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Postado em 18/05/2013 por Dirceu Alves Jr | 1 comentário

Hugo Possolo fala sobre a vida de cachorro em “Eu Cão Eu”

Hugo Possolo estreia o monólogo no Auditório do Sesc Pinheiros (Fotos: Zeca Rodrigues)

Ator, palhaço, dramaturgo, provacador… Depois de Prego na Testa, Hugo Possolo volta a investir em um monólogo com Eu Cão Eu, que entra em cartaz no Auditório do Sesc Pinheiros no dia 24. Também autor do texto, ele interpreta um homem insatisfeito que passa a admirar um vira-lata e sua liberdade de andar pelas ruas. A direção é de Rodolfo García Vázquez, dos Satyros, em uma parceria inédita com o pessoal dos Parlapatões. Nesse bate-papo, Possolo divagou bem, como ele mesmo reconheceu, então deixei o cara falar…

Cada espetáculo deve ganhar a cena por ter algo a dizer. Qual é a provocação da vez?

Para mim, teatro é pensamento. Expressão de ideias e sensações vivas que possibilitam gerar alguma reflexão. Se, com a arte, interferirmos na vida da sociedade, ganhamos a potência da provocação. E é mais ampla e prazerosa a provocação quando sedutora e não imposta goela abaixo do público. Eu Cão Eu é uma vertente diferente e bem forte de minha dramaturgia, já que é um drama, embora não se prive do humor, que tenta pensar o homem a partir de seus vícios. O prazer de seguir um cão transforma a vida desse homem, e ele depara com os desafios da perda de tudo que tinha ao seu redor. Acredito que muitas pessoas, por diferentes razões, venham a se identificar com esse anti-herói urbano.

Eu Cão Eu é o espetáculo que mostra esse sufoco geral, essa falta de liberdade, essa patrulha contínua? 

“Politicamente correto” é apenas um eufemismo para moralismo. A peça fala da busca da liberdade dentro de prazeres individuais que, contraditoriamente, retiram a humanidade do sentido de convívio e a submetem cada vez mais ao consumismo imediato. Não é uma peça sobre esse tema específico, mas uma metáfora que transita também por esse aspecto, no qual o moralismo vigente tenta, dissimuladamente, impor comportamentos conservadores para refrear qualquer possibilidade de pensamentos transformadores, questionadores ou críticos. A acomodação alienada é o retrato mais triste da globalização.

Oito anos separam Prego na Testa de Eu Cão Eu. O que mudou na visão de dramaturgo e de ator em relação ao homem na sociedade? Se é que algo mudou…

Aprendi muito com Prego na Testa pelas respostas do público, que entrava no jogo comigo me levando às últimas consequências de cada um daqueles personagens alucinados. Prego na Testa é um texto contundente sobre o homem em qualquer tempo, pois fala das dificuldades que cada um tem em se ajustar a uma sociedade injusta. Eu Cão Eu aborda como podemos nos desprender das amarras sociais, com consequências que tanto libertam quanto aprisionam. Ambas as peças são cargas fortes de contradições, embora com ângulos distintos de abordagem. São conflitos assim, muito teatrais, que movem meu trabalho, pela inquietação, pelo que vou percebendo do mundo, cujas constantes mudanças colocam a humanidade sempre em xeque.

Em Prego na Testa, você apresentava personagens considerados politicamente incorretos. Para criar Eu Cão Eu você adotou uma visão mais lírica, mais metafórica ou não mudou em nada o seu estilo?  

O Prego na Testa teve alterações grandes de texto feitas pelo Aimar Labaki e por mim. Tanto que, muitas vezes, brincamos de colocar em dúvida o que era do Eric Bogosian e o que era nosso. O texto dele tinha mais de dez anos quando estreamos e já tinha causado muitos efeitos em Nova York. Aqui não foi diferente, pelo tom aguerrido com que encarei a tarefa, muitas vezes deixando que as visões das personagens se confundissem com as minhas, me deparei com o reacionarismo e preconceitos de toda a espécie. É da minha alma me confrontar ao pensamento conservador. Creio que em Eu Cão Eu esse espírito permanece, mas a personagem única e melancólica, por vezes submissa, muito diferente do que sou, enfrenta outros desafios e aponta para outros rumos. Eu não queria fazer um novo solo apoiado em fórmula, ao contrário, procuro sempre algo que me desafie.

