VEJA São Paulo

Arnaldo Lorençato – Como, logo existo
  • Conversa de gulosos com Luisa Frey

    Postado em 27/01/2012 às 21:47 por Arnaldo Lorençato | 8 comentários

    Luisa: quarenta dias em Veneza para fazer 45 entrevistas reunidas em trinta horas de gravação (Foto: divulgação)

    Veneza em personagens e receitas

    A jornalista Luisa Frey, baiana de Salvador criada em São Paulo, deixou o frio cortante da cidade de Bonn onde mora e trabalha na redação online da empresa alemã de comunicação Deutsche Welle, para autografar “Ao Gosto de Veneza” (DBA, 128 páginas, R$ 28,00) na segunda (30), 19h, na Livraria da Vila do Jardim Paulista. Seu livro de estreia, que reúne histórias bem contadas e receitas típicas da magnífica cidade ao Norte da Itália, foi escrito em apenas três meses e apresentado no fim de 2010 como trabalho de conclusão do curso de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina.

    "Ao Gosto de Veneza": lançamento na segunda (30) na Livraria da Vila do Jardim Paulista

    Embora o texto tenha ficado pronto em pouquíssimo tempo, a intensa relação de Luisa com cidade dos doges começou em 2008, quando ela ganhou uma bolsa para estudar durante seis meses na Universidade Ca’Foscari. Desde então, a ideia de unir jornalismo e gastronomia não lhe saiu mais da cabeça. Com o firme propósito de colher informações para o livro, ela voltou para uma temporada de mais quarenta dias em Veneza no ano passado.

    Antes, tomou o cuidado de entrar em contato com o historiador americano Michael Krondl, autor de “O Sabor da Conquista: Veneza, Lisboa e Amsterdã na Rota das Especiarias”, e com a jornalista Carla Caco, que assina “Venezia in Cucina” (ainda sem tradução no Brasil). Ambos, deram à jovem Luisa, 23 anos, informações e contatos preciosos na cidade.

    Depois disso, foi em busca de personagens que lhe pareceram os mais autênticos venezianos e teriam algo a dizer sobre a gastronomia local. “Queria quebrar essa visão estereotipada da cidade formada por 117 ilhotas mais de 450 pontes e 177 canais. Minha intenção era contar como era o cotidiano das pessoas que vivem ali”, diz. Luisa conseguiu inclusive atrair venezianos para sua empreitada. O artista italiano Nicola Tenderini cedeu aquarelas e receitas de “Colori e Sapori”. Outra que embarcou no projeto foi a artista americana radicada em Veneza Sally Spector. Ela autorizou o uso de receitas de seu livro “Venice & Food”.

    Como você descobriu os personagens que fazem parte de seu livro?
    Tinha medo da receptividade dos venezianos, que são fechados aos estrangeiros. Mas consegui entrevistar 45 pessoas em 40 dias. Ajudaram muito as indicações do Michael Krondl e da Carla Coco. Depois, os próprios entrevistados foram sugerindo outras pessoas. Em alguns casos, o processo não foi tão fácil. Queria entrevistar um peixeiro do Mercado de Rialto. Com os dois primeiros que conversei, não rendeu. Só na terceira tentativa encontrei o Marco Bergamasco, que vende apenas peixes da laguna de Veneza e do Adriático.

    Qual a relação dos venezianos com os turistas?
    A maioria dos moradores queixa-se que a cidade fica muito cheia durante o verão. No Mercado de Rialto, os feirantes reclamam que os turistas aparecem para fazer fotos, mas não compram os produtos vendidos por eles.

    É possível provar culinária veneziana autêntica nos restaurantes de Veneza?
    Essa era uma das minhas perguntas recorrentes aos meus entrevistados: há uma persistência da cozinha veneziana tradicional? Quem tem um restaurante depende dos turistas e faz muitas adaptações. As donas de casas, por exemplo, dizem que a culinária autêntica ficou confinada na casa dos moradores. Elas acham que os donos dos restaurantes não se preocupam com a autenticidade e nem com a qualidade dos produtos. Usam ingredientes congelados como peixes. Umas das exceções é o Bistrot de Venise, que procura recuperar pratos do século XIV ao XVIII, muitos deles repletos de especiarias. Tanto que uma das receitas que publiquei foi retirada do livro “Saveurs et senteurs de la Sérénissime”, obra escrita e ilustrada pela francesa Michèle Teysseyre. Ela auxiliou o restaurateur Sergio Fragiacomo, dono do restaurante, em sua pesquisa sobre o receituário histórico veneziano.

