Os gêmeos do garrafão

Luis Fernando de Noronha fala do cotidiano dos filhos gêmeos

“Eu engravidei minha namorada (hoje mulher, Ana Paula) e já no primeiro mês veio a notícia de que eram gêmeos. Na 20ª semana, fui informado da hidrocefalia de Juliana. Logo após o nascimento, soube também que ela sofria de mielomeningocele, má-formação da coluna vertebral. Como se não bastasse, aos 9 meses descobri que Fernando tinha paralisia cerebral.

Eu não acreditei. Mas, por causa de todo o sofrimento anterior, estava treinado. Não bateu nenhuma tristeza diferente. Nada. Era só mais uma novidade. E mais um problema para ser tratado. Os dois passaram por cinco cirurgias cada um. São batalhadores. Ela, principalmente, porque lutou desde o útero. Uma médica chegou a sugerir que o feto fosse eliminado. Ela disse que a possibilidade de o bebê sobreviver ao parto era muito baixa, de 10%, e que preservaríamos a outra criança. Mas nunca consideramos essa opção, não chegamos nem a nos informar sobre o aspecto legal. Não permitimos o aborto, decidimos ter os dois e pronto. O que me deu trabalho foi encontrar um colégio: acho que uns dez recusaram a matrícula, alegando inúmeros motivos.

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O momento de que nunca me esqueço foi quando eles começaram a andar, com 4 anos e meio. Os médicos diziam que Juliana não conseguiria. E, de uma hora para a outra, ela ficou em pé, segurando na parede. Fernando viu a irmã, estimulou-se e começou também. Foi uma festa. Aliás, em casa tem festa todo dia, a cada conquista.

Os dois ainda encontram dificuldade para caminhar, mas só usam a cadeira de rodas para praticar basquete. Acho que o esporte ajudou muito. Será ótimo se forem atletas. Com eles, aprendi a ter paciência, ser mais tolerante. Eu era esquentado, não suportava desaforo no trânsito, em lugar nenhum. Mudei meu jeito de pensar e de andar. Mudei tudo.”

Luis Fernando de Noronha, 34 anos, vendedor, pai dos gêmeos Fernando, com paralisia cerebral, e Juliana, com mielomeningocele, de 7 anos

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