Milagres: as histórias de pacientes que ficaram a um passo da morte

Desenganados, eles acabaram se recuperando a ponto de surpreender os especialistas e virar tema em congressos científicos

Atropelada em rua da Bela Vista em 2013, a paulistana Sarah Rampazzo ficou em estado tão grave que a notícia de sua “morte” correu e os amigos discutiram a compra de coroa de flores. Tratada no Hospital Beneficência Portuguesa, ela acabou contrariando todos os prognósticos. Hoje, aos 28 anos, encontra‑se totalmente recuperada do acidente, sem nenhuma sequela física.

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Episódios do tipo intrigam os especialistas e, não raro, viram objeto de estudo na comunidade científica. “É algo fundamental para aprimorar as terapias, mudando protocolos estabelecidos”, diz o professor Milton de Arruda Martins, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Mas que fatores podem influenciar esses finais felizes improváveis? “A experiência dos médicos conta muito, pois as urgências demandam decisões precisas, tomadas em momentos de muita tensão”, afirma Silvia Lage, diretora da Unidade de Terapia Intensiva Clínica do Instituto do Coração (Incor).

O cardiologista Sergio Timerman, diretor do Centro de Treinamento do Incor, cita outros elementos importantes. “O apoio familiar e a fé atuam na parte psicológica e são pontos em comum de boa parte dos casos que conheci em 33 anos de carreira.” Antônio Carlos Lopes, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), observa que o princípio de preservação da espécie é tão inato que aparece mesmo nos momentos de inconsciência dos pacientes. “Enquanto houver vida, sempre existe esperança”, acredita. Na reportagem a seguir, conheça alguns desses “milagres” — é assim que os protagonistas se referem ao desfecho surpreendente de seus dramas.

foto capa 2489

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APENAS UM MÊS DE VIDA

Em julho de 2015, a psicóloga Aline Fernandes, de 37 anos, ouviu de uma médica que seu filho Bruno só viveria “no máximo mais trinta dias”. O garoto batalhava havia três anos contra a leucemia. Moradores de Belo Horizonte, em Minas Gerais, os pais procuraram ajuda médica quando o menino começou a apresentar cansaço extremo e dores nas pernas. Ele foi submetido a 28 sessões de quimioterapia depois da descoberta do câncer. Mesmo assim, a doença não regredia. Chegou a debilitar 69% das células da medula óssea.

Ao saber da sentença de morte dada ao filho, a mãe questionou a especialista sobre alternativas fora do país. “Ouvi que eu poderia procurar um curandeiro”, lembra. Inconformados, ela e o marido resolveram continuar lutando. Recorreram na época ao hematologista Vanderson Rocha, responsável pelo setor de Transplante de Medula Óssea do Hospital Sírio-Libanês, na Bela Vista. Transferiram Bruno para São Paulo e iniciou-se outro protocolo de tratamento.

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A doença retrocedeu para 13%, depois 5%, até se estabilizar nesse patamar. O médico decidiu usar um anticorpo monoclonal, droga alemã ainda não disponível no mercado, em fase de aprovação. O laboratório Amgen a forneceu graças a uma autorização especial da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para pacientes sem outra saída. O porcentual da doença despencou o suficiente para tentarem o transplante de medula.

Porém, um novo susto: o único doador 100% compatível registrado desapareceu. A alternativa foi um procedimento com células de um cordão umbilical de Málaga, na Espanha, com 80% de paridade. O transplante ocorreu em dezembro do ano passado. O organismo de Bruno começou a reagir e, em janeiro, ficou constatado não haver vestígios do câncer. Desde então, as emoções diárias do menino, hoje com 5 anos, têm sido mais agradáveis — ele aproveita o tempo jogando futebol no videogame e andando de skate com os amigos. “A vida ficou bem melhor”, comemora. O relato sobre o caso acabou incluído no processo de autorização de medicamento pela Anvisa, reforçando a esperança de novas vitórias assim.


