Aplicativo de paquera Tinder vira febre em São Paulo

Com mais de 3 milhões de usuários na cidade, a ferramenta promove de relacionamentos de uma noite só a casamento

No romance de realismo fantástico O Amor nos Tempos do Cólera, os jovens Florentino Ariza e Fermina Daza trocam confidências secretas por meio do telégrafo, tecnologia comum na virada do século XIX para o XX. Uma paixão mantida acesa por “51 anos, nove meses e quatro dias”, como descreve o colombiano Gabriel García Márquez. Auxiliados por uma ferramenta que está revolucionando o mercado da azaração, os pombinhos do veloz mundo de hoje não precisam amargar tanto tempo até que sejam abatidos pelas flechas de Cupido. Disponível para smartphones, o aplicativo Tinder usa a geolocalização para unir pessoas em busca de um relacionamento, seja de cinquenta anos, seja de cinquenta minutos.

 

Como num álbum de figurinhas, o usuário percorre perfis daqueles que estão nas redondezas e seleciona quais são de seu interesse. Se é correspondido, uma janela de bate-papo se abre. A administradora de empresas Sabrina Mariano e o representante comercial Ronaldo Ciasqui viveram um amor ao primeiro clique. Os dois baixaram o programa no fim de agosto e, em 15 de setembro, tiveram a primeira conversa pelo celular. Quatro dias depois, encontraram-se no Shopping Vila Olímpia e começaram a namorar ali mesmo. Estão de casamento marcado para 12 de abril. “Quando o conheci, acendeu uma ‘luzinha’, o que era cada vez mais raro na minha vida”, diz Sabrina. “Deletamos o aplicativo juntos, naquele dia.” Caminho idêntico está sendo trilhado pela assistente de fotografia da agência Y&R Carmen Galera e pelo engenheiro Bruno Colbalchini. “Eu o achei bonito nas fotos, vi que tinha gostos parecidos com os meus, como praia, e resolvi clicar no coração”, conta. Em outubro, os dois trocaram mensagens, encontraram-se e desde então estão namorando.

 

Conhecer alguém pela internet não é um mecanismo novo. Em 2011, um levantamento de VEJA SÃO PAULO mostrou que a rede era a forma preferida de fazer contatos para 27% dos solteiros da capital. O novo aplicativo caiu em cheio no gosto desse público. Criado em 2012 em Los Angeles, nos Estados Unidos, o Tinder chegou ao Brasil em julho do ano passado e, segundo a empresa, tem impressionantes 10 milhões de usuários no país. Desses, estima-se que cerca de 3 milhões estejam na cidade de São Paulo. O sucesso é impulsionado pela disseminação dos smartphones. Com eles, a paquera está à palma da mão 24 horas por dia, sete dias por semana.

 

Para fazer o cadastro não demora mais do que trinta segundos. A pessoa entra com seu nome de usuário e senha do Facebook (com isso, o Tinder passa a ter acesso aos dados da página). Para montar o perfil, podem-se usar até seis fotos que já estejam na rede social e inserir uma frase. Em seguida, é escolhido o alvo: homem ou mulher, de que idade e a qual distância está, até 160 quilômetros. Definido isso, o aplicativo disponibiliza um extenso cardápio de perfis com o primeiro nome e a idade. Quem não gosta do que vê aperta um símbolo de X e move a foto para a esquerda. Quem curte clica no coração ou arrasta o perfil para a direita. Se a outra pessoa fizer o mesmo, o sistema avisará os dois — “it’s a match!” (“vocês gostaram um do outro”, numa tradução livre). “No início, o usuário tem a tendência a procurar pretendentes próximos. Depois de um tempo de uso, aumenta o raio, para evitar conhecidos”, diz o professor Gil Giardelli, coordenador do Centro de Inovação e Criatividade da Escola Superior de Propaganda e Marketing.

Com variações, outros aplicativos que funcionam da mesma maneira vêm ganhando adeptos na esteira do sucesso do Tinder, como Eaí, ParPerfeito e Zoosk. A casa de shows de música sertaneja Wood’s, na Vila Olímpia, desenvolveu uma ferramenta própria: o Matchat. Ele será lançado no fim de abril e funcionará de um jeito muito parecido com o Tinder, mas só poderá ser acessado por quem estiver no local naquele momento. “Vai ser uma brincadeira para que as pessoas interajam, saiam do virtual para o real”, diz um dos sócios do estabelecimento, Rafael Setrak. E o feriado deve impulsionar ainda mais esse ramo de negócios. “Nosso crescimento diário tem sido de 2%, mas esperamos um aumento ainda maior dessa taxa durante os dias do Carnaval, porque muitas pessoas viajam e devem usar o aplicativo para conhecer outras pessoas em lugares diferentes”, diz Rochane Garcia, gerente de marketing do Tinder no Brasil.

