Avenida Paulista aos domingos vira calçadão democrático

Como a via mais famosa da cidade ganhou novos ares e hoje recebe 30 000 pessoas durante o fechamento para carros aos finais de semana

De segunda a sexta, a Avenida Paulista é marcada por um vaivém acelerado. Misturam-se no pedaço estudantes, engravatados, manifestantes, artesãos… E motoristas, muitos motoristas. No pico da manhã, entre 8h45 e 9h45, cruzam a via em média 3 000 carros, de acordo com dados da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET).

Quem visita o cartão-postal nos domingos e feriados, entretanto, encontra um cenário livre das buzinas e da fumaça dos escapamentos. Os 2,7 quilômetros entre a Praça Oswaldo Cruz, no Paraíso, e a Praça Marechal Cordeiro de Farias, na Consolação, ficam bloqueados para veículos. Apenas pedestres (e ciclistas) tem vez das 9 às 18 horas.

José, que dubla músicas de Roberto Carlos: rosas e paletó branco (Bruno Santos/Veja SP)

Assim, um dos principais centros financeiros da capital ganha ares de parque no asfalto, em clima relax, faltando apenas o verde. A fauna de tipos que frequenta a área faz lembrar os calçadões de Barcelona ou a Times Square, famoso largo de Nova York onde há desde turistas curiosos até um caubói seminu em busca de alguns trocados.

Aproximadamente 30 000 pessoas circulam por ali todos os domingos durante o período de fechamento para carros em para comparação, um lugar menor, como o Parque do Povo, no Itaim, recebe em média 20 000 frequentadores nesse dia. O recorde, segundo estimativas da administração de Fernando Haddad, consistiu na marca de 100 000 visitantes na atração, que começou em outubro de 2015.

O casal Mayara e Rogê: vaquinha para festa de casamento (Bruno Santos/Veja SP)

A novidade acrescentou à paisagem um colorido bem diferente do habitual cinza, atraindo moradores da região e também de bairros distantes. É fácil associar a atmosfera do espaço com a das praias cariocas, no melhor estilo “junto e misturado”.

Aliás, alguns aproveitam para estender toalhas e se bronzear ou fazer piquenique nas calçadas. O espaço virou palco de artistas interessados em mostrar seu trabalho e engordar o orçamento.

O cosplayer Leandro Toguro: ele encarna Freddy Krueger, de ‘A Hora do Pesadelo’ (Bruno Santos/Veja SP)

Dá para ouvir de samba a heavy metal. Do time dos covers, aparece Sebastião José, de 46 anos. Com direito a rosas e usando paletó branco, ele dubla o rei Roberto Carlos embalado por uma modesta caixa de som — fatura, por dia, cerca de 200 reais. “Em outras ocasiões, encarno Dercy Gonçalves, Clodovil e Hebe Camargo”, diz ele, que trabalha ainda como massoterapeuta e locutor.

A pernambucana Maraia Takai, de 17 anos, solta sua doce voz em hits de divas pop em frente a um estacionamento perto do Masp. Seu nome é uma homenagem a duas cantoras admiradas por seu pai: a nova-iorquina Mariah Carey e Fernanda Takai, da banda mineira Pato Fu. “Ainda não pintou um convite de estúdio, mas ganho apoios como a ajuda no visual de uma estilista e de um cabeleireiro”, diz.

O artista plástico Felipe dos Santos: saída do Center 3 para não pagar aluguel (Reinaldo Canato/Veja SP)

Há espaço para todos, porém começam a surgir figuras parecidas que disputam a atenção dos pedestres. Por incrível que pareça, existem duas pessoas que se fantasiam de personagens de terror do naipe de Jason, do filme Sexta-Feira 13, e Freddy Krueger, de A Hora do Pesadelo, e ocupam o mesmíssimo ponto, em horários diferentes.