Sobreviventes - Milena Barbosa de Souza

Sobreviventes – Milena Barbosa de Souza

GRAVIDEZ ARRISCADA

Um tratamento dentário realizado aos 11 anos deixou Milena Barbosa de Souza duas vezes entre a vida e a morte. Na época em que o canal no dente foi feito, bactérias da boca migraram pela corrente sanguínea até atingir o coração, o que causou uma infecção do órgão e, depois, uma parada cardíaca. Em setenta dias de internação, ela passou por duas cirurgias. Recuperada aos poucos, viu-se de novo em situação gravíssima ao engravidar, aos 16, em 2015. Ao procurar um médico a fim de realizar o pré-natal, ouviu que era necessário abortar devido à sobrecarga ao coração, que teria de bombear mais sangue para suprir a placenta, mas, devido ao histórico de saúde, não aguentaria.

Milena assumiu o risco. Moradora do Guarujá, precisava subir a serra mensalmente para o acompanhamento no Departamento de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital das Clínicas. Com 28 semanas de gestação, acabou internada para monitoramento intensivo. O cuidado revelou-se fundamental. Depois de duas semanas, a pressão, a frequência cardíaca e a oxigenação caíram muito e a paciente entrou em choque. Era preciso operar, algo evitado ao extremo em mulheres prestes a dar à luz — de 4 800 grávidas cardiopatas que já passaram pelo Instituto do Coração, apenas 44 foram submetidas a uma cirurgia antes do parto e, destas, três morreram. “São números que mostram a excepcionalidade da intervenção”, explica a cardiologista Silvia Lage, diretora da Unidade de Terapia Intensiva Clínica do hospital.

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As duas válvulas do coração estavam comprometidas e a adolescente, muito debilitada. Por isso, os especialistas optaram por intervir apenas na válvula mitral, em pior estado. Durante quatro horas, o órgão foi operado de peito aberto, com uma máquina assumindo a função cardiopulmonar. A chance de o bebê sobreviver era quase nula. Luis Felipe, porém, deu um chute nas estatísticas. Em 14 de julho, nasceu saudável, com 2,8 quilos e 46 centímetros. “Quando o peguei no colo, eu tremia”, lembra a mãe, que está hoje com 17 anos. Ela toma medicamentos para contornar o problema da válvula aórtica e, assim que estiver apta, passará por outra cirurgia.


sobreviventes - Carlos Alberto Gomes da Silva

sobreviventes – Carlos Alberto Gomes da Silva

FÉ NO SANTO

Uma dor forte do lado direito do corpo chamou a atenção do auxiliar de serviços Carlos Alberto Gomes da Silva, de 49 anos, em agosto de 2014. Com histórico de pedra na vesícula, tomou analgésicos, mas o desconforto persistiu. No pronto socorro de Ourinhos, a 378 quilômetros da capital, exames não apontaram anomalias e ele recebeu alta. O incômodo, porém, não desapareceu.

De volta ao centro médico, acabou colocado em uma ambulância rumo ao Hospital das Clínicas de São Paulo em plena madrugada. Precisou viajar a maior parte do tempo com a cabeça para fora do veículo, devido à falta de ar. Na porta do HC, Carlos desmaiou. “Ali eu morri e nasci de novo.” Ele havia tido um rompimento tão grande entre as paredes da aorta, quase na totalidade da extensão da artéria, que não existia prótese para estabilizar o sangramento. A equipe de cirurgiões se recusou a operá-lo sob a justificativa de que o paciente, de tão frágil, morreria na mesa cirúrgica. Ele ficou medicado, sob observação. Seu caso parecia irreversível. As más notícias vinham em série. Depois de alguns dias, ele teve uma infecção pulmonar e choque séptico.

Entrou num quadro de insuficiência renal, cardíaca, pulmonar e neurológica. Precisou ser traqueostomizado, e alimentos eram injetados direto no estômago. Além disso, houve trombose na perna. Sua mãe, de 69 anos, recebeu o aviso de que o filho entraria em cuidados paliativos, quando a morte é apenas questão de tempo mas pretende-se evitar o sofrimento. “Mantivemos Carlos Alberto vivo com desesperança”, relata Cláudia Bernoche, médica intensivista da UTI Clínica do Incor.

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De forma inesperada para a equipe, a bexiga do paciente retomou seu funcionamento espontâneo semanas após a internação. “Foi esse o primeiro sinal que nos fez insistir em trazê-lo de volta”, diz a especialista. Aos poucos, o sangramento da artéria aorta estancou espontaneamente e provocou um hematoma no local, evitando novos vazamentos. A sedação diminuiu dia após dia.