Possolo interpreta um homem entediado que inveja a liberdade de um cachorro

O Brasil daquela época talvez fosse um pouco mais otimista, existia uma esperança depositada na fase inicial do governo Lula, e Prego na Testa já era pessimista. Hoje vivemos tempos mais desiludidos, para o teatro, para o humor, para a sociedade. Isso facilita ou dificulta sua vida?

Não acho que o Prego na Testa seja pessimista e, sim, um confronto com o modo de vida da classe média, suas contradições e sua perspectiva assustada diante das mudanças sociais sobre as quais não tem – ou não quer ter – domínio. Por outro lado, percebo, sim, uma certa desilusão entre artistas, humoristas diante da falta de visão crítica da realidade que percorre algumas pessoas, a mídia, os intelectuais e, por consequência, as obras artísticas. Não vejo nada disso como dificuldade, pois quando escolhi ser artista sabia que tinha escolhido um caminho onde a ousadia e a coragem seriam necessárias. O mais importante é observar ao máximo a realidade, analisar o contexto, ter sensibilidade de aprender a cada momento para ter o poder expressivo que levante dúvidas que toque a alma do público.

A tecnologia pode ser uma aliada ou uma inimiga do humor?

A tecnologia veio mais para abrir caminhos que para anular espaços conquistados. O humor ganhou velocidade e, acredito, se democratizou mais, onde várias pessoas fazem piadas e comentários cômicos pelas redes sociais. Talvez o que ainda assuste é que muitos confundem humor com agressão ou humilhação, mas acredito que com o tempo todos iremos aprender a lidar com essa comunicação. Aliás, a própria forma expressiva vai gerando parâmetros e se estabelecendo naquilo que, apesar de ser um jogo complexo de relações, possibilitará novas convenções sociais que ainda serão assimiladas.

Uma parceria com os Satyros no palco finalmente. O que de novo o Rodolfo trouxe para o espetáculo? Ele que tem um pé muito forte na encenação, no visual…

A parceria entre Parlapatões e Satyros finalmente ganha uma encenação! Nossa proximidade ultrapassa a batalha cotidiana pela Praça Roosevelt e se consolidou em vários projetos, em especial, pela criação da SP Escola de Teatro. Essa integração artística é resultado de um sentido estético que vai além da blague entre forma e conteúdo para centrar-se no sentido social, político e histórico do teatro. Em Eu Cão Eu, Rodolfo criou um ambiente fortíssimo para a primeira leitura do texto feita pelo Gustavo Machado. Eu queria que o Gustavo fizesse a peça, mas a agenda dele, lotada de compromissos, não permitia. Até que o Rodolfo me convenceu de que deveria ser eu mesmo. Nos ensaios, o Rodolfo foi, aos poucos, retirando os recursos de apoio e jogando cada vez com a crueza da cena. A interpretação foi trazida à tona e os elementos visuais foram sendo abandonados. Fiquei um pouco surpreso, confesso, mas entendi o processo de ensaios como o treino para um salto mortal, que muito se quer e muito teme, mas que dá imenso prazer em realizar.

Postado em 16/05/2013 por Dirceu Alves Jr | Comentários

Bob Wilson estreia “A Dama do Mar” com elenco brasileiro

Os atores Bete Coelho e Helio Cicero na montagem que chega ao Sesc Pinheiros no dia 25

Em abril do ano passado, o primeiro post desse blog trouxe a crítica do espetáculo A Última Gravação de Krapp, monólogo dirigido e protagonizado por Robert Wilson no Sesc Belenzinho. Naquela visita a São Paulo, o grande encenador americano começou a dar forma a uma parceria com o Sesc para criar uma montagem com atores brasileiros. Muita gente boa passou por concorridos testes, divididos em várias etapas. O resultado começa a ser conhecido. Com adaptação de Susan Sontag, o clássico do norueguês Henrik Ibsen A Dama do Mar ganha o palco do Teatro do Sesc Santos hoje e amanhã, às 21h. Em São Paulo, a estreia está prometida para sábado (25) no Sesc Pinheiros – Teatro Paulo Autran, com sessões nas sextas, às 21h, nos sábados, às 20h, e nos domingos, às 18h, até 7 de julho. Os ingressos custam R$ 40,00 e podem ser adquiridos nas bilheterias das unidades do Sesc. Corram!

