Destaque na Vai-Vai, consulesa da França fala sobre elite e racismo

Mulher do representante diplomático, Alexandra Loras dá aulas voluntárias a refugiados e passou a militar também contra o preconceito 

O termômetro marcava 27 graus às 22 horas do dia 31, um domingo. Diante de uma plateia de 4 000 pessoas apinhadas na sede da escola, no Bixiga, o presidente da Vai-Vai, Darly Silva, o Neguitão, chama ao palco Alexandra Loras. “Que rufemos tambores para a consulesa da França”, pede ele, sendo atendido pela bateria da agremiação. Segurando sua mão esquerda, o carnavalesco prossegue: “Meus amigos da comunidade, para o nosso orgulho, é uma negra como nós”.

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Mais baticundum, mais gritaria. Começou assim a segunda parte do ensaio da escola que vai desfilar no Anhembi na madrugada deste sábado (6) com o enredo Je Suis Vai-Vai: Bem-vindos à França!. Alexandra será o destaque do abre-alas. “O mais difícil vai ser dançar como as brasileiras, mas estou mandando bem. Mexer os pés no ritmo correto é complicado!”, conta ela, em um português afinado e com leve sotaque.

Em seu carro alegórico, os principais atrativos serão uma réplica da Torre Eiffel de 16 metros de altura e uma pirâmide de LED de 10 metros de altura, com reproduções luminosas de obras expostas no Museu do Louvre, entre elas a tela Mona Lisa, de Leonardo da Vinci. O evento deve marcar o início das atividades do último ano no posto de consulesa da França.

Alexandra Loras-2

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Ela desembarcou por aqui com o marido, Damien Loras, em 2013, quando ele recebeu a incumbência de representar o país do presidente François Hollande. Como o trabalho tem duração de três anos, em agosto o casal retorna a Paris. Na temporada brasileira, Alexandra não se contentou em fazer um papel figurativo. Mais que isso, cunhou um estilo próprio ao ocupar o cargo.

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Nas recepções oferecidas na mansão do Jardim Europa mantida pelo governo da nação europeia, sua beleza é sempre o centro das atenções. A consulesa misturou-se bem na alta sociedade paulistana (suas amizades vão do chef Erick Jacquin ao ex-jogador Raí, que brilhou no Paris Saint-Germain nos anos 90), mas ela também circula com desenvoltura pelas ruas do Brás, onde costuma fazer compras nas confecções baratas do bairro.

Ocupa parte do seu tempo com trabalhos voluntários com refugiados haitianos na capital. Sua causa predileta, no entanto, é o preconceito racial. Ex-apresentadora de TV em Paris e com um mestrado sobre a ausência de negros na mídia francesa, ela sofreu por aqui com o racismo.

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Mãe de Raphaël, de 3 anos, um loirinho de cabelos ondulados que parece um garoto-propaganda de empresa de fraldas descartáveis, Alexandra indignou-se em inúmeras ocasiões com o tratamento que recebeu. No tradicional Clube Pinheiros, do qual tem o título de sócia-convidada, certa vez foi impedida de entrar por ter sido confundida com uma babá.

A confusão começou na portaria do local, ao perceber que havia esquecido os documentos em casa. Quando a segurança procurou seu nome na lista de cadastrados, nada encontrou. Ela pediu que verificassem novamente — poderiam ter digitado alguma letra errada. Mais uma vez, resposta negativa. “A senhora não está na lista de funcionários”, disseram-lhe.

No Shopping Iguatemi, que costuma frequentar, o fato de carregar uma criança sem usar uniforme branco sempre lhe rendeu olhares tortos. Quando Alexandra desembarca em Guarulhos (“em 100% dos casos”), sua mala é revistada na alfândega, mesmo com a apresentação do passaporte diplomático. “Acham que eu sou uma ‘mula’ trazendo drogas”, acredita. Nas recepções semanais promovidas no Jardim Europa, perdeu a conta das vezes em que os convidados lhe entregaram o casaco para guardar na chapelaria. “Em geral, os brasileiros ricos estão acostumados a ver os negros como funcionários. Neste caso, olham para mim e já pensam que estou prestando algum serviço.”