Carlos Alberto acordou e, depois de dois meses de internação, recebeu alta. Atualmente, leva uma vida normal. Para ele, sua fé no Menino da Tábua, milagreiro famoso de sua região, não reconhecido como santo pela Igreja Católica, deu-lhe forças. Como agradecimento, Carlos reza diariamente diante do pequeno oratório com a imagem, que tem o tamanho da palma da sua mão. “Os médicos fizeram a parte deles, mas não tenho dúvida de que recebi uma graça.”


Sobreviventes - Érico Theodorovitz

Sobreviventes – Érico Theodorovitz

DRAMA EM QUEDA LIVRE

No próximo dia 18, o empresário Érico Theodorovitz, de 47 anos, saltará de paraquedas em Boituva, a uma e meia hora da capital. Na época, terão se passado quatro anos desde que sofreu um grave acidente no mesmo local. Na ocasião, ele saltou de 3 650 metros de altura. O equipamento principal abriu, mas logo seus fios se emaranharam. A solução era desconectar o item e acionar o reserva. Apesar do currículo de 700 saltos, Érico teve um “branco”. “Meu braço não respondia ao comando.” Os dois aparelhos ficaram abertos sem qualquer efeito.

Foram dois minutos girando em parafuso até despencar no chão, em pé, a 80 quilômetros por hora. Médicos avaliam que o fato de ele ter se esforçado para rolar no asfalto após a queda, lição do serviço militar na Aeronáutica, fez a diferença entre a vida e a morte. Ainda assim, o resultado foi devastador: 72 fraturas, algumas expostas nos braços, no fêmur e nos pés. A órbita ocular se deslocou e ele perdeu praticamente todos os dentes, tamanho o impacto. Socorrido por um bombeiro de folga, que o avistou ao passar de moto pela rodovia próxima, Theodorovitz foi levado consciente a um pronto-socorro, onde entrou em coma, e depois transferido para o Hospital Israelita Albert Einstein.

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Somou doze dias em sono profundo, cinquenta imobilizado “só olhando para o teto”, dezesseis cirurgias (duas de reconstrução de rosto), 2 000 horas de fisioterapia e 150 de fonoaudiologia. “Voltei a ser uma criança de 2 anos, dependente dos familiares”, relembra. “Mas me deixei amar e cuidar.” A cadeira de rodas acabou aposentada três meses após a alta. Das muletas, ele se livrou em dezembro. “Com dezoito anos de experiência em UTIs, nunca vi alguém com trauma dessa magnitude voltar a ter uma vida absolutamente normal”, conta o cardiologista Claudio Cirenza, que participou de sua recuperação.

Para opróximo salto, o empresário convocou quinze amigos. “Quando chegar ao solo, vou sentar num canto sozinho, abrir uma garrafa de vinho e chorar”, vislumbra. “Meu coração vai dizer se continuo no esporte ou não.”


Sobreviventes - Sarah Rampazzo

Sobreviventes – Sarah Rampazzo

COTAÇÃO DE COROA DE FLORES

Em 8 de abril de 2013, a biomédica Sarah Rampazzo, então com 25 anos, foi atropelada por um Chevrolet Agile ao atravessar a Rua 13 de Maio falando ao celular. Chegou ao hospital com um quadro gravíssimo de traumatismo craniano. “Havia grande risco de a paciente viver em coma vegetativo pelo resto da vida”, afirma o médico intensivista Salomón Soriano Rojas, coordenador da UTI Neurológica do Hospital Beneficência Portuguesa.

Em 16 de abril, foi feita uma cirurgia para tentar salvá-la. Apesar de o procedimento ter sido considerado bem-sucedido pela equipe, o clima de tensão e desesperança permaneceu. Passados dois dias sem reação alguma, a equipe médica repassou aos pais a informação de que o tronco cerebral havia parado. A notícia do falecimento iminente começou a correr. “Me contaram depois que alguns amigos chegaram a se organizar para comprar uma coroa de flores”, afirma Sarah.

