Julio Cesar Ferreira: em busca da doadora ideal

Após três anos, ele recebeu rim da esposa no Dia dos Namorados

“O primeiro médico que procurei foi um cardiologista, que mais parecia um pai de santo: só olhava para cima, nunca para o meu rosto, como se estivesse recebendo alguma informação do além. Eu estava angustiado, com enjoo, urinando sangue. Fui então a um clínico geral, que me examinou direito, por 50 minutos, e disse: ‘Você só não morreu porque o céu e o inferno estão cheios’. Estava perdendo os rins, por causa da pressão alta que nunca controlei direito, e fui direto para a máquina de hemodiálise. Fiquei engatado nessa fiação três vezes por semana, ao longo de dois anos, nove meses e seis dias. O transplante era a salvação, mas é difícil encontrar doador morto, a fila de espera tem muita gente. A mulher de um tio se ofereceu para me ajudar. Mas ela logo engravidou, tive de aguardar o período de amamentação, aguentando os transtornos da filtragem do sangue. Quando estava pronta, desistiu. Descobri que outra parente era compatível, mas teria de emagrecer 30 quilos para o procedimento. Todo mundo ficou no pé dela, mas só perdeu 11 quilos com a dieta. Fiquei desesperado. De um grupo de seis pessoas que começaram a se tratar comigo, eu era o único que restava vivo. Foi quando minha mulher teve nosso filho e, mexendo nos exames dela, vi que o tipo sanguíneo era O positivo, o mesmo que o meu. Ela sempre pensou que era AB, como os irmãos. Ficamos na expectativa: seria compatível? Como eu estava muito mal, no hospital Beneficência Portuguesa propuseram que, enquanto aguardávamos o resultado, ela fizesse os exames preparatórios. Isso aconteceu no Dia dos Namorados. O único jeito foi ser otimista. Um dia, eu estava na máquina, ligado aos cabos, quando a enfermeira me ligou no celular. ‘Tenho uma notícia ruim e uma boa’, disse. ‘A ruim é que estou com saudade de vocês. A boa é que vou vê-los em breve. Sua esposa é apta à doação.’ Desatei a chorar. Foi um rim cedido com muito amor. Uma das minhas maiores satisfações é tomar água de coco, antes proibida por ser rica em potássio. O que era saudável para todo mundo, para mim virava um veneno.”

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