Bete Coelho, Helio Cicero, Ligia Cortez, Luiz Damasceno e Ondina Clais Castilho foram os aprovados no vestibular de Bob Wilson, que também assina a iluminação e a cenografia da produção já vista na Itália, Coreia, Polônia e Espanha com atores locais. Na trama, a condição feminina na sociedade é discutida através da personagem Elida Wangel (papel dividido pelas atrizes Ligia Cortez e Ondina Clais Castilho). Ela é uma charmosa burguesa que se casou com um amoroso viúvo, mas não consegue esquecer do fogo de uma paixão do passado e coloca em risco a estabilidade do presente.

Helio Cicero diante do cenário criado e iluminado por Bob Wilson (Fotos: Divulgação)

Postado em 14/05/2013 por Dirceu Alves Jr | 1 comentário

Nilton Bicudo reabre o consultório sentimental de Nelson Rodrigues com o monólogo “Myrna Sou Eu”

Nilton Bicudo como a conselheira rodriguiana (Foto: João Caldas)

Em 2002, eu descobri Myrna e Não se Pode Amar e Ser Feliz ao Mesmo Tempo. Confesso que o livro escrito por Nelson Rodrigues sob esse pseudônimo feminino me deixou meio obcecado. Comprei diversos exemplares e presenteei quase uma dezena de amigos, acreditando que os solteiros (como eu, na época) se consolariam com a máxima do título. Bem, mas vamos voltar para a notícia… A partir de 22 de maio, a conselheira sentimental rodriguiana vai estar personificada diante de mim – seu fã ainda hoje – e do público através do ator paulistano Nilton Bicudo. Com dramaturgia e direção de Elias Andreato, o monólogo Myrna Sou Eu entra em cartaz no Teatro Augusta nas quartas e quintas, às 21h, até 27 de junho, com ingressos a R$ 40,00.

Myrna nasceu da necessidade de Nelson Rodrigues de levantar uma grana extra, fantasma que o perseguiu vida afora. Durante dois anos, o autor de Vestido de Noiva assinou com a identidade feminina uma coluna no jornal Diário da Noite. Lá, entre as dicas sentimentais, ele destilava ironia sobre os relacionamentos dos casais e peculiaridades do universo de homens e mulheres, carregado de acidez e um tanto de pessimismo. No palco, Myrna agora lança seus conselhos através de um programa de rádio e, como corações carentes nunca saem de moda, tem tudo para arrebatar novos admiradores.

Postado em 13/05/2013 por Dirceu Alves Jr | Comentários

Denise Fraga e a expectativa de apresentar “Chorinho” na Virada Cultural

Claudia Mello e Denise Fraga na peça que poderá ser vista no domingo (19) na Praça Roosevelt (Fotos: João Caldas)

Carioca com a cara de São Paulo, a atriz Denise Fraga é uma das atrações da Virada Cultural, que se realiza no final de semana. Ao lado de Claudia Mello, ela apresenta a comédia dramática Chorinho no palco montado na Praça Roosevelt no domingo (19), às 15h30. Em cena, Denise interpreta uma moradora de rua que passa os dias em uma praça e inicia uma inusitada relação de amizade com uma aposentada rabugenta (papel de Claudia).

Quais as expectativas para essa apresentação na Virada Cultural? Como se dá para o ator essa comunicação com uma plateia realmente diversifica e capaz das mais diferentes reações?

Acho a Virada Cultural um acontecimento muito importante. É incrível o que acontece e fico feliz de ser convidada para participar dela. No ano passado, fizemos o Sem Pensar, com nossa casa de dois andares montada no meio do Pátio do Colégio pra cerca de 4 000 pessoas. Foi inesquecível. A reação da plateia é de gente que está feliz por estar ali, pessoas que muitas vezes nem têm acesso a um espetáculo dentro de um teatro, mas é também a reação de um público diversificado, gente de tudo que é jeito, que está ali por diferentes motivos. Eu me sinto fazendo parte de uma coisa importante e necessária estando lá, entende?

