Coletor usa preparo físico adquirido para participar de corridas

Para combater a baixa autoestima dos funcionários, prática de esportes é estimulada

Basílio Cordeiro da Rocha nunca tinha visto um caminhão de lixo. Em Tejucopapo, distrito de 8.000 habitantes no município de Goiana, em Pernambuco, onde nasceu e cresceu, os sacos eram lançados na traseira de um veículo de carga comum. Apenas quando chegou a São Paulo, em 2004, para passar uma temporada com a irmã, descobriu a existência de um tipo de caminhão que comprimia os resíduos recolhidos das calçadas. Meses depois, Rocha era um dos trabalhadores a arremessar dejetos na caçamba compactadora. No início, sentia náusea e tontura por ficar tanto tempo exposto ao cheiro do lixo. Passou. “A gente se acostuma com qualquer coisa”, diz, sorridente. Acostumou-se também a correr cerca de 20 quilômetros por dia atrás do caminhão. Com o preparo físico que adquiriu, começou a disputar provas de corrida. Chegou em 187º lugar entre os 21.000 inscritos na última São Silvestre. Seu tempo foi apenas 11 minutos e 31 segundos superior ao do vencedor, Marílson Gomes dos Santos.

Antes de cada disputa, faz a mesma série de alongamentos que realiza para as jornadas de trabalho. São pelo menos oito horas diárias, sem contar as vezes em que o trânsito ou o grande volume de sujeira o impele às horas extras. A preparação inclui passar filtro solar e gel antibactericida, dados pela empresa. As concessionárias fornecem ainda três mudas de uniforme e dois pares de calçados, que ficam sob responsabilidade dos funcionários. São eles quem lavam as vestimentas usadas para abarrotar o caminhão com 12 toneladas de sacos de lixo. A roupa de Rocha só vai para o tanque quando a do resto da família já está secando no varal. “Minha mulher reclamava muito, mas se acostumou também”, afirma Rocha. No fim do expediente, os coletores tomam banho na própria empresa.

Há 2.500 lixeiros na cidade, que recebem um piso salarial de 804 reais, mais benefícios. Um porteiro de prédio ganha a partir de 704 reais e um faxineiro, 583 reais. Não raro, os coletores sofrem de baixa autoestima. Combinada à proximidade das ruas, ela faz com que problemas com álcool e drogas sejam relativamente comuns. A Loga, coletora das zonas central, Oeste e Norte, financia campanhas antidrogas e ações assistenciais. Também incentiva os funcionários que tomam gosto pelo esporte, como Rocha, a seguir praticando. Dá tênis e vitaminas, oferece sala de musculação e deixa expostos os troféus das conquistas. As vitórias do dia a dia deles, porém, passam despercebidas para boa parte dos paulistanos.

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