No dia seguinte, porém, houve um primeiro reflexo de pupila. Novas intervenções foram feitas e, em menos de uma semana, ela acordou. Hoje, Sarah leva uma vida sem sequelas e acaba de se tornar mestra graças a uma dissertação sobre morte encefálica, motivada pela própria experiência. “É um dos casos mais graves que já tivemos no hospital, e isso nos ensina que a ciência sempre tem uma resposta”, afirma a médica Viviane de Veiga, que também participou do tratamento.


Sobreviventes - Carlos Alberto Nunes

Sobreviventes – Carlos Alberto Nunes

CONFUNDIDO COM UM BÊBADO AO VOLANTE

Por vinte minutos, o coração do engenheiro civil e corretor de imóveis Carlos Alberto Nunes, de 60 anos, parou e seu corpo ficou totalmente sem sinais vitais. Ele voltava da vistoria de uma obra, dirigindo pela Avenida Vital Brasil, na região do Butantã, quando sofreu um infarto, perdeu os sentidos, atravessou o sinal vermelho e bateu em uma mureta de contenção. Policiais desconfiaram que ele estivesse bêbado. O que se viu em seguida foi uma série de paradas e ressuscitações no caminho para o pronto-socorro no Instituto do Coração(Incor).

Em casos assim ocorridos fora do ambiente hospitalar, até 95% das pessoas morrem antes de chegar ao atendimento e, das que sobrevivem, 80% correm o risco de ficar com sequelas neurológicas permanentes em razão da falta de oxigenação do cérebro. Nunes se submeteu à hipotermia terapêutica, uma técnica ainda pouco difundida no país, que reduz a temperatura do organismo em até 2,5 graus, com a aplicação de soro gelado na veia. O paciente fica na UTI, envolvido em roupas térmicas.

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Nunes, porém, não reagiu, e sua família foi informada de que poderia voltar para casa, pois ele provavelmente não sobreviveria — se conseguisse, ficaria em estado vegetativo. “Praticamente disseram para minha esposa preparar o funeral”, diz. Ele acordou após onze dias em coma natural e, com 29 dias de internação, conseguiu citar os números do CPF e do RG. Sobre o acidente, Nunes não se recorda de nada. Lembra que nos dois meses anteriores estava com muita azia e havia procurado um gastroenterologista porque pensou se tratar de uma crise de refluxo e gastrite.

Evangélico, repete que tudo na vida acontece com um propósito e o dele era se tornar uma pessoa menos estressada e mais próxima da mulher, dos três filhos e da neta. “Passei a ter outros valores.”


Sobreviventes - Arlindo de Souza Trindade

Sobreviventes – Arlindo de Souza Trindade

TRANSPLANTADO DUAS VEZES

O padre Arlindo de Souza Trindade, de 63 anos, não ficou entre a vida e a morte devido a acidente nem a doença repentina, mas a um mal que o acompanhava por mais de duas décadas. Três meses atrás, havia pouca luz no fim do túnel para seu quadro de insuficiências renal e cardíaca. Pároco na igreja Santo Agnelo, na Zona Sul, passou a rezar missas quinzenais, em vez das quatro semanais que fazia regularmente. “A doença foi tirando a minha autonomia.”

Os rins chegaram a parar, o que obrigou o padre a fazer diálise diariamente, e o músculo cardíaco operava com 18% da capacidade. Ele teria então um semestre de vida, mas foi salvo por um último recurso: tornou-se o primeiro brasileiro já com histórico de transplante (de rim, no começo dos anos 90) a passar por outra cirurgia do tipo. No caso, uma operação dupla para receber outro rim e o coração.

Vinte médicos participaram do procedimento, concluído doze horas depois da coleta dos órgãos. A operação é delicadíssima devido aos riscos de infecção, de rejeição dos órgãos ou até mesmo de o coração ou o rim transplantados não funcionarem em um corpo já bastante debilitado. “Não havia na literatura médica registros assim, mas era a única chance de sobrevivência”, diz o nefrologista Américo Cuvelo Neto, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. O padre Arlindo retomou sua rotina normal. “Quero voltar a me aproximar dos fiéis.”

Dado seu ineditismo, o episódio, que encoraja especialistas a usar a técnica mais vezes, terá seu passo a passo dissecado diante de especialistas — no mês que vem, no 15º Congresso Brasileiro de Insuficiência Cardíaca, em Campos do Jordão, e, em setembro, no 28º Congresso Brasileiro de Nefrologia, em Maceió.

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