Número de mortes após assaltos cresce 74% na cidade em 2013

Entre janeiro e abril, foram registrados na capital 54 assaltos com vítimas fatais em ações cada vez mais cruéis

Na última quarta, 5, alunos do Sion, em Higienópolis, um dos colégios mais tradicionais da capital, forraram parte do muro da instituição com cartazes pedindo o fim da violência e expressando mensagens de carinho ao funcionário Eduardo Paiva, de 39 anos, morto dois dias antes na porta da escola. Ele havia acabado de sacar 3 000 reais em um caixa eletrônico nas redondezas, quando foi abordado por uma dupla de assaltantes. Com o pacote com o dinheiro escondido dentro da calça, embrulhado em papel pardo, tentou agarrar a perna do bandido, que reagiu dando-lhe um tiro na cabeça e fugindo em seguida, na garupa da moto de seu comparsa. Socorrido por uma ambulância do Samu, Paiva morreu logo depois de dar entrada na Santa Casa de Misericórdia. Até o fim da tarde da última quinta, a polícia não havia identificado os responsáveis pelo crime. Uma câmera de segurança do Sion registrou a ação dos marginais.

+ Conheça outras vítimas da violência nas ruas da capital

 

A divulgação das imagens chocou os paulistanos não apenas pelo assassinato bárbaro ocorrido à luz do dia na porta de um colégio em um bairro central da cidade. Em uma metrópole onde as pessoas já estão traumatizadas com a onda de crimes, como os arrastões frequentes a bares e restaurantes, o episódio do Sion reforçou a sensação de que a crueldade e a ousadia dos bandidos estão cada vez maiores. Na mesma segunda do assassinato de Eduardo Paiva, ocorreu uma tentativa de sequestro-relâmpago nas imediações de outro colégio, o Dante Alighieri, nos Jardins. Alertados por testemunhas, três seguranças deram três tiros para o alto — e a dupla de ladrões fugiu.

Enquanto o funcionário do Sion foi morto depois de um saque de 3 000 reais, outros paulistanos são assassinados por pertences banais. Um par de tênis da marca Mizuno custou a vida do estudante Caio Cirilo Pereira, de 20 anos. Em março, por volta das 21 horas, testemunhas viram o momento em que três criminosos deram um tiro na cabeça do rapaz para poder arrancar-lhe os calçados do pé. O costureiro Daniel Chipana, de 26 anos, foi assassinado por causa de um telefone celular. Em janeiro, ele levou uma facada no peito durante um assalto no Belém, na Zona Leste. Os matadores de João Alberto Cardoso, de 70 anos, dono de uma imobiliária do Jardim Europa, o abordaram em fevereiro pedindo o relógio de luxo, avaliado em 170 000 reais. Seguido desde a rua, ele correu para se esconder dentro do escritório e foi atingido por três tiros, na frente da recepcionista. Já o fim do frentista Josué Santos da Silva não envolveu um único centavo. Após ser revistado por dois ladrões no posto de gasolina em que trabalhava, no bairro de Cidade Antônio Estêvão de Carvalho, na Zona Leste, em janeiro, foi alvejado com um tiro na face. O motivo, segundo observadores: ele não carregava dinheiro algum.

Essa modalidade de crime, chamada de latrocínio, está em alta na capital. No ano de 2012, ocorreram 101, o maior número desde 2003. Se o marco já era alarmante, a situação tem sido bem pior em 2013. Entre janeiro e abril, houve o registro de 54 casos, ante 31 no mesmo período de 2012, um incremento de 74%. A média do quadrimestre é de quase um caso a cada dois dias. São passos de recuo em um caminho vitorioso que a capital vinha trilhando. Em 1996, por exemplo, o número era alarmante: 252 assaltos com morte. Em 2000, o índice retrocedeu para 202. A queda chegou ao auge em 2007, com 42.

Fernando Grella, secretário de Segurança Pública

Fernando Grella, secretário de Segurança Pública

Não bastasse serem chocantes apenas numericamente, esses registros têm um componente tão imensurável quanto evidente, até para o secretário de Segurança Pública, Fernando Grella Vieira. “A crueldade nas ações dos bandidos é crescente”, afirma. Contam para reforçar essa impressão não apenas as ações violentas após tentativas de roubo de pertences baratos, mas também ocorrências como a registrada em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Em abril, a dentista Cinthya Magaly Moutinho de Souza morreu em seu consultório depois que os bandidos encontraram apenas 30 reais em sua conta bancária. Revoltados, como num filme de terror, atearam fogo no corpo da vítima.

+ Mande suas perguntas para o secretário de Segurança Pública

A brutalidade dos bandidos aparentemente tem levado a população a contrariar a regra mais básica a ser seguida diante das situações de risco: a de jamais reagir. Em um levantamento de VEJA SÃO PAULO com 45 boletins de ocorrência de latrocínio registrados neste ano, 25 vítimas haviam apresentado resistência. O balconista Elias Moraes Neto faz parte desse grupo. Ao ser abordado por uma dupla de criminosos que realizava arrastões durante a Virada Cultural, perdeu seu celular. Levou uma coronhada na cabeça e teve a impressão de que a arma era de brinquedo. Foi atingido ao correr atrás dos bandidos, um deles foragido da Fundação Casa. “Não acredito que a sensação de medo faça com que as pessoas reajam mais”, afirma Alessandra Teixeira, do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais. “Na maior parte das vezes, ocorre uma ação por impulso, que acaba terminando em tragédia.”