Assim como as personagens de Chorinho, você e Claudia estarão em uma praça, diante das árvores e do movimento da cidade. O fato de estar apresentando o espetáculo em uma praça pública vai transformá-lo de algum jeito, vai trazer uma nova energia para vocês?

Sem dúvida.  A gente já tinha pensado em fazer uma vez numa praça. Justamente por esta característica do espetáculo e para sermos modificados pela total realidade. Agora, além de ser numa praça, vai ser num acontecimento importante para a cidade. Vai ser muito bom viver esse personagem com aquela “urbanidade” toda em volta.

Os moradores de ruas podem encontrar esse espelhamento, essa identificação com vocês? E ainda mais por você interpretar um personagem talvez próximo à realidade dessas pessoas, entende?

Claro, também tem isso. Tem muita gente que mora na rua vendo a Virada Cultural. Foi lindo ver a reação deles quando fizemos o Sem Pensar no ano passado. Como eu disse, é bonito estar ali no ” cenário perfeito”. Tomara que nossos “iguais” acreditem na gente e ainda sejam tocados pela beleza, sabedoria e poesia do texto do Fauzi Arap.

Existe alguma estratégia para prender a atenção de um público tão grande e naturalmente mais disperso?

Acho que há uma dispersão natural, mas fiquei impressionada com a reação concisa da plateia nas horas de risada do Sem Pensar. É um evento que exige concentração máxima, tudo exposto, mais barulho, enfim… Mas fico num estado de extrema felicidade por isso mesmo.  Parece um show de rock.  É uma experiência que acho que todo ator deveria ter.

Para o ator existe alguma diferença ao falar para uma plateia de cem pessoas, mil pessoas ou essa infinidade que deve ver vocês no domingo da Virada?

Tudo fica maior. Você não vê ninguém, só uma multidão. Dá um super frio na barriga. Mas quando você sente que eles estão ali, concentrados em você, percebe que precisa contar a sua história independente do lugar onde está.

Denise Fraga interpreta uma moradora de rua na comédia dramática escrita por Fauzi Arap

Postado em 11/05/2013 por Dirceu Alves Jr | 1 comentário

A crítica de João Apolinário e um relevante registro do teatro paulistano

Poeta e jornalista, o português João Apolinário tem seus ensaios reunidos em dois volumes que serão lançados na quarta-feira (15)

Um jeito de escrever direto, sem meias palavras, tão enfático e explícito que era capaz de ser compreendido pelo leitor minimamente letrado. Assim podiam ser definidos os textos do crítico teatral João Apolinário Teixeira Pinto (1924-1988) publicados na Última Hora. Jornalista e poeta português, ele viveu em São Paulo entre dezembro de 1963 e abril de 1975. O livro A Crítica de João Apolinário – Memória do Teatro Paulista de 1964 a 1971 reúne 332 ensaios e 329 imagens. Dividida em dois volumes, a obra faz um relevante registro do que foi visto nos palcos paulistanos nesse período inicial da ditadura militar e também da carreira de nomes célebres como Paulo Autran, Maria Della Costa, José Celso Martinez Corrêa, Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri. O lançamento está marcado para a quarta (15), às 20h, no Tuca, em Perdizes. E que seja redescoberto um estilo de crítica que também passa pela revolução social, cultural e política.

Entrevista:

Maria Luiza Teixeira Vasconcelos, historiadora, viúva do jornalista e organizadora de A Crítica de João Apolinário – Memória do Teatro Paulista de 1964 a 1971.

Por que é tão importante trazer à tona os textos de João Apolinário?

Apolinário escrevia de uma forma singular, de um jeito muito próprio. Sempre foi um homem extremamente culto e jamais usou uma linguagem acadêmica. Ele se valia de noções de método e de sua bagagem filosófica para explicitar ideias em relação aos espetáculos. E isso levava qualquer leitor a entendê-lo.

Qual era o método dele para tornar a leitura tão acessível?