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Depois de tantos episódios do tipo, Alexandra decidiu arregaçar as mangas de seu tailleur Chanel e estudar a fundo o problema por aqui. “A França é o berço da liberdade de expressão, não tinha por que eu me calar diante de tudo o que acontece.” Foi assim que ela deu início a uma pesquisa para descobrir negros brasileiros de destaque em suas áreas, a exemplo do escritor Machado de Assis. Passou também a dar palestras sobre o assunto em ONGs, escolas públicas e empresas como Google. Em abril, lança em parceria com o historiador Carlos Eduardo Dias Machado o livro Gênios da Humanidade: Ciência, Tecnologia e Inovação Africana e Afrodescendente.

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Antes de iniciar o trabalho com refugiados na entidade Missão Paz, na Liberdade, em 2014, Alexandra fez um curso de capacitação durante seis meses. Assim, tornou-se professora de “interculturalismo”. “Nossa missão é prepará-los para a convivência geral, ensinando regras de higiene, e torná-los aptos a ingressar no mercado de trabalho”, explica a finlandesa Hanna Helstela, umas das responsáveis pela ONG. As aulas semanais são para plateias de até 100 pessoas, quase todas haitianas. A consulesa também dá aulas de português aos recém-chegados — que muitas vezes só falam crioulo e francês. A professora voluntária vai até lá de ônibus. Não é a única ocasião, aliás, em que usa o bilhete único para circular por São Paulo.

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O contato com os refugiados se tornou um resgate do seu passado. De origem muçulmana, seu pai nasceu em uma tribo na Gâmbia, no oeste africano, e saiu de lá, ainda jovem, a fim de tentar a sorte em Paris, para onde uma tia já havia migrado. Enfrentou as barreiras da língua e da religião. “Ao ver os haitianos em São Paulo, penso em como ele se sentiu ao ir para a França, um país pouco receptivo a estrangeiros”, diz ela, que perdeu o pai, alcoólatra, aos 15 anos.

Sua mãe, uma francesa de origem judia, está hoje com 70 anos e vive em Toulouse. “Ela teve cinco casamentos e cinco filhos de quatro maridos”, conta a consulesa. Alexandra nasceu no bairro de Tarterêts (“um dos piores guetos da Grande Paris”). Localizado no sul da capital francesa, ele fica numa região adensada por inúmeras moradias sociais. Logo após o ensino médio, para aprender línguas e poder viajar, Alexandra trabalhou como babá em países como Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos.

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Na volta para Paris, decidiu cursar faculdade de multimídia e desenvolvimento de websites. Devido a sua beleza e desenvoltura, iniciou carreira como apresentadora de TV. O primeiro programa que apresentou era sobre cavalos. Mais tarde, migrou para uma atração de debate político em um canal público. Depois de um tempo, teve de deixar esse trabalho ao engatar um romance com Damien Loras, integrante do corpo diplomático de Nicolas Sarkozy.

A escolha da França como tema pela Vai-Vai não nasceu espontânea como um gingado de samba. Interessada em eleger algum país como inspiração, a escola fez uma espécie de road show entre consulados para escutar propostas — em outras palavras, saber quem ajudaria a bancar o desfile.

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“Falamos com Espanha e Peru, entre outros”, afirma Neguitão, presidente da agremiação. Por coincidência, a mãe do carnavalesco se mudou para Paris quando ele tinha 2 anos. Desde então, Neguitão só a viu uma vez, há mais de duas décadas. A favor da França, pesou o fato de o cônsul ser um apaixonado pelo ziriguidum e ter frequentado inúmeras vezes a escola do Bixiga. Seis integrantes da Vai-Vai fizeram uma viagem de dez dias ao país europeu em busca de inspiração, tudo pago pelo consulado. “Pedimos para representarem no Anhembi o nosso país além dos clichês positivos, como luxo, moda e gastronomia”, afirma Loras. Um carro alegórico, por exemplo, vai abordar as conquistas tecnológicas da nação.

