Cadeirante perde 75 quilos e torna-se campeão de crossfit

Hoje, o paulista inspira outros paraplégicos a praticar o esporte

O crossfit é um dos maiores desafios esportivos da atualidade. Espécie de circuito misturado com treinamento militar, inclui exercícios de alta intensidade, como arremesso de pneus gigantes, subida em corda e levantamento de peso acima de 100 quilos. Se é barra-pesada até para frequentadores assíduos das academias de ginástica, imagine, então, para os cadeirantes que estão praticando o esporte e participando de campeonatos.

Nesse caso, o grau de dificuldade é ainda maior, pois eles contam apenas com o auxílio dos braços e das mãos para realizar cada movimento. Há cerca de vinte atletas da modalidade nessas condições no país, mas ninguém foi tão longe quanto o acupunturista Diego Coelho, de 31 anos. Paulista de São Bernardo do Campo, no ABC, adotou a atividade em 2014 e hoje é o quinto melhor do mundo entre os paraplégicos.

75 quilos a menos: atleta paulista adotou a atividade em 2014 (Leo Martins)

Conseguiu a posição no ranking internacional em julho de 2016 ao vencer uma seletiva com 48 oponentes e viajar até o Canadá para disputar o UG Series. “Fiquei em pânico, porque eu parecia uma criança do lado daqueles caras enormes”, brinca. Seu desafio no momento é a participação no Open, maratona global que teve início em 23 de fevereiro e termina no fim deste mês. Cada concorrente disputa em seu país, num dos boxes (academias da especialidade) credenciados.

Neles, as provas são filmadas e os vídeos, enviados à sede do campeonato, nos Estados Unidos. Ganha quem apresentar a melhor pontuação. Diego concorre em um dos lugares que frequenta, o Crossfit Simio, no Ipiranga, o único 100% adaptado aos paraplégicos na capital. Ali, treina quatro horas por dia. “Muitos atletas sem deficiência não fazem metade do que ele é capaz de executar”, elogia seu treinador, Alberto Neto.

O acupunturista antes do emagrecimento: foram eliminados 75 quilos (Leo Martins)

Formado em acupuntura e com doutorado em medicina chinesa na China, o campeão depende da cadeira de rodas desde outubro de 2011, quando sofreu um acidente de carro em São Bernardo do Campo. Seu veículo foi fechado por uma motocicleta e colidiu de frente com outro automóvel. Sua noiva, a dentista Suzi Lim, 33, estava no banco do passageiro e teve duas fraturas leves, uma na mão e a outra no peito. Diego saiu andando do local, mas teve complicações no hospital.

Depois de passar por uma operação, acordou sem o movimento das pernas. Desde então, os fins de semana de surfe em Ubatuba deram lugar a dias inteiros em frente à televisão. Pela falta de atividade física, seu peso subiu de 75 para 135 quilos. “Fazia de tudo para que ele não caísse em depressão, mas sempre se movia do sofá para a cama e vice-versa”, conta Suzi.

O estado de humor começou a melhorar em 2014. “Não dava para continuar vivendo daquela forma”, comenta. Ele se submeteu no mesmo ano a uma cirurgia bariátrica e inscreveu-se em uma academia com a meta de fazer musculação. Nesse período, um amigo o apresentou ao crossfit. Apaixonou- se pelo esporte e não o largou mais. “Cada treino é uma superação”, afirma. Em dois anos, emagreceu 75 quilos.

Provas do campeonato Monstar: treinamento pesado (Rafa Pereira/Crosfitografia/Veja SP)

No exercício chamado rope climb, por exemplo, no qual as pessoas precisam usar as pernas para subir por uma corda, abandona a cadeira e sobe só com a força dos braços. Ao se dedicar cada vez mais à modalidade, ele acabou inspirando outras pessoas com deficiência física a adotar sua prática.

“Eu o vi subindo na barra de ferro com a cadeira amarrada na cintura e pensei: ‘É possível’ ”, diz o analista comercial Fernando Mendes, 33, que iniciou os treinos em 2016 e venceu em fevereiro a prova do Monstar Series, o maior campeonato de crossfit da América Latina, no Ginásio do Ibirapuera.

75 quilos a menos: atleta paulista adotou a atividade em 2014 (Leo Martins/Veja SP)

O evento ocorre há três anos. Em 2017, pela primeira vez, contou com a categoria cadeirante graças ao acupunturista. “Diego nos motivou e ajudou a criá-la”, explica o sócio fundador da competição, Paulo Menezes. Nos últimos dois anos, o paulista do ABC tornou-se responsável por disseminar a modalidade adaptada no país ao organizar cinco campeonatos e já obteve seis patrocinadores, todos ligados ao esporte.

Apesar da notoriedade, ainda não ganha dinheiro com isso. Vive de sua renda mensal de 3 500 reais obtida com sessões de acupuntura. No ano passado, recebeu da americana CrossFit Inc., detentora da marca crossfit, o certificado Level One, que o capacita a treinar atletas (ele é o único paraplégico brasileiro a ter esse título). Em fevereiro, ingressou no curso de educação física. “Quero viver dessa atividade para continuar motivando as pessoas”, planeja.

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