A linguagem era muito próxima do coloquial. Assim como na vida, Apolinário era muito enfático como crítico. Por isso, o leitor jamais ficava em dúvida se ele gostou ou não de um espetáculo. Apolinário se apoiava em uma tese e dava a antítese, que representava a ideia do encenador do espetáculo. Para fechar o artigo, trazia uma síntese, que é a interpretação do crítico. O Apolinário não analisava o texto escolhido pelo grupo, analisava a encenação proposta para aquele texto.

Apolinário chegou ao Brasil fugindo da ditadura portuguesa. O golpe militar de 1964 veio três meses depois. Isso deve ter causado um forte abalo, não?

A vida dele foi muito irônica e de uma perversidade tremenda. O mais terrível é sua chegada ao Brasil em dezembro de 1963 com o sonho de respirar ares de liberdade pela primeira vez. Afinal, ele nasceu em 1924 já sob uma ditadura. Teve pouco mais de três meses para desfrutar disso por aqui. Mas por outro lado essa bagagem cultural aliada à vivência política foi um grande diferencial como jornalista.

Gianfrancesco Guarnieri e Myriam Muniz na peça Tudo de Novo, peça analisada em 1970

O estilo dele era diferente do de Décio de Almeida Prado e Sábato Magaldi, dois dos nossos maiores críticos, mas de uma formação mais elitista, não?

Sem dúvida, era um contraste. Os textos de Décio de Almeida Prado e Sábato Magaldi conversavam diretamente com um leitor de tradições teatrais, de elite. Apolinário costumava dizer aos seus leitores: “você faz parte da mesma elite que eu faço, mas eu falo com uma linguagem que todos podem entender”. Ele queria tentar levar também um outro público ao teatro.

Você o acompanhava na rotina de ver peças de teatro?

Apolinário começou a fazer parte da minha vida como crítico em 1967. Antes já lia algumas coisas no jornal, claro, mas tinha outra percepção. Eu o acompanhava ao teatro sempre que podia. Só faltava nas duas noites em que dava aulas. Nas demais, eu me adequava a sua agenda. Se havia cinco peças na semana, lá estava eu também. Foi uma experiência muito interessante e proveitosa como professora de História. E acredito que para meus alunos também.

João Apolinário em sua máquina de escrever: crítico enfático (Fotos: Arquivo Pessoal)

Postado em 10/05/2013 por Dirceu Alves Jr | 1 comentário

Luiz Villaça simplifica o sonho do machão em “A Descida do Monte Morgan”

Lavínia Pannunzio, Ary França e Lu Brites em "A Descida do Monte Morgan" (Foto João Caldas)

Há dois anos, o cineasta Luiz Villaça estreou na direção teatral com Sem Pensar, texto escrito pela adolescente inglesa Anya Reiss, e protagonizado por sua mulher, a atriz Denise Fraga. O diretor despertou o interesse de uma plateia maior ao elevar muito bem o desabafo pueril de uma garota a um curioso painel das relações entre pais e filhos.

Agora, na segunda investida nos palcos, Villaça foi mais ambicioso e buscou uma peça do grande dramaturgo americano Arthur Miller (1915-2005), inédita no Brasil e também aberta para múltiplos enfoques. Em A Descida do Monte Morgan, cartaz do Teatro Nair Bello, Lyman Fel (interpretado por Ary França) é um homem de negócios que sempre condenou a hipocrisia social e pautou a vida em defesa da verdade.

A iminência da morte, depois de sofrer um acidente de carro, traz à tona um incoerente segredo guardado há quase uma década: ele é casado simultaneamente com duas mulheres. Theodora (representada por Lavínia Pannunzio) e Leah (papel de Lu Brites) moram em cidades diferentes e têm personalidades completamente opostas. Na cabeça do marido, elas são complementares. É possível ser fiel a si mesmo e aos outros? Esse é o questionamento do machão dividido, mais preocupado com a possibilidade de seu sonho de vida ideal.

