No escurinho do teatro com Roberto Alvim

De tempos em tempos, o teatro paulistano produz alguns mitos. Gente de talento, sem dúvida, que começa a surpreender com montagens interessantes, desperta a devoção de uma parte da plateia e de uma parte maior ainda da mídia (mesmo que as duas não sejam tão grandes assim). Para ficar em casos relativamente recentes busco na […]

Os atores Juliana Galdino e Caco Ciocler em cena do espetáculo “Amante” (foto Bob Sousa)

De tempos em tempos, o teatro paulistano produz alguns mitos. Gente de talento, sem dúvida, que começa a surpreender com montagens interessantes, desperta a devoção de uma parte da plateia e de uma parte maior ainda da mídia (mesmo que as duas não sejam tão grandes assim). Para ficar em casos relativamente recentes busco na memória os nomes de Bete Coelho e Leona Cavalli, atrizes de grande força cênica, que, na década de 1990 e no início dos anos 2000, foram fartamente elogiadas – merecidamente – e, hoje, trilham rumos não muito coerentes com a devoção do passado.

Uma unanimidade ronda, nos últimos anos, Juliana Galdino e Roberto Alvim. Ela, atriz de recursos indiscutíveis, já foi umas das prediletas de Antunes Filho. No palco, transmite uma tensão rara. É realmente fora da curva. O diretor e dramaturgo carioca Roberto Alvim baseou-se em São Paulo e, casado com Juliana, fundou a Cia. Club Noir. Juntos e ousados, eles firmaram um teatro de estética, conteúdo ambicioso e, muitas vezes, enigmático, que dá o que falar, mesmo para aqueles que não entendem muito bem suas propostas cênicas na penumbra. Provocação! Beleza. Teatro também é isso. Mas também é comunicação.

“Homem sem Rumo”, “A Terrível Voz de Satã”, “Pinokio” e por aí vai… Peças de teatro. Praticamente instalações. Talvez artes plásticas? Muito comum acabar a apresentação, e o público não entender que deve tomar o caminho de casa. Silêncio total. “Gente, o espetáculo acabou”, disse uma funcionária do Sesc cinco minutos depois de acabar uma sessão certa vez. Um casal sai do teatro e olha o cartaz. Lá está a foto de Juliana. “Era essa aqui a atriz?”, pergunta o homem. “Deve ser. Não enxerguei bem”, responde a mulher.

Com o ator Caco Ciocler, vieram “45 Minutos” e “A Construção”. Na opinião desse espectador, dois espetáculos que fazem valer o teatro. Provocativos, interessantes, cheios de subtextos, mas principalmente com um ator que bate de igual para igual com o encenador. Não seria esse o jogo? E agora está lá no palco do Centro Cultural Banco do Brasil a mais nova obra de Alvim, reunindo Juliana e Caco Ciocler, “Amante”. Inspirado na peça “A Amante Inglesa”, o autor e diretor recriou a trama da escritora francesa Marguerite Duras (1914-1996). Uma mulher comete um assassinato e corta em pedacinhos o corpo da vítima. Na tentativa de esclarecer o caso, um investigador (personagem de Bruno Ribeiro) conduz duas entrevistas, uma com o marido dela, Pierre (interpretado por Caco), e outra com a própria criminosa, Claire (papel de Juliana).

Uma grande história perdida e bons intérpretes robotizados. Só Alvim ainda não se deu conta. Se, em seus primeiros trabalhos, ele pareceu ousado e corajoso com encenações na penumbra e atores engessados, o resultado agora traz uma estética repetitiva e que desperdiça talentos. Juliana, grande atriz – de novo –, quase sempre ofuscada. “Comunicação a Uma Academia” foi uma exceção? Talvez eu seja crucificado. Talvez a função de Alvim e de Juliana me provoque e eu tenha me disposto a escrever esse texto por isso. Mas fico pensando… Será que ele principalmente não está se acomodando na chamada “região do mito”? Tomara que não. E da escuridão venha muita luz.

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