Um deles é o cosplayer Leandro Toguro, de 34 anos. “Ele deve ter me visto em algum lugar e está me imitando“, reclama, a respeito do concorrente. O rapaz, com quatro fantasias assustadoras no armário que lhe custaram na faixa dos 2 000 reais, fica em cima de um pedestal e posa para retratos. “Se não me pagam nada, não tiro foto, afinal estou vendendo minha imagem.”

Bolhas de sabão gigantes: feitas pelo coletivo Monster Bubbles (Bruno Santos)

Praticamente todo mundo ali espera alguma contribuição. A Cia. Bambolística faz performances com bambolês. Metade dos brinquedos, de fabricação própria, fica à disposição de quem quiser arriscar movimentos, de graça. O resto é posto à venda, por preços entre 25 e 80 reais. “Isso ajuda a pagar nosso aluguel”, comenta Desire Gonzalez, 23 anos, uma das seis integrantes da trupe.

É suado: ela e duas amigas, de Osasco, encaram trem e ônibus com setenta aros nos ombros (às vezes o motorista do veículo nem quer abrir a porta, coitadas). Os analistas financeiros Mayara Viana, 21, e Rogê Oliveira, 25, também buscam ajuda. Eles vendem trufas para pagar a festa do seu casamento, marcado para 22 de abril.

O lutador Alex Oller: tentativa de angariar votos para participar de reality show (Marcus Steinmeyer/Veja SP)

Funcionários de uma seguradora, cada um recebe por mês 2 000 reais. Precisam de vinte vezes essa quantia para bancar o evento. “Desde setembro, estamos na batalha”, conta a moça, que vem de Diadema quase todo fim de semana (o noivo é do Campo Limpo). Eles conseguiram até agora 10 000 reais. Nem tudo tem a ver com dinheiro. A exposição na avenida serve para divulgar diversas causas — por meio de diferentes táticas.

Em um tatame improvisado, próximo à Alameda Ministro Rocha Azevedo, o lutador Alex Oller fazia exibições de muay thai. Sua finalidade: obter votos para garantir uma vaga em um reality show tailandês. Não conseguiu: infelizmente, ficou em sexto lugar. Quase em frente ao Masp, uma ONG promoveu recentemente uma guerra de travesseiros (!) para lançar seus programas de intercâmbio estudantil.

Aula de zumba gratuita: clima animado (Reinaldo Canato)

Muita gente usa o espaço para se exercitar — tem até aula de zumba gratuita no vão em frente ao Shopping Center 3 —, principalmente os ciclistas. O sinal verde para eles pintou por lá em 2012, ainda na gestão de Gilberto Kassab, com as ciclofaixas.

Até hoje, elas são ativadas aos domingos, a partir das 7 horas. A Bradesco Seguros, que patrocina a iniciativa, realiza empréstimo dos veículos e arma no local uma tenda para pequenos reparos, tudo grátis. Três anos depois, veio a ciclovia inaugurada pelo então prefeito Fernando Haddad, que em setembro do mesmo ano testou fechar o caminho para carros.

A Federação Paulista de Ciclismo estima que, durante todos os dias de bloqueio, circulem na avenida até 40 000 adeptos da bike. Antes de sair do cargo, o político tornou fixo o programa Ruas Abertas, que engloba outras 23 áreas de lazer do tipo em várias regiões.

Raphaela, moradora da região: descontente com a medida (Bruno Santos/Veja SP)

A atual administração não deu sinal de que pretende mudar algo nesse cenário. “Mesmo com chuva, fica lotado”, reconhece Eduardo Odloak, prefeito regional da Sé, responsável pelo pedaço. “A população apropriou-se do espaço de maneira entusiasmada.” Em um levantamento do Ibope encomendado pelo projeto Nossa São Paulo, divulgado no fim do ano passado, foram ouvidas 602 pessoas, que responderam a questões sobre qualidade de vida.