Como o terreno da comédia dramática é sempre fértil para trabalhar diferentes enfoques, Villaça pegou uma história provocativa e capaz de promover grandes reflexões e lhe deu uma leitura de desenho mais leve e simplificada. Não a torna menos saborosa e ainda facilita a atenção do público. Colabora muito para isso o acento cômico da atuação de Ary França, convincente, mas sem uma intensidade dramática que renderia melhor. A densidade esperada fica nas mãos de Lavínia e Lu Brites. Elas trazem para a cena a dor e a decepção que envolve a grande contradição desse sujeito. Como pode uma pessoa tão devota da verdade ter se tornado egoísta a ponto de magoar quem mais ama por causa de uma mentira? Machismo ou amor por duas mulheres levado até o fim? No elenco ainda aparecem em desempenhos afinados os atores Fábio Nassar, Ju Colombo e Paula Ravache. Villaça fez uma opção que, mais uma vez, pode ampliar plateias. O grande destaque, no entanto, é o texto de Arthur Miller, escrito em 1991, que, mesmo em versão light, mantém o encanto.

Postado em 08/05/2013 por Dirceu Alves Jr | 1 comentário

“Toc Toc” faz cinco anos em cartaz. Parece que foi ontem

O elenco original em maio de 2008: Flávia Garrafa, Márcia Cabrita, Sergio Guizé, Rosane Gofman, Marat Descartes e Riba Carlovich (Foto: Piu Dip)

Extrair graça de temas delicados mostra-se sempre um risco: pode beirar a grosseria ou simplesmente não divertir. Grande sucesso na França, a comédia Toc Toc, escrita em 2005 por Lauren Baffie, apresenta personagens portadores de TOC, o transtorno obsessivo-compulsivo, na sala de espera de um consultório. Como o médico nunca aparece, a solução é iniciar uma terapia grupal para enfrentar a ansiedade.

Foi mais ou menos esse o início do texto publicado na edição de VEJA SÃO PAULO de 4 de junho de 2008, em que comentei a montagem dirigida por Alexandre Reinecke. A primeira sessão aberta ao público se deu em 10 de maio, no Teatro Cultura Artística – Sala Rubens Sverner, e ali começava a história de um grande sucesso dos palcos paulistanos. Nesses cinco anos, a comédia ainda cumpriu temporada no Rio de Janeiro e passou por outras oito cidades. O Teatro Cultura Artística foi destruído por um incêndio em agosto, três meses depois. Em busca de um espaço, Toc Toc transferiu-se para o Teatro Gazeta, de programação oscilante e dominado por cadeiras vazias. A regra teve sua exceção. Toc Toc formou filas pela Avenida Paulista, e o Gazeta virou um concorrido palco de comédias.

O tempo passa, milhares de peças – cheias de boas ou más intenções – entram e saem de cena o tempo inteiro, e Toc Toc continua firme e forte, desta vez no Teatro Bibi Ferreira. Já foram mais de 380 mil espectadores. Do elenco original, aquele que pisou no palco do Culturinha em maio de 2008, restou só Carolina Parra, que vivia a secretaria do médico e, hoje, interpreta Lili, representada por Flávia Garrafa nos primeiros dois anos. Lembra? A menina que repetia as frases o tempo inteiro. Andrea Mattar, Dídio Perini, João Bourbonnais, Cris Bonna, Ithamar Lembo e Laura Carvalho formam a escalação atual. Além de Flávia, o primeiro elenco trazia Márcia Cabrita, Rosane Gofman, Marat Descartes, Sergio Guizé e Riba Carlovich. “Fiz uma conta rápida de cabeça e foi uma média de 30 atores”, diz Alexandre Reinecke. “Alguns personagens tiveram três intérpretes, outros quatro ou cinco e apenas um, o Vincent, que foi lançado pelo Marat, teve seis”, completa o diretor. Entre esses nomes estão Sandra Pêra, Angela Barros, Giuseppe Oristânio, Ariel Moshe, Cynthia Falabella, Paulo Ivo, Ravel Cabral e Gustavo Vaz.

Já viu? Quer ver de novo? Toc Toc ocupa o Teatro Bibi Ferreira, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, nas sextas, às 21h30, sábados, 21h, e domingos, 19h, com ingressos a R$ 60,00 e R$ 70,00. E agora fica a pergunta? Qual é o segredo do sucesso de Toc Toc? Tenho meu palpite. Vivemos em um tempo em que muitas pessoas deixaram o juízo perfeito para trás. O que mais existe é gente dominada por compulsões e fazendo vistas grossas. Então elas devem gostar de ver uma peça divertida e bem dirigida para rir das manias alheias, não?