Tabela Criminalidade 2 - Capa 2325

Tabela Criminalidade 2 – Capa 2325

Buscar respostas para diagnosticar o porquê de os assaltos com morte estarem, ao mesmo tempo, mais numerosos e cruéis se torna fundamental para virar esse jogo. É preciso, em primeiro lugar, entender que esse crime tem algumas peculiaridades. “Ao contrário dos homicídios, eles não costumam ser premeditados, mas são a consequência de roubos que não deram certo”, diz Luciana Guimarães, diretora do Instituto Sou da Paz. Está aí, portanto, a primeira das causas: o aumento de crimes contra o patrimônio. Para ilustrar o comparativo, a subtração de veículos, que é o alvo mais comum dos latrocínios, passou de aproximadamente 78 000 casos em 2010 para 87 000 em 2012 (um incremento de 12%). Roubos relacionados a outros bens também cresceram no período.

Outro motivo: os ladrões têm hoje, literalmente, mais poder de fogo. “No início dos anos 2000, a campanha de desarmamento tirou muitas armas de circulação, mas, no decorrer dos anos, o estoque da bandidagem foi reabastecido”, afirma Guaracy Mingardi, pesquisador de segurança da Fundação Getulio Vargas. Esse problema, que começa no controle pífio das fronteiras nacionais, uma responsabilidade do governo federal, é igualmente citado pelo secretário de Segurança Pública. As apreensões de  fuzis, por exemplo, são mais frequentes a cada ano, segundo Fernando Grella Vieira.  A disseminação de drogas mais pesadas, como o crack, é outro fator. Sob o efeito dessas substâncias, os bandidos atiram mais facilmente e a brutalidade também se agrava, acredita ele, que ressalta ainda o papel das leis e da Justiça. “É comum que um policial faça seu trabalho, apreenda um criminoso em um assalto e um mês depois o encontre em uma nova ocorrência, porque foi solto rapidamente.”

O contexto de armas, drogas e sistema punitivo é relevante, mas também existe em cidades onde os números de vítimas de latrocínio estão em baixa, como o Rio de Janeiro (queda de 47% entre 2008 e 2012), que chegou a uma proporção por milhão de habitantes inferior à paulistana (8,1 contra 9.1). Entre os fatores específicos para a explosão de latrocínios em São Paulo, Grella cita uma medida, que considera ruim, de seu antecessor, Antonio Ferreira Pinto: a centralização dos registros de flagrantes em onze distritos policiais. “Houve perda da capacidade de investigação”, acredita ele, que ampliou essa função para 27 delegacias. “Assim, a apuração fica mais próxima da área de atuação dos criminosos.”

Grella assumiu a pasta em novembro do ano passado em meio ao aumento do número de homicídios dolosos, que até o fim do ano somariam 1 368 casos, ou alta de 34% sobre 2011. Passados sete meses da troca de guarda, há alguns dados positivos. Houve 3 313 prisões na capital em abril de 2013, maior índice para o mês desde 2001, e 28% mais do que nesse período do ano passado. Ainda que mais produtiva, a polícia está matando menos. Os registros de mortes em confrontos caíram 38%, de 157 para 97 entre janeiro e abril, graças a orientações como apenas cercar imóveis invadidos por ladrões, em vez de entrar nesses lugares.

Algumas boas medidas foram anunciadas recentemente pelo governador Geraldo Alckmin para reforçar a segurança. Entre elas, a criação de 1 800 vagas para a Polícia Científica (hoje, são 3 549) e o descongelamento de 2 800 cargos na Polícia Civil, incluindo aí 129 delegados. Foi divulgado ainda o pagamento de bônus a policiais que cumprirem metas de diminuição de crimes, mas não se sabe ainda quais serão as regras. São iniciativas oportunas. Embora não se possa prevenir determinados crimes — com menor incidência em São Paulo do que no Distrito Federal ou em Salvador, por exemplo, o que não serve de consolo para parentes e amigos das vítimas —, os paulistanos esperam que as providências realmente surtam efeito o mais rápido possível para que cenas como a do colégio Sion não se repitam na cidade. É hora de dar um basta aos criminosos.

AS AÇÕES DA POLÍCIA

O que já foi anunciado pelo governo federal

Mudanças nas investigações

Durante a gestão de Antonio Ferreira Pinto na Secretaria de Segurança Pública,a apuração dos casos registrados em flagrante ficou nas mãos de onze dos 96 distritos policiais da capital. Grella aumentou para 27 esse número, descentralizando o trabalho. Além disso, a apuração dos casos de latrocínio passou do DHPP, que investiga homicídios, para o Departamento de Investigações sobre Crime Organizado (Deic), onde os roubos são averiguados.

Mais homens nas ruas

A polícia afirma que destacou equipes administrativas dos batalhões para fazer as rondas, mas não informa quantos são esses homens.

Aumento do efetivo

A Polícia Científica passará de 3 549 para 5 349 funcionários. Além disso, 2 800 cargos da Polícia Civil foram descongelados, somando-se aos 28 000 existentes hoje.

Bônus por produtividade

O estado anunciou também que implantará uma política de premiação em dinheiro a policiais cujas regiões de atuação alcançarem metas de redução de criminalidade. Os parâmetros ainda estão sendo discutidos.

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