Os campeões de produtividade da capital

Do coveiro com mais enterros no currículo à artista com mais obras em exposição, conheça as histórias dos maiorais em diversas áreas

Os paulistanos são conhecidos por trabalhar bastante (até demais, diriam outros brasileiros). Algumas pessoas justificam com folga essa fama. É o caso da gari Maria José Araujo, que recolhe mensalmente mais de 1 000 quilos de detritos no centro, enquanto a média dos seus colegas gira em torno dos 960 quilos. “Tenho orgulho de ser a rainha da limpeza e faço de tudo para continuar brilhando”, conta ela, a funcionária mais eficiente da brigada de 11 000 varredores da metrópole.

Em outras áreas, os campeões de produtividade não estão nos lugares mais óbvios. O cemitério em que há mais enterros é o da Vila Nova Cachoeirinha, na Zona Norte (430 por mês). Mas o coveiro número 1 é Jurandir Cruz, que dá expediente no Campo Grande, na Zona Sul, onde são realizados 156 sepultamentos no mesmo período. “Nem eu mesmo sabia que era o líder do ranking do meu setor”, afirma ele. Nesse caso, os 36 anos de trabalho na função o ajudaram a assumir a dianteira. Nenhum outro está há tanto tempo nessa área.

Às vezes, porém, a experiência não é o principal quesito. Que o diga o estudante Kaique Rodrigues. Ele começou no fim do ano passado a disputar campeonatos de videogame. No primeiro semestre de 2013, foi quem mais venceu torneios desse tipo em São Paulo. A seguir, conheça a história desses e de outros profissionais acima da média em suas respectivas áreas de atuação.

QUASE 70 000 ENTERROS

Em quase quatro décadas na labuta de abrir covas e dar acabamento a sepulturas, o coveiro Jurandir Cruz, de 56 anos, tem orgulho do que faz, jura nunca ter visto nada de estranho na penumbra do cemitério e carrega apenas uma frustração. “Nunca enterrei ninguém famoso”, lamenta. “Seria interessante se um dia isso acontecesse.” A celebridade que passou mais perto foi o rapper Sabotage, morto em 24 de janeiro de 2003 — justo quando Cruz estava de folga. Em compensação, a conta de anônimos entregues a seus cuidados é imbatível— quase 70 000 até hoje. Cruz começou a empunhar sua enxada no Cemitério Campo Grande, na Zona Sul, e, assim como os que colocou nos jazigos, nunca mais saiu de perto dali. Hoje, ele prepara uma média diária de seis enterros. Falando no assunto, já imaginou como seria o dia em que chegasse a sua vez? “Rapaz, nunca parei para pensar nisso”, diz. “Mas vou querer um velório normal, sem nenhum exagero.” Para a ocasião, ele só tem um pedido especial: descansar em paz no próprio Campo Grande.

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SEM PERDER O TOM

Para um grupo de paulistanos, karaokê é uma coisa séria. Os craques do negócio costumam se enfrentar em campeonatos. Nesse circuito, a maioral do momento na cidade é Cintia Yuka, de 29 anos. Mesmo sem dominar o idioma, ela se especializou no repertório japonês. Participa de dois campeonatos por mês em média e vence a maioria deles, sempre maquiada e vestida de quimono nas apresentações. “Sou a atual campeã paulista e brasileira em minha categoria”, orgulha-se. A gueixa dos microfones pratica pelo menos uma hora por dia, desde os 10 anos. Apesar da intimidade com o negócio, ela nunca pisou em karaokês tradicionais, como a Choperia Liberdade, por exemplo. “O pessoal vai a esses ambientes mais para brincar. Não gosto de misturar as coisas”, diz.

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RECLAMÃO PROFISSIONAL

Um dos principais canais do município para reclamações é o Serviço de Atendimento ao Cidadão. O paulistano que mais recorre a ele é Mauro Castro, de 51 anos, técnico de operações da Petrobras e morador do Parque Savoy City, na Zona Leste. Desde 2006, ele já protocolou mais de 4 000 queixas sobre temas variados, a exemplo de acúmulo de entulho, buracos nas calçadas e falhas na iluminação. “Meu papel é notificar e cobrar respostas das autoridades para as coisas erradas que vejo por aí”, explica. “Outro dia passei em uma rua perto da minha casa e vi que tinham acertado o asfalto depois das minhas interferências. Eu me senti realizado.”