Uma delas, sobre o fechamento da via, apontou: 76% dos participantes mostram-se favoráveis à ideia. O número cresceu 12 pontos porcentuais comparado ao de 2015. “A população quer sentir que a cidade pertence a ela também”, explica Gustavo Cedroni, da Metro Arquitetos, escritório que reformulou a expografia de um ícone da via, o Masp, cujo movimento aumentou 12% aos domingos no primeiro mês da medida.

Protesto do último dia 15: manifestações constantes (Ricardo Stucker/Veja SP)

“O projeto de fechar a avenida é, indiscutivelmente, um sucesso”, avalia o professor Lúcio Gomes Machado, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. “Mas há outras regiões na capital, sobretudo o centro, que deveriam ser alvo de atenção semelhante.”

Ao coro dos insatisfeitos juntam-se alguns comerciantes. “A Paulista virou terra de ninguém”, reclama Vera Helena Frascino, antiquária que há três décadas expõe suas peças no vão livre do Masp. Para ela, os consumidores de seus produtos não conseguem parar o carro nas vias próximas e acabam desistindo.

O empresário Tedd Albuquerque, que promove a feirinha do Shopping Center 3, estima que o lucro de seus associados tenha caído até 40%. Um de seus ex-locatários, por exemplo, o artista plástico Felipe Manoel dos Santos, deixou o espaço para vender seus bonequinhos de artistas famosos na rua. “Economizo o aluguel, que era de 1 400 reais, e faturo até 900 reais nos melhores dias”, calcula.

A antiquária Vera Helena: queda do movimento da feirinha de antiguidades (Reinaldo Canato/Veja SP)

A Associação Comercial de São Paulo, porém, destoa dessa turma. “Alguns estabelecimentos podem ter sofrido impacto negativo, mas, em geral, a medida beneficiou o comércio da região. Afinal, carro não compra”, diz o presidente da entidade, Alencar Burti. “Quanto mais gente passar em frente às lojas, melhor.”

Há quem tenha se assustado com a queda no fluxo na época da implantação da medida, como os donos do restaurante Spot, um dos pontos de encontro de paulistanos endinheirados e descolados — ou seja, um público que anda de carro. “Nos três primeiros meses, diminuiu muito o movimento”, lembra Sergio Kalil, um dos sócios, que apoia o fechamento para automóveis. “Depois os clientes encontraram maneiras alternativas de chegar, e começamos a receber pessoas que não eram frequentadoras da casa.”

O mesmo vale para os hotéis da região. “O problema do trânsito ao redor foi melhorando e voltamos às taxas de ocupação de antes da mudança”, afirma Bruno Omori, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis. “Agora alguns hotéis até oferecem o lazer do lugar como diferencial. Apesar da polêmica inicial, tudo entrou nos eixos.”

Japan House: abertura prevista para maioNOVIDADES CULTURAIS
Três endereços que devem abrir na avenida neste ano

Instituto Moreira Salles
O prédio de sete andares, quase na esquina com a Rua da Consolação, abrigará salas expositivas, restaurante e biblioteca. A fotografia será o grande foco do centro cultural, com inauguração programada para julho. Número 2424.

Japan House
Com abertura prevista para a primeira quinzena de maio, o museu dedicado à cultura nipônica teve investimento de 30 milhões de dólares. Número 52.

Sesc Paulista
Fechada desde 2010 para reforma, a unidade será reaberta no fim do ano e terá ambientes expositivos, salas de espetáculo e restaurante. Número 119.

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  1. Alex F. Coura

    Calçadão não tão democrático. Ao implementar este projeto esqueceram de perguntar aos moradores da região as suas opiniões pois afinal de contas, a Paulista é a rua da casa deles, a tal “rua da minha casa”. A maioria dos moradores condena o fechamento, pois trás hostilização, degradação, barulho e muita sujeira (lixo, adesivagem de placas/totens e pinturas). Reportagem tendenciosa.

  2. Alex F. Coura

    Pois é, publiquei um link com depoimento dos moradores da Av. Paulista, mas a Veja SP vetou.