Loras empenhou-se na busca por dinheiro, visitando multinacionais dispostas a colaborar. Ao todo, conseguiu 1,5 milhão de reais de empresas como Renault, Ticket e Air France. A escola de idiomas Aliança Francesa ofereceu 200 bolsas de estudos à ala juvenil da escola de samba. O perfume Salvador Dalí, outro membro da ala dos patrocinadores, contribuiu com verbas e insumos para o desfile — um carro promete borrifar 20 litros da fragrância durante o desfile. De todas as fantasias postas à venda pela Vai-Vai, 40% delas foram adquiridas pela comunidade francesa de São Paulo.

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Alexandra e Loras são considerados um dos casais mais elegantes da cidade — e adoram uma festa. No dia seguinte ao do casamento do chef Erick Jacquin com Rosângela Menezes, em outubro, deram uma recepção para alguns convidados. “Meu amigo, aqui ficou cheio de francês alegre de champanhe”, lembra a babá folguista Eliana Barbosa. “A dona Alexandra é simples, não nos autoriza a usar uniforme e pede para aproveitarmos a piscina.” Na residência consular, existe uma réplica da tela A Liberdade Guiando o Povo, de Eugène Delacroix.

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A poucos passos do quadro, chama atenção um tigre empalhado. Também há garrafas de champanhe decorativas, dessas de 5 litros. “Já me encontrei com a consulesa em eventos”, diz a apresentadora Glória Maria. “Não a conheço profundamente, mas considero louvável qualquer forma de tornar o preconceito visível.”

alexandra loras

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A atriz Taís Araújo também admira a militância da francesa. “Debater o assunto é fundamental para chegar a algum lugar, mas só vamos ver resultados efetivos quando as leis forem menos brandas”, afirma. Ao levantar a lebre sobre o assunto, Alexandra ganhou convites para participar de atrações como Esquenta! e Programa do Jô, ambos na Rede Globo. “Também fui chamada em janeiro para dar uma palestra sobre o tema no fórum econômico de Davos, na Suíça.” Ainda neste primeiro semestre, ela começa os preparativos para deixar São Paulo. Não sentirá saudade, evidentemente, do preconceito que sofreu na cidade. “Mas vou voltar sempre que tiver oportunidade para rever os amigos”, promete.

Alexandra Loras-4

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Hermès, bilhete único e aulas para refugiados

Algumas curiosidades a respeito de sua trajetória

Nome: Alexandra Baldeh Loras

Idade: 39 anos (16/1/1977)

Estado civil: casada com Damien Loras, cônsul-geral da França no Brasil

Filho: Raphaël, 3 anos. “Ele fala francês com sotaque português”

Idiomas que domina: além de falar francês, tem fluência em português, alemão, inglês e espanhol

Carreira: jornalista e apresentadora de TV na França, abandonou a profissão para acompanhar o marido

Experiências profissionais na TV: foi apresentadora de programas variados, sobre cavalos e debates políticos, por exemplo, em canais como TF1 e France 3

Origem: mãe francesa, da comunidade judaica, e pai da Gâmbia, de origem muçulmana. “Ele morreu quando eu tinha 15 anos. Sofria de alcoolismo”

A maior qualidade do Brasil: “Tem ótima produção intelectual e artística”

O maior defeito do Brasil: “Ausência de representatividade da população negra em cargos de liderança, na mídia, na narrativa histórica e nos desenhos animados”

Preconceitos já sofridos por aqui: ser confundida com babá quando brinca com o filho e ter suas malas revistadas na alfândega todas as vezes que entra no Brasil. “Acham que sou ‘mula’ e transporto drogas”

Trabalhos voluntários: leciona curso de línguas para refugiados haitianos na organização católica Missão Paz, na Liberdade

Livro favorito: As Minhas Estrelas Negras, de Lilian Thuram

Marcas prediletas: veste de Dior e Hermès às confecções baratas do Brás

Meios de transporte: bicicleta, bilhete único e táxi

Desafio: aprendeu a sambar depois que a França foi escolhida como tema do enredo da Vai-Vai. “Parece simples, mas mexer os pés no ritmo correto é complicado”

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