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O REI DO CARTÃO

Na última quarta (21), o juiz Marcelo Aparecido Ribeiro de Souza, de 40 anos, comandou em Minas Gerais o clássico entre Cruzeiro e Flamengo, da Copa do Brasil. Embolsou um cachê de 2 500 reais. Foi a sua 22ª participação nos campos nesta temporada. Segundo a Federação Paulista de Futebol, nenhum outro árbitro de São Paulo apitou tanto em 2013. Um dos nomes mais conhecidos da torcida, Paulo Cesar de Oliveira atuou dezesseis vezes. Souza não dispensa trabalho, incluindo os jogos da segunda divisão do estadual. Mesmo com catorze anos de experiência, ainda sofre na hora de marcar impedimentos. “Se erro, a família pena em casa com as críticas”, conta ele, que é casado e tem três filhos. Souza ainda encontra tempo para administrar uma empresa de publicidade para internet e uma choperia em Itaquera, bairro recheado de corintianos e, não por simples acaso, escolhido para abrigar o estádio do clube. “Não admiro nenhum time em especial, torço por mim”, desconversa o juiz.

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FORNO ÁGIL

A rede de pizzarias delivery Dídio é um gigante do setor, com quinze lojas na capital. Sua unidade mais movimentada fica na Lapa. Nos fins de semana, ela entrega uma média de 500 discos por dia. No mesmo período, casas tradicionais como a Castelões vendem menos da metade. “Não dá para trabalhar muito rápido sem comprometer a qualidade”, entende Fábio Donato, dono da Castelões.O pizzaiolo Marcimone Silva, de 35 anos, da Dídio da Lapa, garante que dá. “Tenho um auxiliar que vai preparando a massa enquanto eu recheio quatro delas ao mesmo tempo”, explica. “Para dar conta do recado, é preciso agilidade.”

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SERMÃO INTERMINÁVEL

A Arquidiocese de São Paulo conta hoje com 962 padres. Dos sacerdotes mais antigos, poucos seguem celebrando missas todas as semanas. O cônego Laerte Cunha, de 81 anos, é o mais experiente entre os ainda em atividade. “Faço casamento, batizado, primeira comunhão, sétimo dia… Estou disponível para o que for preciso”, afirma. Cunha ainda não perdeu a empolgação para realizar suas cinco missas semanais na Paróquia Santa Terezinha do Menino Jesus, no Jaçanã, tarefa que cumpre desde 1961. No total, calcula já ter celebrado mais de 10 000 cerimônias. “No início eu passava os sermões em latim, um negócio inacreditável nos dias de hoje”, lembra.

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A DONA DA LISTA

Há pouco mais de um ano, os cantores da dupla sertaneja Munhoz e Mariano explodiram nas paradas de sucesso com o hit Camaro Amarelo e se tornaram celebridades da noite para o dia. A mudança foi tão repentina que nem todo mundo acompanhou. “Não conhecia o rosto deles e barrei mesmo”, conta Talita Zamarioli, de 29 anos, referindo-se a um episódio ocorrido em junho no seu local de trabalho, a porta do Villa Country, na Barra Funda. Para resolver a encrenca com os recém-famosos, ela precisou recorrer ao gerente, que liberou a entrada vip dos rapazes. Talita atua como hostess da maior balada sertaneja de São Paulo desde outubro de 2012. Todas as semanas, recepciona cerca de 12 000 festeiros. Muitos não resistem aos encantos da moça, que recebe pelo menos trinta bilhetinhos por mês com declarações de amor e números de telefone. “Mas, até agora, nenhum terminou em namoro”, garante a hostess, que está solteira há um ano e meio.

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BANHO EM RITMO ANIMAL

Há sete anos, quando lavou o primeiro filhote de cachorro em uma pet shop de Guarulhos, Felipe Corrêa, de 25 anos, pegou apreço pela função. Hoje ,é o campeão de produtividade do endereço paulistano com maior volume desse tipo de serviço, o Pet Center Marginal, no Pari. Por semana, ele atende 100 animais — de cachorros a roedores.O tratamento dura cerca de quarenta minutos. “Se não fizer direito, eles me mordem e arranham”, afirma. Mesmo com a agenda lotada, Correia não nega um encaixe. Sua verdadeira paixão, no entanto, são os animais maiores. “Adoraria dar banho em um cavalo”, sonha.

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UMA LENDA DOS ARES

Cláudio Finatti foi um dos primeiros pilotos de helicóptero de São Paulo. Em 24 de fevereiro de1972, durante uma missão de rotina, avistou um prédio em chamas. Era o Edifício Andraus, no centro. Em onze viagens, conseguiu resgatar 21 pessoas do incêndio, que teve dezesseis vítimas fatais e mais de 300 feridos. O comandante Finatti, como é conhecido no meio, está prestes a completar 43 anos de carreira, com aproximadamente 12 000 horas de voo de helicóptero, número recorde na cidade. “Só vou parar quando não conseguir passar no exame médico”, afirma ele, que completou 73 anos na última quarta (21).