 

Juntar casais firmes não é sua única vocação. Nem a mais popular. Do total de usuários, 80% são solteiros de 14 a 35 anos. Grande parte deles está à procura de um relacionamento que não precisa durar mais de uma ou algumas noites. Um sócio vip desse clube é o estudante Caue Gimenes, de 23 anos. Desde que entrou no Tinder, há três meses, ele teve mais de 100 matches. Ainda assim, considera-se seletivo. “Às vezes, passo quarenta meninas até achar uma de que eu goste”, diz. Beleza é um critério eliminatório. “Sempre olho bem o rosto e, se não tiver foto de corpo inteiro, observo o tamanho do braço”, explica. Imagens em cenários como praia ou parque também contam pontos a favor. Em seguida vem o papo. Gimenes chega a falar com mais de dez meninas ao mesmo tempo. Encontrou-se com sete. Ficou com todas, menos uma que apareceu muito diferente da foto — “Inventei uma desculpinha para ir embora” —, mas não continuou se relacionando com nenhuma. “Até gostaria de arrumar uma namorada, mas nunca rolou”, jura, caprichando na lábia.

caue gimenes tinder

caue gimenes tinder

Curiosamente, o aplicativo vem sendo bastante usado em ambientes como baladas e bares, onde a azaração corre solta ao vivo e pessoalmente (ou deveria correr…). “Até alguns anos atrás, o que aproximava os casais era o cigarro. Hoje estão todos no celular”, comenta Agenor Dias, dono do bar Charles Edward, na Vila Nova Conceição, tradicional ponto de paquera na capital. A facilidade de aproximação atualmente surpreende antigos frequentadores da noite. “Na minha juventude, tinha de subir e descer a Rua Augusta ou ir a boates como o Gallery e chamar as meninas para dançar”, lembra o apresentador Otávio Mesquita, de 54 anos e casado há sete. Para o psicólogo Ailton Amélio da Silva, facilitar relacionamentos casuais é a principal vocação dos aplicativos de paquera. “O Tinder é revolucionário para o pessoal que gosta de ficar, porque agora não precisa mais se arrumar, pegar o carro e ir para a balada”, afirma. “As pesquisas mostram que a maioria dos namoros começa com pessoas que ou já se conhecem ou têm amigos em comum”, completa.

Fugir a essa regra é o objetivo da empresária Adriana Moraes, de 36 anos, solteira há seis meses. Proprietária de uma filial da agência de namoros A2 Encontros, no Brooklin, ela incluiu o Tinder no grupo de ferramentas que recomenda a seus clientes para encontrar alguém. Usa o negócio inclusive em proveito próprio, com o objetivo de firmar uma relação estável. Nessa busca, conheceu pessoalmente três interessados. Em todos os casos, seguiu duas regras. A primeira foi perguntar logo o que eles estavam buscando. “Todo mundo está ali para um relacionamento, o problema é que cada um tem uma definição de relacionamento”, justifica. A outra, marcar os encontros em cafeterias, por precaução. Adriana tem repetido a recomendação a outras clientes que a procuram.

 

O surgimento do Tinder modificou a atuação das agências de casamento. Com 22 anos de experiência em arrumar encontros presencialmente, a dona da A2, Cláudya Toledo, tem realizado palestras por todo o país para dar dicas de como usar o smartphone para encontrar um par. Uma das principais é checar informações sobre o pretendente em outras redes sociais. Mas nem sempre as medidas evitam uma roubada. A empresária Renata Costa recentemente conheceu um rapaz pela ferramenta. Conversou com ele e o adicionou ao seu Facebook para obter mais dados. “Eram poucas fotos, mas ótimas”, conta. Marcaram de se encontrar há três semanas em uma festa. Ela não conseguiu identificá-lo em meio à multidão. “Parecia outra pessoa, a foto devia ser de cinco anos atrás”, recorda.

andrea moraes tinder

andrea moraes tinder

Mesmo quando as informações são verdadeiras e atualizadas, há um risco grande de o relacionamento simplesmente não ir para a frente, pelos mais variados motivos. A promotora de eventos Julia Ropero foi uma usuária frenética do Tinder no segundo semestre do ano passado. “Curtia pessoas a toda hora e meu índice de matches era de quase 90%”, gaba-se. “Saí com algumas, mas nada muito sério.” No fim do ano passado, no entanto, apaixonou-se por um rapaz. Ficaram juntos durante o mês de janeiro. O relacionamento, entretanto, não avançou. “Depois do fora que levei, fiquei até com um pouco de raiva do Tinder e pensei em apagá-lo do meu celular”, conta.

julia ropero tinder

julia ropero tinder

A força do aplicativo, portanto, não é garantir relacionamentos estáveis, mas a praticidade de selecionar e dispensar pretendentes entre a grande oferta disponível. “Sou muito tímido, para mim é difícil conversar pessoalmente”, admite o programador digital Arthur de Jesus, que é músico nas horas vagas e se apresenta em bares. “Com o programa, consigo focar pessoas que tenham os mesmos interesses que eu e ainda iniciar um papo pela internet, o que ajuda a me soltar”, completa ele, que saiu com quatro garotas nos últimos meses. Não engatou uma relação séria com nenhuma, mas ainda está em busca daquele amor eterno, como o de Florentino e Fermina.

Arthur de Jesus tinder

Arthur de Jesus tinder

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