O elenco atual: Dídio Perini, João Bourbonnais, Andrea Mattar, Carolina Parra, Ithamar Lembo e Cris Bonna (Foto: Eduardo Tarran)

Postado em 07/05/2013 por Dirceu Alves Jr | Comentários

Cria de Antunes Filho, Lee Taylor comanda núcleo de artes cênicas no Centro de Cultura Judaica

Lee Taylor e Marcelo Szpektor em leitura dramática no Centro da Cultura Judaica (Foto: Divulgação)

O mais talentoso intérprete formado na década de 2000 pelo CPT (Centro de Pesquisa Teatral) de Antunes Filho segue os passos do mestre. Protagonista de “A Pedra do Reino”, “Senhora dos Afogados” e “Policarpo Quaresma”, Lee Taylor assumiu a coordenação artística e pedagógica do recém-criado Núcleo de Artes Cênicas do Centro de Cultura Judaica. O primeiro feito é o lançamento do curso “Poética do Ator”, destinado para jovens a partir de 18 anos com ou sem experiência de palco e completamente gratuito.

O processo seletivo para a turma inaugural – que reunirá 20 alunos no segundo semestre – será feito em junho. Para isso, os interessados devem se inscrever pela internet, levar uma foto 3X4 no dia da entrevista e apresentar uma cena individual de um minuto. Na segunda metade do curso, o diretor Eric Lenate, outra relevante cria de Antunes, comandará a montagem de uma peça com os alunos. Lenate é o responsável pelas encenações de “O Céu Cinco Minutos Antes da Tempestade”, “Celebração” e “Um Verão Familiar”, entre outras. Para maiores informações, consulte o site www.culturajudaica.org.br/nac

Postado em 04/05/2013 por Dirceu Alves Jr | 1 comentário

Erom Cordeiro entrevista Marcos Caruso: “Em Nome do Jogo” e outras coisas mais

A dupla está no Teatro Jaraguá com o suspense "Em Nome do Jogo" (Foto: Guga Melgar)

No Teatro Jaraguá, Marcos Caruso e Erom Cordeiro protagonizam um eletrizando suspense no espetáculo “Em Nome do Jogo”. A convivência desses dois atores, no entanto, já dura quase um ano, desde quando Cordeiro substituiu Emílio de Mello no início da temporada carioca e se estendeu por várias cidades. Nesse papo de camarim, Erom Cordeiro não disfarça a admiração pelo colega e mata a curiosidade que passou batida na correria das apresentações.

Erom Cordeiro: Caruso, já faz um ano que estamos em cartaz e ainda não percebi isso, então vou perguntar… Você tem alguma mania ou superstição antes de entrar em cena?
Marcos Caruso: Olha, eu jamais piso na entrada do teatro com o pé esquerdo. Entro com o pé direito no teatro, na plateia melhor dizendo. Depois, eu conto os degraus que dão no palco para não errar e entrar sempre com o direito.

Quais atores que você viu no palco ou quais espetáculos que mais lhe marcaram, aqueles que você considera realmente inesquecíveis?
Tem uma peça que realmente considero inesquecível. A montagem dirigida pelo Flávio Rangel para “À Margem da Vida”, de Tennessee Williams, em 1976. No elenco estavam Beatriz Segall, Edwin Luisi e Ariclê Perez.

Tenho o prazer de, além de contracenar, observá-lo de perto a cada sessão. Considero você dos atores mais precisos com quem já trabalhei, mas também aberto ao improviso, ao acaso. Em 40 anos de profissão já aconteceu de você ter que parar um espetáculo no meio por causa de algum imprevisto?
Ah, tem sim. Quando estávamos fazendo “Porca Miséria”, aqui em São Paulo, na metade dos anos 90. Uma bela noite… Acabou a luz. Mas não paramos o espetáculo! Tivemos que fazê-lo iluminados por 70 velas que foram acesas e espalhadas pelo palco. Foi realmente emocionante!