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VASSOURA IMBATÍVEL

Às 3h30, o despertador da paraibana Maria José Araujo, de 66 anos, apita avisando que é hora de acordar para pegar no batente. Antes das 6 da manhã ela já está a postos na Rua São Bento, no centro. Ao longo do expediente de oito horas, recolhe mais de 42 quilos de lixo das calçadas. A maioria dos colegas de profissão que atuam na capital (a força de trabalho reúne 11 000 funcionários de duas concessionárias) não ultrapassa a marca de 40 quilos por dia. Maria chegou a São Paulo em 1972. Está nesse ofício há doze anos e ganha atualmente um salário de 750 reais por mês. Para se manter no topo do ranking de produtividade, caminha 3 quilômetros diariamente, passando também pelas ruas Álvares Penteado, Doutor Miguel Couto e Líbero Badaró. “Mesmo quando estou de folga saio catando tudo o que está jogado no chão”, conta ela.

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A INCANSÁVEL ATRIZ

Cansada de ganhar pouco em funções como a de vendedora de roupas em uma loja do Brás, Jenifer Mota, de 20 anos, resolveu tentar uma carreira alternativa. Incentivada pelo namorado, que é gerente de uma boate no centro, passou em um teste de câmera e virou Carol Castro, atriz do cinema pornô. Estreou em janeiro em uma cena com outra mulher. “Achei normal, não fiquei nem um pouco constrangida”, conta. Desde então, como estrela ou coadjuvante, participou de outros 74 filmes do gênero, a exemplo de Elas Sempre Querem Mais. “Nenhuma outra mulher atua hoje em São Paulo tanto quanto ela”, afirma Clayton Nunes, diretor da Brasileirinhas, a maior produtora do país nesse ramo. No começo, Carol era conhecida como a “morena devastadora”. O apelido não faz mais sentido desde abril, quando ela pintou os cabelos de loiro. Por dia de filmagem, chega a receber até 1 500 reais. “Não tenho tempo hoje para nada, vivo nos sets de gravações”, diz a incansável atriz. “Quero ganhar ainda muito dinheiro com isso.”

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PINTAR É COM ELA

A Pinacoteca guarda um dos principais acervos de arte do país, com mais de 9 000 obras. Dos diferentes artistas ali representados, a pintora Renina Katz, de 87 anos, é a que tem o maior número de trabalhos expostos: 806. Entre os destaques da seleção do museu, estão serigrafias como Permuta I e a litografia O Jardim. Expoente das artes gráficas brasileiras do século XX, a carioca radicada em São Paulo começou a carreira comum estilo figurativo e engajado em causas sociais. O reconhecimentoveio quando Renina aderiu à abstração e ganhou elogios da crítica pelo uso refinado de cores. Ela continua produzindo gravuras e aquarelas em um ateliê em Pinheiros. “Muita coisa que faço acabo doando à Pinacoteca, pois quero que meu trabalho chegue ao público”, explica.

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NO PALCO 2 500 VEZES

Receber os aplausos da plateia depois de um concerto é uma das grandes alegrias da vida de um músico. O trompetista Gilberto Siqueira, de 62 anos, já viveu essa emoção mais de 2 500 vezes. Integrante da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo desde 1973, ele é recordista em número de apresentações. “Logo que entrei, com 22 anos, era um dos instrumentistas mais jovens, e hoje me espanto ao notar que estou entre os velhinhos da banda”, conta o carioca, que mora em São Paulo desde o primeiro ano de vida.

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O PELÉ DOS GAMES

Um novato vem dominando a temporada 2013 de campeonatos de games na cidade. O estudante Kaique Rodrigues, de 18 anos, que entrou no circuito somente no fim do ano passado, venceu quatro torneios no primeiro semestre deste ano, o melhor desempenho entre os craques dos controles. As vitórias lhe renderam até agora dois consoles de videogame de premiação (cada um deles custa cerca de 2 000 reais). Sua especialidade é o Fifa 2013. Para dominar os macetes do jogo, ele treina seis horas por dia, em média. “A prática leva à perfeição”, acredita.

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QUARTETO FANTÁSTICO

É mais difícil virar mãe de quadrigêmeos do que ser atingida por um raio: uma chance em 614 125. Pois esse “raio” caiu em São Paulo em 21 de novembro de 2008 na residência de Elisângela Bandeira Marques, de 35 anos. Ela é a mãe paulistana com o maior número de gêmeos. Casada com o analista de sistemas Silvio Marques, Elisângela resolveu fazer fertilização e ganhou o bilhete premiado. De uma só vez, Beatriz, Bruno, Lucas e Lívia invadiram a casa, em Santana, consumindo 24 mamadeiras por dia e 1 200 fraldas por mês. Nas primeiras semanas de vida do quarteto, a mãe contou com a ajuda das avós, de uma babá e de uma auxiliar de enfermagem para dar conta da turminha. “A rotina é uma loucura. É difícil acompanhar toda essa energia”, afirma ela, que acabou abandonando o trabalho de auxiliar administrativa para se dedicar integralmente à prole. Nos raríssimos momentos de folga, compartilha na internet sua experiência em um blog.

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