Meu robô particular

Sempre achei que haveria mais robôs no século XXI. Não era esse o combinado? Na família Jetson, à qual assistia na televisão, em formato de desenho animado, nos anos 60, tinha a Rosie, por exemplo. Ela se dedicava ao serviço doméstico. Mas era tão avançada que até namorava. Rosie chamava o George Jetson, o patriarca do futuro, de “Mr. J”, ou, imagino, “Senhor J”, em português. Depois, na década de 70, aparecem o R2D2 e o seu amigo C-3PO, no filme Guerra nas Estrelas, que virou um clássico do cinema. Você já conhece esses dois últimos, imagino, independentemente da sua idade. Convivo com eles desde o colégio.

Mas, na vida real, nada. Não há robô algum. Já estamos na segunda década do século. Está mais do que na hora, convenhamos. Não quero reclamar. Afinal, ninguém falou da internet naqueles tempos. E, no entanto, aí está ela, gloriosa. Quem poderia imaginar tamanha inteligência ao nosso dispor, 24 horas por dia? Reconheço a contribuição de outras máquinas também. Quando vou ao banco, muitas vezes o caixa é eletrônico. Assino e leio revistas no iPad. E sei que há autômatos nas linhas de produção de automóveis, por exemplo.

Faz falta, no entanto, um robozinho particular, individual, ou, como se diria em português, um personal robô. Surpreende não existir nada do gênero ainda. Na minha cabeça, ele teria um jeitão próprio. Saberia quem sou, do que gosto e necessito. Poderia ser programado para trabalhar como intérprete, por exemplo. Preciso disso. Na semana passada fui à Polônia a trabalho. Virei-me bem com meu inglês. Mas a minha aproximação com o povo daquele país teria sido mais intensa se houvesse uma engenhoca para traduzir meus pensamentos ao idioma local. Poderia colocá-la na mesa do bar. Eu a levaria ao McDonald’s de Varsóvia. Talvez me animasse a ir com a máquina até uma discoteca e à noitada subsequente. Parece-me ser este um próximo passo desejável no caminho da globalização: robôs que permitem a conversa fácil entre pessoas de idiomas, costumes e países distintos.

Na minha cabeça, ele tem uns 30 centímetros de altura e pesa pouco. Traz uma semelhança física, confesso, com o R2D2. Mas isso não é o mais importante. Com o tempo, aprenderia a torcer para o meu time e saberia por que, em certas disputas, o gol fora vale mais. A condição de corintiano lhe permitiria gravar os jogos, recomendando os melhores e me desviando dos piores. Encomendaria as compras do supermercado para minha casa pela internet.

Senhor J, como eu talvez o chamasse, passaria a preencher todo tipo de papelada. Poria minha documentação e minhas finanças em ordem. Declararia anualmente e quase sem esforço o imposto de renda. Chamaria advogados em caso de necessidade. Pediria vistos e autorizações de viagem para meu filho caçula. Na medida do possível, evitaria me envolver nessas questões. Bronca, então, só em última instância.

Com o passar dos anos, Senhor J poderia aprender a ler livros e a me indicar os melhores títulos. Correria eu o perigo, tão somente, de ser dispensado um dia, como desnecessário.

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