Sente vontade de fazer um monólogo ou nem pensa?
Sabe que está nos meus planos? Eu sempre dividi no teatro. Primeiro eu preciso aprender melhor a conviver sozinho com a minha ansiedade. Mas no futuro…

Sei que você adora o Rio de Janeiro, mas o que mais sente falta de São Paulo quando está no Rio a trabalho?
Bem, o que mais sinto falta é de reunir meus amigos em torno de uma mesa de jantar, beber um bom vinho e falar, falar de teatro…

Marcos Caruso e Erom Cordeiro: improvisos, lembranças e paixão por São Paulo (Foto: Sérgio Santoian)

Postado em 03/05/2013 por Dirceu Alves Jr | Comentários

“O Casamento” traz Nelson Rodrigues para os tempos de Marco Feliciano

Encenação foge do melodrama através do tragicômico e do burlesco (Fotos: Alexandre Catan)

Em setembro de 1966, o primeiro e único romance lançado pelo dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980) rendeu muito assunto. Assim como grande maioria de suas dezessete peças, o livro batizado de “O Casamento” provocou uma enorme polêmica e, em poucas semanas, teve seus exemplares recolhidos pela censura. A trama, calcada em temas como incesto, homossexualidade e hipocrisia social, chocou inclusive os menos conservadores em um período de entressafra dramatúrgica do autor.

É curioso perceber que, quase cinco décadas depois, o público não disfarça a surpresa ao deparar com as provocações rodriguianas. Adaptado e dirigido por Johana Albuquerque, o texto ganha o palco do Tuca e torna-se possível ouvir interjeições de espanto da plateia em algumas cenas. Em tom de tragicomédia, transitando pela farsa e o burlesco, a trama é centrada na ambígua relação de Sabino (interpretado por Renato Borghi), um rico industrial da construção civil, e sua adorada filha Glorinha (papel de Diana Bouth).  Na véspera do casamento da garota, o pai recebe a visita do ginecologista da menina, Doutor Camarinha (o ator Elcio Nogueira), e é alertado que o futuro genro (o ator Daniel Alvim) foi visto beijando outro homem.

A encenação, concebida em parceria pela Bendita Trupe e pelo Teatro Promíscuo, é absolutamente fiel ao texto original e traz uma discussão irreverente e não menos oportuna sobre o falso moralismo. Em uma época em que o debate sobre o homossexualidade ganhou muita força, em grande parte devido ao posicionamento do presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, o deputado Marco Feliciano (PSC-SP), o espetáculo tem o mérito de trazer o espírito transgressor de Nelson Rodrigues, devidamente compreendido, para a discussão do tema e servir de resposta.

Johana Albuquerque flertou com o espírito de cabaré – e para isso o cenário criado por André Cortez, formado por cortinas, é muito eficaz – e escapou completamente do melodramático. Os personagens fogem do realismo, são exagerados e trilham sem medo o caminho da caricatura. Da mesma forma, as cenas de sexo e nudez se fazem presente sem gratuidade, mas são capazes de aumentar o espanto do espectador. Nessa estética perigosa, o elenco de sete atores apresenta uma sintonia que adequa-se à proposta. Escalada às pressas para substituir Deborah Secco, que se afastou do projeto um mês antes do lançamento, Diana Bouth convence como Glorinha e o fato de ser pouco conhecida colabora para jogar luz sobre seus colegas e, principalmente, sobre os tipos masculinos. Renato Borghi, como sempre, não economiza em sua caracterização e, justamente por investir nesse excesso, reforça a personificação dos tipos de Nelson Rodrigues na proposta de Johana.

Entre os coadjuvantes, Maurício de Barros, Vera Bonilha e a surpreendente Regina França também adequam-se à sintonia em registros diversos. O grande destaque, no entanto, é o ator Daniel Alvim, que se aproveita de estereótipos opostos para construir Téofilo, o noivo gay, e Antônio Carlos, o garotão de praia que seduz Glorinha, e consegue a mais bem-sucedida fusão entre os objetivos da direção e a essência das criaturas de Nelson Rodrigues. E o melhor do conjunto é ver que ainda hoje o dramaturgo é capaz de chocar e servir de imagem e provocação para questões nebulosas da sociedade.

Renato Borghi e Daniel Alvim: personagens masculinos fortalecidos

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