Ipiranga

Uma família que fugiu das secas da Paraíba vive acostumada às enchentes no bairro

Uma ruela de cidadezinha interiorana. Na noite de sexta (22), era isso o que parecia a Rua Paulo Barbosa, no Ipiranga, a 500 metros do entroncamento do rio homônimo com o Tamanduateí. Lama e lixo encobriam o asfalto e as calçadas circundadas por casinhas simples. Eram restos da enchente que tomou o bairro no dia anterior e ninguém havia aparecido para limpar. Toquei a campainha do número 164. Nada. Interrompi o forró dos vizinhos para ter certeza de que tocara no endereço certo. Fui, então, informada de que Aldo Santos Silva, um homem baixinho, articulado e sorridente, estava na esquina, junto de outros familiares. Tinham acabado de limpar a casa de Rosa, irmã de Aldo, que chegaria da Paraíba no sábado, depois de três dias de viagem de carro.

A água invadira apenas a garagem, onde ficam as máquinas de costura que ela usa para trabalhar. Mesmo assim, os móveis e eletrodomésticos estavam suspensos sobre mesas e cavaletes havia um mês, desde que Rosa, suas filhas e o marido foram viajar. “Por aqui, não espere ver gente chorando ou reclamando. Enchentes são o nosso dia a dia e já sabemos conviver com isso”, avisou o anfitrião, ainda com a vassoura na mão. “E tem mais: amanhã, faça chuva ou sol, vai ter festa para minha filhinha, a Mayza. Ontem ela fez 5 anos!”

No Ipiranga desde o fim da década de 80, a família Santos Silva, nascida em Barra de Santana, no interior da Paraíba, vive em clima de irmandade. Dos treze irmãos de Aldo, dez moram em São Paulo e quatro são seus vizinhos. Os outros acabam vindo para passar o fim de semana, sobretudo em dias de festa, como aquele. Deixaram a terra natal para fugir da seca que destrói a plantação e aniquila os animais. Ironicamente, aqui têm de conviver com cheias que ocorrem, pelo menos, duas vezes a cada verão.

Já adaptados a tal adversidade, os Santos Silva construíram suas casas sobre altas rampas e degraus. Nas entradas, instalaram comportas de ferro vedadas por borrachas. “No meu primeiro dia aqui, teve enchente”, conta Daniele Santos Silva, cunhada de Aldo. “Na hora, achei graça. Não estava acostumada com tanta água. Mas a alegria durou pouco. Logo vi o estrago que tudo aquilo fazia.” Em tempos de muita chuva, Daniele programa o despertador para tocar de duas em duas horas, com medo de dormir e não ter tempo de fechar as comportas ou erguer do chão seus móveis, eletrodomésticos e a mercadoria da lojinha que mantém na garagem. No sábado em que a família comemorou o aniversário da pequena Mayza, choveu. Aos primeiros pingos, Aldo correu até a beira do rio para checar seu nível. “Está baixo. Não vai transbordar”, disse. “Vamos lá fazer a festa!”

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