    Onde você conheceu Sally Spector e Nicola Tenderini, autores das receitas de seu livro?
    Sally Spector é uma artista americana que escreveu e ilustrou o livro “Venezia e i suoi Sapori” (“Venice & Food”, na versão em inglês). Fiquei sabendo do livro dela por indicação de um livreiro da cidade, que também me contou que Sally vivia em Veneza. Encontrei seu número na lista telefônica e, então, ela me recebeu em sua casa. Sua ex-cunhada, a dona de casa de 81 anos Anna Canal, também virou personagem do livro. Conheci Nicola Tenderini o artista veneziano por acaso, ao passar diante de sua pequena galeria ao lado do Mercado de Rialto e ser cativada por suas lindas aquarelas inspiradas em paisagens da cidade. Nos tornamos amigos, ele cedeu não só as receitas que estão no livro “Colori e Sapori”, como as diversas ilustrações que já tinha prontas. Além disso, confeccionou um mapa exclusivamente para o meu livro.

    Uma barca-quitanda em aquarela do artista Nicola Tenderini

    Para fazer em casa

    Receita do confeiteiro Giorgio Garbo

    Bussolà ou esse di burano
    Ingredientes
    1 kg de farinha de trigo
    600 g de açúcar
    12 gemas
    300 g de manteiga em temperatura ambiente
    ½ colher (chá) de essência de baunilha
    raspas de 1 limão
    Modo de preparar
    Misture a farinha e o açúcar e disponha sobre uma superfície limpa. Acrescente as gemas e misture bem. Adicione a manteiga, a baunilha e as raspas e misture até obter uma massa homogênea e maleável. Forme rosquinhas ou biscoitos em forma de “esse” ou qualquer outra que desejar. Asse os biscoitos por cerca de 15 minutos em uma forma untada. Os bussolai tradicionais na forma de rosquinha têm de 5 a 20 cm de diâmetro, os “S” têm cerca de 10 cm de comprimento e são ideais para mergulhar em qualquer bebida.

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    8 comentários para "Conversa de gulosos com Luisa Frey":

    1. Comentado em 28/01/2012 às 09:36 por Guilherme:

      A Srta. Frey pratica com paixão o tipo de jornalismo mais raro nesse século XXI de manchetes e lides: o jornalismo investigativo, suado, de muito bate perna e pouco telefonema.

      Espero que o peso do Deutsche Welle não mate a curiosidade de foca dessa cidadã do mundo e que ela inicie outra empreitada jornalística assim que a coceira bater.

    2. Comentado em 28/01/2012 às 18:13 por vivien bonafer ponzoni:

      Arnaldo Lorençato nomeia seu artigo “Como, logo existo” e gostaria de sugerir outro nome complementar: “Convivo, logo sou”. Parece-me que a habilidade da jornalista Luiza Frei em conversar foi um dos ingredientes essenciais para essa bela, interessante e gostosa pesquisa, no meio dos venezianos. Parabéns ao jornalista pela divulgação e à autora por esse lançamento cujo tema é interessante, curioso e resgatador de histórias pessoais e culturais.
      Abraços,
      Vivien

    3. Comentado em 29/01/2012 às 00:25 por Arnaldo Lorençato:

      Cara Vivien, obrigado por seu comentário. Só gostaria de fazer uma pequena correção. Como, logo existo é parte do nome do meu blog: Blog do Lorençato – Como, logo existo. Um abraço do Lorençato

    4. Comentado em 29/01/2012 às 15:24 por Deni Bloch:

      Adorei!

    5. Comentado em 30/01/2012 às 10:56 por Rosa Sousa:

      Espero que este livro seja o primeiro de muitos…… com todo o empenho que ela demonstra, quem sabe o proximo nao sera sobre culinaria alema…(desculpem meu teclado esta desconfigurado e nao consigo colocar a acentuacao adequada)…boa sorte Luisa

    6. Comentado em 01/02/2012 às 14:30 por Jonathas:

      Com certeza o início de uma carreira jornalística/literária brilhante!

    7. Comentado em 08/02/2012 às 22:28 por Leandro Reuter:

      Como faço para adquir um exemplar da obra?

    8. Comentado em 09/02/2012 às 20:37 por Arnaldo Lorençato:

      Caro Leandro, obrigado por sua mensagem. Você pode comprar o livro no site da editora DBA (http://www.dbaeditora.com.br/loja/). Abraço do Lorençato

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