Pelé, a lenda do Santos

Craque relembra grandes momentos de sua história — como o dia em que, arrasado por perder um pênalti, teve a carreira salva pelo roupeiro

A CHEGADA A SANTOSEm 1956, o jovem de 15 anos resolve sair de Bauru para tentar a sorte na Vila Belmiro
“São coisas que você registra na vida e que não dá para esquecer. Tudo começou em Bauru, no interior de São Paulo. Lá na cidade tínhamos uma equipe, o Bauru Atlético Clube (BAC), que era chamado carinhosamente por nós de Baquinho. Meu pai jogava na equipe principal e eu treinava no juvenil. Waldemar de Brito, que havia sido técnico do time, era amigo do presidente do Santos, Athiê Jorge Coury. Certo dia, esse treinador falou para mim: ‘O Peixe está montando um esquadrão e quer dar oportunidade a novos jogadores. Como o Baquinho anda muito bem aqui, acho que dá para você fazer um teste na Baixada’. Depois desse conselho, eu e meu pai pegamos um trem para São Paulo e, na sequência, o ônibus para a praia. Cheguei à Vila no início de uma semana, e o pessoal estava no campo. Lembro que fiquei parado no alambrado vendo todas aquelas feras. Todo ressabiado, pensava naquela hora: ‘Será mesmo que vai dar para eu ficar aqui nesse time?’.”
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GASOLINA FAZ SUCESSO
É chamado ao campo para entrar em ação e ganha elogios das feras do elenco
“Nos primeiros dias no clube, eu dormia com outros garotos num quarto que ficava embaixo da arquibancada do estádio. O quarto está lá até hoje. Como eu era muito jovem, fiquei na expectativa de ser testado com o time infantil ou o juvenil. Logo na minha primeira semana, porém, houve um treino de dois toques com o time profissional. Alguns jogadores do amador participaram da atividade. Tomei um susto quando me chamaram para completar o grupo: ‘Pô, com os titulares? Caramba!’. Acabou sendo ótimo. Ao final, todo mundo veio falar comigo. A turma dizia: ‘Ô, Gasolina, foi bem!’. Como eu era muito rápido, começaram a me chamar assim. Até eu falar: ‘Vocês vão me dar outro apelido? Eu já tenho um. É Pelé’.”
TENTATIVA DE FUGA
Ele perde seu primeiro pênalti e resolve deixar a concentração
“No início, eu treinava com um time misto, formado por titulares e amadores. Certo dia, me colocaram para reforçar o juvenil numa final contra o Jabaquara, grande rival do Santos na cidade naquela época. Aconteceu um pênalti na partida, eu fui bater e acabei perdendo o gol. Saímos de campo derrotados. Foi a maior decepção da minha vida. A partida aconteceu num sábado. Na segunda, eu continuava tão chateado e triste que queria voltar para Bauru. Não tinha experiência, estava longe da família… Quase pus tudo a perder. Por sorte, o roupeiro da Vila, o Sabuzinho, me impediu de sair da concentração, falando que nenhum garoto poderia deixar o local sem autorização da diretoria. Até hoje agradeço por ele ter aparecido naquele momento! Santo Sabuzinho! Que Deus o tenha em bom lugar!”
CONQUISTAS PRECOCES
O sabor do primeiro gol, do primeiro título e da primeira convocação para a seleção
“No dia 7 de setembro de 1956, enfrentamos o Corinthians de Santo André. Vencemos por goleada: 7 a 1. Comecei a partida no banco de reservas. O titular, que era o dono da camisa 10, se chamava Vasconcelos. No segundo tempo, ele se machucou, e o técnico me colocou em seu lugar. Logo depois, fiz o gol. Dizem que peguei a bola no meio-campo, driblei dois adversários e chutei por baixo das pernas do goleiro Zaluar. Mas, sinceramente, não me lembro desses detalhes. O primeiro título também veio rápido para mim. Em junho de 1957, fizeram um combinado de atletas do Santos e do Vasco para disputar um torneio com partidas no Rio e em São Paulo contra Flamengo, São Paulo e as equipes do Belenenses, de Portugal, e do Dínamo Zagreb, da Iugoslávia. Vencemos a disputa e meu futebol chamou a atenção do Sylvio Pirillo, que era o técnico da nossa seleção. Ele estava montando a equipe para disputar a Copa Roca contra a Argentina, no sistema melhor de dois jogos, com ida e volta. Aos 17 anos, fiz minha estreia com a amarelinha. Marquei um gol em cada uma das partidas e levantamos o caneco.”
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OS CLÁSSICOS INESQUECÍVEIS
Dois jogos cheios de fortes emoções que marcaram para sempre sua memória
“Tenho de agradecer a Deus, porque são tantos jogos importantes na minha carreira na Vila… Mas acho que o maior deles foi o Santos x Palmeiras de 1958, que vencemos por 7 a 6. O clássico ocorreu no Pacaembu, valendo pelo Rio-São Paulo, pouco antes da Copa da Suécia. Nunca tinha visto coisa igual em campo. O placar foi virando, virando, virando… O primeiro tempo terminou 5 a 2 a nosso favor. Mas o Palmeiras conseguiu se recuperar e estava com a vantagem de 6 a 5 aos 34 minutos do segundo tempo. Aí conseguimos empatar e vencer. Infelizmente, naquela época, não havia transmissão pela TV. Outro jogo memorável ocorreu em 1959, contra o Juventus, no estádio da Rua Javari, na Mooca, em São Paulo. Recebi a bola na área e dei uma sequência de três chapéus, dois nos beques e um no goleiro. Foi o gol mais bonito da minha carreira. O mais engraçado dessa história é que só cabem umas 4.000 pessoas nas arquibancadas. Décadas depois, quando estavam fazendo um documentário sobre a minha vida, o ‘Pelé Eterno’, várias pessoas diziam ter visto aquela jogada. Como é que entrou tanta gente naquele estádio?”

Lemyr Martins

Consolado por Carlos Alberto Torres, em 1977: dois anos atuando nos Estados Unidos depois da despedida no Brasil

O MOMENTO DA DESPEDIDA
Como ele foi craque também em achar o momento certo para pendurar as chuteiras
“Eu tinha uma coisa que recebi do meu pai, que até hoje não esqueço e que passo para os jovens. Seu Dondinho dizia: ‘Se você for parar de jogar, nunca pare no seu pior, porque aí o pessoal te bota para baixo. Procure parar no auge’. Na despedida, em 1974, como o Santos tinha sido campeão e eu fui artilheiro do campeonato, achava que dava para jogar mais um pouquinho. Na minha cabeça, dava. Tinha a outra Copa, eu estava bem fisicamente… Fiquei em dúvida. Foi um momento muito difícil, mas graças a Deus eu fiz a escolha certa.”

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