação cultural de espaços públicos e quero fortalecer isso dentro da política”, afirma.

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O baixo nível dos candidatos não é um problema exclusivo daqui. “No mundo inteiro, os partidos se transformaram em entidades oligárquicas distantes das pessoas comuns, o que causou decepção generalizada”, entende o cientista político Sérgio Abranches. “O planeta tornou-se digital e o sistema político continuou analógico.” No Brasil, a situação é ainda mais aguda em função da salada de legendas apresentada ao eleitor.

Só na atual campanha municipal, 39 disputam atenção nas urnas. “É impossível distinguir diferença entre as ideologias. O cidadão acaba votando em quem defende uma proposta que lhe interessa de forma particular”, explica a professora Maria do Socorro Braga, doutora em ciência política pela USP.

Como esses problemas não têm solução em curto prazo, resta ao paulistano analisar com paciência e cuidado a miríade de nomes em busca daqueles com propostas mais sérias para a importante missão que os aguarda na Câmara Municipal.

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