Personagem da Renascença Árabe é tema de documentário brasileiro

“Constantino” será exibido na 7ª Mostra Mundo Árabe de Cinema

No dia 11 de setembro de 2001, enquanto as Torres Gêmeas, em Nova York, sofriam um atentado terrorista, o cineasta paulistano Otávio Cury desembarcava na Síria para uma viagem turística. Na única noite em que passou em Homs, a 160km da capital Damasco, mencionou o nome de Daud Constantino Al-Khoury, seu bisavô. Minutos depois lhe trouxeram um livro com o título “Obras Completas”. O autor era o homem que, para o cineasta, havia sido apenas um professor refugiado em São Paulo na década de 1920.

O livro veio para São Paulo na bagagem de Cury, que por dois anos estudou árabe e contou com o auxílio de tradutores para trazer à luz um importante objeto histórico: poemas e cinco peças de teatro escritos por Al-Khoury no final do século XIX. A obra revelou ainda que o professor e escritor fora também jornalista e um dos principais nomes da chamada Renascença Árabe, movimento político e cultural contra a ocupação otomana.

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Oito anos depois, o documentarista retornou à Síria para reconstruir a história de seu bisavô, retratada em “Constantino”. O filme poderá ser conferido nesta quinta-feira (28), no CineSesc, como parte da programação da 7ª Mostra Mundo Árabe de Cinema. A fita ganha ainda outras duas sessões: no dia 30, na Cinemateca; e, em 17 de julho, no Centro Cultural Banco do Brasil.

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Redescoberta do Oriente

Além de Al-Khoury, “Constantino” narra a trajetória de outro importante personagem: Shakir Mustafa, então ministro da Informação em Damasco em 1964, responsável por achar os manuscritos perdidos do professor e publicá-los. Embora Al-Khoury já fosse reconhecido pela importância histórica, sua obra permanecia oculta.

Um dos primeiros a produzir textos em árabe, depois de 400 anos de controle otomano, Al-Khoury foi também um pioneiro da dramaturgia síria. Em 1891, ele encenou em Homs “A Princesa Geneviève”, espetáculo europeu escrito aos moldes de “Otelo”, de Shakespeare. Considerado transgressor, o professor foi perseguido  pelos mais conservadores, que chegaram a incendiar um teatro onde seu grupo se apresentava. A perseguição fez com que ele fugisse para São Paulo, onde morreu em 1939.

No seu retorno à Síria, Cury enfrentou dificuldades com as polícias de Homs e Damasco durante as filmagens, que duraram três meses. Devido aos últimos acontecimentos políticos que balançaram o país, muitas das pessoas que trabalharam com o cineasta ou foram entrevistadas por ele agora estão presas.

Quase onze anos depois do 11 de Setembro e no embalo da atual Primavera Árabe, “Constantino” estreia com um significado especial para o cineasta: “O mundo árabe passa por diversas renascenças e revoluções, como a que meu bisavô presenciou e a que estamos vendo acontecer agora. A Síria que buscava liberdade no final do século XIX não é muito diferente da Síria de hoje, que luta por democracia”.

Para o paulistano, essa é a mensagem do filme, que ultrapassa os limites da busca pessoal e se insere num importante momento histórico. “Meu bisavô escreveu ‘façamos do amor uma religião’. Hoje isso pode parecer clichê, mas, para a sua época, foi algo revolucionário e talvez ainda seja.”

Formado em agronomia pela USP, Cury estreou em documentários com “Cosmopolis” (2005), exibido em diversos festivais nacionais e internacionais. Nele, o cineasta apresentava um retrato da cidade de São Paulo através de imigrantes de diversos lugares.

 

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